O que leva uma produtora cinematográfica a avançar para um projecto? Será o estatuto do realizador? O elenco? Ou o guião? Eventualmente, uma mistura dos três, de todo o modo, um elemento, anterior a qualquer processo, é imprescindível: a premissa. Ou se preferirem, a story line. Em Hollywood, a story line é entendida enquanto parágrafo com cinco linhas, capaz de convencer um produtor a apostar num projecto durante uma viagem de elevador. Lucy enquadra-se nessa óptica, ou seja, uma premissa intrigante e virgem, com sumo suficiente para originar um filme acima da média.
Evidentemente que a premissa é o ponto de partida, mas é igualmente importante perceber de onde a história vem e para onde vai, sendo o caminho trilhado com eventos, construção do personagens e, dependendo da visão/necessidade do realizador, detalhes artísticos que acrescentam valor à obra (vejam a análise de The Grand Budapest Hotel).
Lucy narra a história de… Lucy (interpretada por Scarlett Johansson), uma norte-americana sem objectivos de vida, cujo dia-a-dia não transcende as festas e paródia (acho eu, porque esta informação não está clara no filme). Lucy conhece Richard (Pilou Asbæk), um vigarista que coloca Lucy numa embrulhada de crime, homicídios e tráfico de droga. Pese embora o cenário dantesco, Lucy adquire superpoderes, que despertam o controlo gradual da capacidade cerebral.
Além de Scarlett Johansson, que faz o que lhe mandam na arte da representação (que raio de direcções a actriz foi sujeita?!), o elenco conta ainda com Morgan Freeman (faz o mesmo personagem há algum tempo para cá), Min-sik Choi, Amr Waked, Julian Rhind-Tutt, Analeigh Tipton, Nicolas Phongpheth, Jan Oliver Schroeder e Luca Angeletti.
A realização de Jean Luc Besson é um tremendo desperdício de talento, com enquadramentos/ movimentos de camera “à craque” e opções interessantes, mas isoladas e engolidas por desvaneios intelectuais, impostos ao espectador como uma garfada de brócolos a uma criança de 5 anos.
Nos restantes domínios técnicos, há a salientar a interessante direcção de fotografia (cores frias), uma edição desconcertante/bizarra e uma montagem sonora aceitável.
Lucy é um disparate cinematográfico, um daqueles filmes que cria remorsos pela compra do bilhete. Apesar da premissa interessante – o que aconteceria se controlássemos a totalidade do nosso cérbero – o experiente Jean Luc Besson (5º Elemento) não teve arte nem engenho para desenvolver um filme sólido e sustentado. Os eventos não seguem uma sequência lógica (são despejados sem critério), a intenção dos personagens é aleatória e há uma valorização do efeito sobre o conteúdo.
Andava no ar um cheirinho a novidade, semelhante ao perfume de Matrix, mas essa esperança acabou por estatelar-se por terra nas primeiras cenas, com sucessivas incoerências narrativas e alguma petulância de Luc Besson. Talvez o tema não esteja preparado para uma longa-metragem (eventualmente uma curta ou um videojogo), de todo o modo, não é seguramente o filme que está nos cinemas.
Positivo
- Alguns elementos na realização
- Direcção de Fotografia
- Scarlett Johansson é a MVP
- Premissa
Negativo
- Enredo
- Clímax
- Incoerências
- Incapacidade do filme em estabelecer as regras do jogo
- Product placement
- Morgan Freeman explica o plot
- Análise – Star Wars: O Despertar da Força / Star Wars: The Force Awakens - Dezembro 18, 2015
- Análise – SPECTRE - Novembro 6, 2015
- Análise – Quarteto Fantástico / Fantastic Four - Agosto 12, 2015




