Análise – Cyberpunk 2077

A CD Projekt Red apanhou o comboio desta nova moda de tudo o que é estética futurista e ficção típica dos anos 80 que tem sido transversal desde o cinema à música. Podemos ver géneros musicais como synthwave, vaporwave e qualquer-coisawave, até ao renascer da série Blade Runner com o mais recente Blade Runner 2049. Deixando então um pouco para trás as aventuras de Geralt of Rivia em The Witcher, o estúdio polaco decidiu mudar um pouco de ares e tentar esta nova abordagem.

Desde o seu primeiro anúncio em 2012, a pressão foi-se amontoando neste novo projecto que se chama Cyberpunk 2077, e este parto levou algum tempo a acontecer. Depois de muito silêncio, vários adiamentos graças à mais recente pandemia que vivemos e até à fúria de alguns membros da CD Projekt Red, o jogo foi lançado para grande parte das plataformas da nova e anterior geração.

O jogo começa de uma maneira bastante única no qual podemos escolher a nossa história e até o local onde começamos o jogo. Cada uma destas escolhas oferece conteúdo exclusivo como missões extra, prólogo único, mas têm outros efeitos durante o jogo, como é o caso da facilidade a lidar com certas situações. No caso do Corporate, que foi a minha escolha, vou ter mais facilidade em dialogar com outras companhias como Arasaka e não só. De uma maneira resumida, apesar de parecer redundante ao início, acabamos por descobrir que têm um impacto único no decorrer do jogo.

Se gostam de RPGs na primeira pessoa com bastante exploração e muitos números na nossa frente, então estão perante a um jogo que vos irá agradar. São várias as situações que iremos encontrar neste jogo, e a maneira como as iremos abordar ficará ao nosso critério. Querem ser um vilão que é mau visto pela população? Podem ser. Querem atacar furtivamente pelas sombras, melhorar as vossas skills ao estilo ninja ao invés de rebentarem tudo pela frente? Também podem. Existe um nível de liberdade que se espera deste tipo de experiência que está presente e todo o jogo irá reagir em concordância.

A nossa Street Cred é um sistema de level-up muito específico que aumenta a nossa credibilidade perante toda a Night City, e que posteriormente irão desbloquear várias oportunidades como novos trabalhos, lojas e itens. As nossas missões extra irão aumentar esta Street Cred que apesar de um pouco facultativa, dão-nos um bom incentivo para quem gosta de experimentar todas as missões que o jogo tem para oferecer.

Por falar em Night City, esta é a cidade que servirá como tela de fundo do jogo sendo a estética um dos pontos mais importantes e tendo por base um ambiente retro-futurista onde várias culturas chocam entre entre si e onde podemos encontrar ilustres personagens e NPCs. Toda a cidade brilha com várias publicidades luminosas e cheias de neon, onde os detalhes eletrônicos e cibernéticos ocupam o palco principal e os arranha-céus são incríveis. É uma cidade pensada ao pormenor que tal como qualquer outra, tem várias zonas como urbana, industrial e até rural.

Night City tem muitos elementos que nos irão encher de curiosidade, onde não só emana crime organizado como acontecimentos que nos deixarão curiosos sobre o que se está a passar na actualidade. Coisas como a Cyberpsicosis, um problema que afecta a mente dos adeptos de augmentations e que iremos falar mais abaixo nesta crítica, são explicados em logs de texto e que falam em terapias curiosas para a cura, enfim, basta dizer que existe muito conteúdo extra para alimentar a mente dos mais curiosos do universo Cyberpunk 2077. Gostei também da maneira como algumas personagens se apresentam ao protagonista, mostram as suas ambições e acabam por morrer por aquilo que acreditam.

Tal como acontece em vários jogos com mundo aberto de hoje em dia, esta cidade está dividida em várias secções e é sempre necessário pensar nas nossas acções antes de agir. Gangues locais lideram as várias zonas e a polícia NCPD entrará em acção caso queiramos pensar em debitar chumbo por tudo o que é lado. Para além de tudo isso, temos inúmeros acontecimentos a decorrer enquanto navegamos calmamente para nossa próxima missão e que poderes agir se assim o quisermos. Situações como assaltos, sequestros ou até gangues referenciados pela polícias estão espalhadas pela cidade e podemos agir ou não em troca de uma melhor Street Cred, dinheiro e até loot.

As missões por si são excelentes e dependendo da situação poderão ter vários desfechos. Se porventura estivermos no meio de um diálogo e houver a capacidade de ter sucesso através da nossa sabedoria, podemos evitar trocas de tiros, ou então usar os nossos Eddies – dinheiro do jogo – para nos safarmos através de subornos. Temos os Gigs onde iremos ajudar pessoas influentes de cada região até a missões secundárias mais básicas. A variedade é um elemento muito bem trabalhado neste jogo em vários aspectos, tão depressa estamos a lidar com IA a querer agir como seres humanos como estamos a fazer competições de pugilismo pela cidade. Existe mesmo de tudo para todos.

O combate foi criado meticulosamente para agradar não só aos fãs de acção furtiva como de pura ação. O tutorial irá dar-nos uma ajuda quanto a isso, mas a partir do momento em que estivermos habituados com toda a mecânica, fica ao nosso critério avaliar as situações e agir em conformidade. Apesar de ser um jogador onde a força bruta e a chuva de balas prevalecem, senti que em certas situações essa abordagem não resultava e facilmente alternava o meu estilo de jogo sem parecer muito complicado. O sistema de Hacking é também uma enorme ajuda em combate, sendo possível manipular a tecnologia para tornar uma situação a nosso favor bem como para conseguir mais loot.

Armas, munições e items estão em todo o lado, portanto os fãs de scavanging que se baseia em apanhar tudo o que nos aparece à frente para vender logo de seguida, sentir-se-ão bem em casa. A arrumação de todo o menu não é propriamente o mais intuitivo e falta um sistema de marcar os items como lixo ou junk faz sem dúvida falta. Mesmo assim, o estúdio fez um bom trabalho em catalogar os items pelo tipo de raridade através de cores mostrando rapidamente o que é mais ou menos importante.

Se gostam de criar as vossas armas então têm à disposição um sistema de Crafting que permitirá criar armas de raiz. Quanto mais rara for a qualidade da arma, melhores serão os ingredientes que precisamos para as fazer e se simplesmente quiserem melhorar as existentes também as podem fazer.

Vejam também aqui a nossa video-análise:

Se as melhorias cibernéticas ou augmentations como são conhecidos na gíria gamer/geek são um dos detalhes que vos agradam, então fiquem a saber que estes estão inseridos no jogo. A secção Cyberware permite adicionar essas melhorias que substituem as nossas partes orgânicas como olhos, pernas ou mãos, e que vos oferecem um autêntico upgrade ao longo do jogo através de melhorias nas nossas estatísticas. Também temos um clássico sistema de level-up e skills que não são nada revolucionários mas que nos ajudam no nosso estilo de jogo.

Entramos então num dos aspectos mais controversos e delicados deste jogo, a apresentação e performance. A CD Projekt Red traz uma representação incrível de uma cidade retro-futurista mergulhada na tecnologia e isso é possível ver desde o jogo de cores da cidade, aos arranha-céus, até aos NPCs que lá vivem. Existe uma boa conjugação entre beleza e decadência que é transversal em todos os elementos do jogo. As várias regiões dão um bom equilíbrio a toda esta apresentação e isso nota-se bem.

Com actuações de voz de actores de renome como Matthew Yang King, Emliy Woo Zeller e claro, Keanu Reeves, as personagens parecem mais credíveis e isto graças a uma excelente performance de cada um dos actores. O mesmo se pode dizer de toda a banda sonora que consegue sublinhar com uma eficácia todos os acontecimentos do jogo, sejam eles de maior pressão ou dramáticos.

Mesmo assim, é uma experiência um pouco frustrante no que toca à sua performance. Apesar de no PC correr a uma framerate constante e boa, as versões PS4 e Xbox One estão num nível atroz. Em situações mais povoadas o jogo soluça imenso ao ponto de dar dor de cabeça e apesar de muitos terem reportado bugs e acontecimentos paranormais incrivelmente hilariantes, foram poucos os que encontrei nas minhas horas de jogo que felizmente em nenhum instância me arruinaram a experiência de jogo. É um estado inadmissível para um jogo que apesar de poder ser corrigido no futuro, não podem ser ignorados nesta altura de lançamento.

Depois de várias horas em Cyberpunk 2077, houve muito pouco que pudesse queixar sobre este jogo. Adorei este jogo sem sombra de dúvida. Os anos de trabalho estão claramente aparentes: este é um projecto bem pensado, estruturado e que oferece uma excelente experiência para os fãs. Para o desagrado de muitos, o timing do lançamento e a transição geracional de consolas poderá não ter sido o melhor, e os inúmeros bugs e problemas graves de lançamento que o pragaram estragaram aquilo que de momento não o é, mas no futuro poderá ser um excelente jogo.

São poucos os jogos que sobrevivem ao hype gerado, e Cyberpunk 2077 é um dos poucos que por pouco falhava este teste graças à deficiente vertente técnica. Graças ao facto de ter uma história envolvente, uma jogabilidade muito bem equilibrada e um mundo convincente, esta é uma representação excelente de um tipo de ficção que tem ganho uma enorme tracção desde a última década.

Positivo:

  • Um enredo muito bom acompanhado por boas personagens
  • Variedade no estilo de missões
  • Night City é uma cidade muito bem trabalhada e com muitas histórias para contar
  • Longevidade
  • Inúmeros pontos de configuração e personalização da nossa personagem

Negativo:

  • Sistema de inventário podia estar melhor
  • Desastre no que toca a performance


(Versão Xbox One testada)

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