Análise – How To Sell Drugs Online (Fast) T1-T2

Não é novidade nenhuma que a Netflix continua a expandir o seu catálogo com produções culturamente diversificadas, como La Casa De Papel ou Dark, só para mencionar algumas. Entre elas esteve também a obra, sob alçada da subsidiária alemã, How To Sell Drugs Online (Fast) de 2019, que ganhou uma segunda temporada ainda este ano. Antes de mais esta série, na prática, não vos irá ensinar a vender drogas online (como é óbvio), aqui prende-se, acima de tudo, consciencializar o espectador, ao mesmo tempo que se conta algo original. Assim aproximando-se um pouco da forma de apresentação de outras séries da mesma produtora, como The End Of The F***ing World ou Sex Education.

Seja como for, How To Sell Drugs Online (Fast) é uma série baseada numa história verídica., de um jovem que se tornou num dos maiores traficantes de drogas online da Alemanha e da Europa. Mais concretamente, um rapaz chamado Maximilian, com apenas 18 anos, criou uma loja online para vender drogas a partir da sua casa. Rapidamente transformou o pequeno site, num império financeiro, o qual funcionava à base do câmbio de Bitcoins. Contudo, devido a alguns erros e deslizes, Max acabou por ser descoberto e preso. A série faz uso de alguns dos factos que aconteceram na vida real, contudo, o restante é totalmente conteúdo original, com pessoas e situações fictícias. Mas que complementarmente, criam uma história cativante.

Desta maneira, How To Sell Drugs Online (Fast) acompanha Mortiz Zimmermann (Maximillian Mundt), cuja namorada, Lisa Novak (Anna Lena Klenke) toma a decisão de dar um tempo à relação de ambos, todavia esta última acaba por se envolver com um traficante de drogas da sua secundária, Daniel Riffert (Damian Hardung). Devido a uma série de eventos, Mortiz acaba na posse de uma amostra das drogas que eram vendidas na sua escola, enquanto que um dos traficantes, Buba (Bjarne Madel), acaba por ser apanhado. Com a mágoa de ter perdido a sua ex-namorada e de se tentar integrar no padrão social da escola, Mortiz acaba por decidir vender as mesmas drogas, que conseguiu anteriormente, numa festa. Mas rapidamente, o jovem teve a ideia de tornar aquele mero acto em algo maior.

Desta forma, com ajuda do seu amigo e colega de equipa da MyTems, Lenny Sander (Danilo Kamperidis), decidem configurar o antigo negócio de venda, de itens de jogos online, para um negócio totalmente focado na venda de drogas online, o MyDrugs. Várias complicações sucedem-se simultaneamente, e ambos os fundadores do site, acabam envolvidos com outro fornecedor o GoodTimes. Por outro lado, o antigo traficante, cujas as drogas de Mortiz lhe pertenciam, decide interferir no caminho do negócio dos jovens, envolvendo estes sócios numa teia de problemas e problemas. Esta é a narrativa resumida que engloba os eventos da primeira temporada.

Apesar de bastante introdutória, com vários elementos de exposição, faz o seu trabalho, em ser simultaneamente uma obra que entretém, mas que consciencializa e alerta com os devidos avisos para o consumo de drogas. Neste sentido, várias são as vezes que a série “pausa a sua história”, para clarificar o espectador de determinadas informações ou riscos que o consumo destas substâncias pode causar, assim tendo um carácter educativo. Por outro lado, a Netflix não teve pudor em mostrar a realidade e frieza que este mundo do tráfico de drogas têm nesta faixa etária, seja pela apresentação de conteúdo explícito ou, seja pela forma como aborda estes assuntos, sem rodeios ou tabus.

A segunda temporada continua onde a anterior terminou. E sem entrar em grandes spoilers ou revelações, a história de Moritz fica ainda mais complexa e, sobretudo para o espectador, interessante de se acompanhar. Não são apenas os problemas directos relacionados com o tráfico das drogas, que How To Sell Your Drugs Online (Fast) aborda, mas também nas consequências que provoca na vida do protagonista. Na evolução do seu relacionamento com Lisa, nos problemas de confiança com Lenny ou até em lidar com problemas na sua família disfuncional, todas as áreas da sua vida, são de uma forma ou de outra, impactadas.

O que no fundo, é o que acontece em casos verdadeiros na vida real, logo reforça a imersão do espectador no enredo, ao apresentar-lhe uma narrativa com fortes aproximações ao mundo real. Ainda na segunda temporada, devo ressalvar o arco de personagem de Daniel, cuja a caracterização é enfatizada pelo protagonismo que ganhou, fazendo agora parte do negócio do MyDrugs. Pois na temporada anterior era apenas um antagonista, mas aqui, o espectador fica a conhecer mais sobre o seu passado, e respectivas motivações pessoais. Por outro lado, Moritz perde mais tempo de antena, para dar lugar a este e outras personagens, que vão assumindo um papel de maior importância na série.

A Netflix conseguiu encontrar o ponto certo, como já deixei subentendido anteriormente, entre adotar uma narrativa fictícia, com elementos reais, e com uma pitada de consciencialização social. Cada um destes elementos tem o seu devido espaço na estrutura da série, sendo que nenhum deles se sobrepõe entre si. Ainda assim, no que diz respeito aos momentos de comédia, How To Sell Drugs Online (Fast) falha em encaixá-los no momento certo, são piadas que caem muito bem, ou são totalmente descabidas. Assim é nos momentos de maior tensão e drama que está a grande parcela de entretenimento que tive com esta produção, foram várias as vezes que fiquei preso à história, tenso de saber o que estaria por vir.

Há momentos em a série “adota” um estilo mais ao nível de um documentário, onde Moritz fala diretamente com o espectador (um pouco semelhante de aquilo que muitos se lembram nos filmes de Deadpool). Ainda nestes aspectos, alguns momentos da história são contados através de mensagens de telemóvel, como se fizessem pop-up no nosso ecrã, contudo estas não têm tradução, levando em conta que se encontram em alemão, o que atrapalha por vezes.

Apesar da série ser apelidada por muitos como uma versão light de Breaking Bad, não deixa de ter o seu papel relevante na indústria de produções originais da Netflix. Pois independentemente disso, serve também como crítica social à nova geração que vive obcecada com as redes sociais, num mundo de memes, emojis e videojogos. Não necessita de recorrer aos estereótipos mais generalizados vistos em séries deste tipo, nem a nenhuma desconstrução social tentando ser uma “pseudo-obra de autor”, basta-lhe ser autêntica e fidedigna ao mundo dos jovens adultos, de hoje em dia, e é aí onde está o seu maior trunfo.

Seja como for, How To Sell Drugs Online (Fast) é uma série que entretém bastante, sendo daquelas que entra facilmente na lógica de binge-watch (assistir tudo seguido). Apesar da sua narrativa fascinante, das suas personagens terra-a-terra, do seu teor de responsabilidade social e da sua semi-adaptação de factos reais, How To Sell Drugs Online (Fast) continua como uma das séries mais subvalorizadas da Netflix, por isso recomendo que lhe dêem uma chance, pois não se irão arrepender.

Positivo:

  • Abordagem de temáticas atuais, sem pudor;
  • História cativante e interessante do início ao fim;
  • Caracterização realista das personagens;
  • Bom equilíbrio entre obra ficcional e factual;
  • Segunda temporada eleva a qualidade da anterior;
  • Prestação do elenco;
  • Mantém o espectador investido e interessado;

Negativo:

  • Humor nem sempre resulta da melhor forma;

João Luzio
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