Análise: 12 Years a Slave – 12 Anos Escravo

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Anualmente, centenas de filmes atingem os cinemas, mas poucos reúnem unanimidade nos críticos, espectadores e profissionais da área. 12 Years a Slave é um desses fenómenos, chega a Portugal com o título de “grande candidato aos Óscares”. Será 12 Anos Escravo um filme especial?

Academia de Artes e Ciências Cinematográficas é composta por seis mil membros (actores, cineastas e profissionais ligados ao cinema), sendo o Óscar o símbolo que distingue os melhores, sinal de reconhecimento da elite, que distingue o desempenho extraordinário nas várias áreas técnicas. Ao longo da história, Hollywood demonstrou sensibilidade especial por dramas inspirados em factos reais (Lista de Schindler), personagens fortes (Forrest Gump) e histórias que transcendem o banal (Argo), elementos presentes no novo filme de Steve McQueen..

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12 Years a Slave narra a jornada de Solomon Northup (Chiwetel Ejiofor), um homem negro, mas livre, num cenário anterior à Guerra Civil Norte-Americana. Solomon Northup, reconhecido violinista, vivia em Nova Iorque, com a família, até que é aprisionado e vendido enquanto escravo, ficando doze anos de uma vida à mercê dos caprichos dos fazendeiros no Sul dos Estados Unidos, longe da família e da verdadeira identidade.

O elenco é composto por grandes actores, onde se destacam Chiwetel Ejiofor (possível candidato ao Óscar de Melhor Actor), um intimidante Michael Fassbender, Paul GiamattiBenedict Cumberbatch e Paul Dano.

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Steve McQueen é, indiscutivelmente, um realizador talentoso. McQueen entendeu a força da história, dando a entender uma enorme pesquisa acerca da realidade dos escravos num cenário pré-guerra civil. Visualmente, estamos na presença de um filme belíssimo. A produção não se fez rogada, e escolheu cenários fantásticos, o guarda-roupa está de acordo com a época, e os ambientes distinguem a clivagem social. A direcção de fotografia é notável, com a iluminação de acordo às necessidades (cenas à luz da vela e cenários repletos de penumbra). A banda sonora também é digna de destaque, da responsabilidade do premiado Hans Zimmer (Rush).

Devido aos elogios, a opinião sobre 12 Years a Slave poderá estar a ser beneficiada pelo efeito bola-de-neve, existindo, no entanto, erros grosseiros incólumes. Na narrativa clássica (o caso), existe um momento imprescindível na acção, nomeadamente, o plot point, ou decisão de não retorno, que coloca o protagonista perante uma decisão que levará a um destino, e não a outro. Em 12 Anos Escravo, o plot point (per si), acontece antes do Inciting Incident (acontecimento que desencadeia a decisão de não retorno). Jogada de mestre? É possível, afinal a história desenrola-se, mas desinteressante, tendo em conta que o protagonista não é chamado a tomar decisões, ficando dúbia a verdadeira personalidade do protagonista. Durante o filme, Solomon Northup sobrevive ao sabor dos acontecimentos, e raramente assume uma atitude, ou intenção, para mudar as forças do antagonismo. Ao menos, em GravityRyan tinha o poder de decisão, mesmo que fosse deixar-se explodir na nave espacial ou mover-se do ponto A para o ponto B.

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Steve McQueen não sai ileso das deficiências do filme, a edição é atrapalhada, com cenas do segundo acto na exposição (porque é moda), omissão de uma explicação no inciting incident, e, o mais grave, para um filme chamado 12 Anos Escravo, é mansinha a sensação de ausência de liberdade (promovida pela insistência em planos gerais, para explorar a “beleza dos locais” de rodagem). Claramente, o realizador devia ter visto mais vezes Os Condenados de Shawshank e menos a Música no Coração.

Apesar de carismático, é complicado estabelecer uma relação empática com Solomon Northup. A angústia vai toda para a injustiça que foi a escravidão – pessoas que não tinham direito à liberdade devido à cor da pele.

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Felizmente, o que é bom em 12 Anos Escravo, está excelente. As interpretações são fantásticas, vemos personagens e não actores (raro no cinema moderno), as cenas com cariz violento são aterradoras e a forma austera como os escravos são tratados dá o que pensar.

12 Anos Escravo ficou curto. É bonito que se faça jus à história verdadeira de Solomon Northup, mas é um protagonista que prefere sobreviver em detrimento de lutar, e que coloca o destino nas mãos dos outros. A desgraça e a consolação caem-lhe no colo e não é o paradigma do sofrimento da escravatura. Devo um tremendo pedido de desculpas a Tarantino por Django.

 

Positivo

  • Produção
  • Planos em continuidade de altíssima exigência
  • Cenas poderosas
  • Clímax comovente

 

Negativo

  • Exposição
  • Elenco notável de cameos
  • Quvenzhané Wallis subaproveitada
  • Onde está a moral da história?

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alpha

vi este filme á bocado no warez e gostei é tipo um django de drama sem acção mas com boas interpretações

marceloo447

Excelente análise, só tenho ouvido dizer que é espetacular e mais não sei o quê, até li numa revista que ia arrecadar uma mão cheia de Óscares. Acho que é mesmo o efeito bola de neve mas é mesmo um filme que quero ver so depois poderei ter uma opinião!

Edgar Silvestre

é uma análise, se formos pela maioria, provavelmente eu estou errado. mas tem bons momentos

tylarth

Eu vi o filme há uns dias, tenho a dizer que fui às cegas, não conhecia o livro que deu origem ao filme nem sequer tinha ouvido falar do filme antes de entrar na sala. Escusado será dizer que a certa altura do filme me deu para rir porque só me vinha há cabeça o Sherlock Holmes, no entanto passou depressa porque o filme tem uma temática pesada e acaba por passar a mensagem sobre a escravidão e a maneira como controlavam os escravos sendo feitas referências clássicas a essa condição social durante todo o filme.
No fim do filme posso confirmar que houve muitas lágrimas na sala algo que não via a acontecer em primeira mão há muito tempo.

André O Maior

Aconteceu-me exatamente o mesmo lol

André O Maior

Nomeado para óscares? Eu começo realmente a achar que as pessoas que atribuem os óscares têm uma memória incrivelmente curta. Porque é que a grande maioria dos nomeados e vencedores são sempre os filmes que saem no fim/inicio do ano?? No ano passado então… Argo, Django, Lincoln, Silver Linings…

Vi o filme no sábado porque ouvi falar muito bem dele. Tinha as expectativas em alta e foi uma desilusão. Eu gostei, mas estava à espera de muito mais.

Nirvanes

Porque os que ficam para trás são – quase sempre – esquecidos. Porque tornou-se num sistema um bocado injusto, onde os filmes mais recentes beneficiam por estarem mais frescos na memória. É quase quase sempre assim. Por isso é que esta é a altura onde o cinema fica em alta, antes dos óscares.

Vasco Neves

O mesmo acontece com os videojogos, se veres bem. Normalmente, os jogos que saem no último terço do ano, são os jogos com mais nomeações para jogo do ano e acabam quase sempre por ganhar devido a isso.

Nirvanes

Bem isto é surpreendente, mas vou ter de avaliar melhor quando for ver se és tu ou os outros que estão ‘errados’. Este é o terceiro filme de um realizador em ascensão, o primeiro que não é ele que escreve. Mas é claramente um filme mais virado para os óscares. A ver vamos!

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