Análise – Everything Everywhere All At Once

Se existem coisas que nunca mudam, uma delas é o facto da A24 estar por detrás dos filmes mais criativos e experimentais dos últimos tempos. Dando palco a inúmeros artistas e profissionais da indústria para produzirem do mais diverso que se faz na sétima arte. Everything Everywhere All At Once eleva a fasquia a outro patamar. Realizado e escrito pelo par Daniel Kwan e Daniel Scheinert, que haviam produzido Swiss Army Man (2016), este novo filme promete testar o público como uma experiência nunca antes vista.

Muito se tem falado deste filme recentemente, tendo inclusive alcançado o topo das listas de vários meios renomados de cinema, senão quase o primeiro lugar. Cada geração acaba por ter um conjunto de obras que marcam e que são lembrados por muito tempo, Everything Everywhere All At Once é bem capaz de ser dos primeiros da década com tal rótulo, e arrisco dizer o primeiro grande clássico desde os últimos três anos. Mas do que se trata e o que o faz tão marcante? À partida não há nada que aponte tal genialidade.

Temos uma família ásio-americana, composta por Evelyn Wang (Michelle Yeoh), matriarca e dona de uma lavandaria, juntamente com o seu marido Waymong Wang (Ke Huy Quan). O negócio encontra-se numa situação financeira sensível, que os leva a uma audição relativa à coleta de impostos com a funcionária pública Deirdre incrivelmente interpretada por Jamie Lee Curtis. Como se não fosse suficiente, Gong Gong (James Hong), pai de Evelyn regressa da China, e a sua filha, Joy (Stephanie Hsu) é quem acaba por ser colocada de parte.

Tudo se complica quando os realizadores abrem as portas ao multiverso. Se tal conceito se popularizou nos últimos anos através de Rick And Morty, este filme propõe uma visão distinta. Mesmo numa escala de grande dimensão a narrativa não se afasta do seu propósito, mantém a premissa de que é algo muito particular daquelas personagens e onde o público se consegue rever nas situações apresentadas. Não entrarei em muitos detalhes pois tudo aquilo que acontece após os primeiros vinte minutos deve ser visto sem qualquer revelação arruinada.

Ainda que siga uma disposição convencional daquilo que se entende por um blockbuster moderno, Everything Everywhere All At Once inverte as regras. A forma como a experiência é repartida em vários segmentos, mexe com as expectativas do público. Nunca sabemos quando vai terminar ou qual o caminho que vai seguir. Este aspeto inventivo diferencia-o de tudo aquilo que foi visto, pelo menos, nos últimos quinze anos, na indústria cinematográfica. Por isso tentar falar deste filme sem spoilers é um trabalho profundamente árduo, senão impossível, pois uma fatia considerável do que apresenta foi totalmente afastado de trailers.

Dá para pegar em múltiplos paralelismos que a obra faz com a realidade. Desde a questão da imigração/globalismo até mesmo a algo meta, do estado atual do entretenimento que somos expostos no dia-a-dia. É até difícil encaixar um género aqui. Temos cenas de adrenalina que replicam o cinema de Hong Kong de ação, como Police Story (1985), e bastantes, bastantes mesmo lutas excelentemente coreografadas. Fruto da atriz principal estar muito à vontade, devido à experiência acumulada em cenas de luta, cuja popularidade despoletou no ocidente graças a 007: Tomorrow Neves Dies (1997).

Isto à mistura com o humor insano dos irmãos Daniel, reverta nas cenas mais estranhas e bizarras, de forma positiva, que tenho memória. Depois há muito espaço para o conflito interno, onde o ritmo desacelera e a introspeção e niilismo ocupa o lugar de destaque na história. Onde a reflexão sobre as motivações das personagens se torna importantíssimo. Indo as atenções para a relação materna entre Evelyn e Joy. Aqui é o ponto central do guião. Tudo gira em torno disto, e nada mais é do que uma desproporção de algo íntimo, numa relação familiar, que se desencadeia numa conflito épico e catastrófico pelo multiverso fora.

A própria direção visual é tão dinâmica e bem executada, que muitas vezes ficamos presos a tentar absorver uma sequência, para logo de seguida termos outro momento ainda melhor para desfrutar. Acaba por ser uma caixa de surpresas, onde tudo é novo e onde tudo é reinventado. Uma forma pouco usual de o descrever, é que se trata de um caos organizado. É filme que desafia o público a pensar um pouco mais, a levar-se ao limite, e por incrível que pareça, a se sentir minúsculo e insignificante num cenário com tantas versões alternativas de nós próprios.

Desde as polémicas afirmações de Scorsese acerca dos filmes atuais de super-heróis, que muito se tem criado este campo de batalha: de um lado o que é “verdadeiro cinema” e o do outro oposto o “parque de diversões”. Como um todo, Everything All The Time At Once é bem capaz de ser o ponto de equilíbrio nesta balança. Agrega quem está familiarizado com as nuances habituais dos blockbusters atuais, bem como quem é um ávido consumidor de cinema autoral.

Ainda que já tenha passado algum tempo desde a sua estreia, ainda não digeri tudo aquilo que esta longa-metragem tem para dissecar e oferecer a quem arrisca vê-lo. Independentemente disso, recomendo-o fortemente, pois seja qual for o vosso ponto de partida, irão tirar de certeza algo valioso daqui. É uma crítica mais pequena e diferente do que tenho feito, mas nada mais que possa dizer ou apontar, irá conseguir descrever o quão incrível este filme é e porque devem mesmo ir  dar-lhe uma chance.

João Luzio
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