Antes de começar, todos sabemos que qualquer tipo de “award show” é algo que não devemos levar a sério. Ao contrário do que todas as industrias envolvidas nos querem fazer acreditar, “award shows” são apenas algo que pessoas com dinheiro decidiram criar, daí haverem múltiplos prémios para cada industria e não apenas um específico. Neste caso, The Game Awards é apenas um de muitos outros programas que, por alguma razão ou outra, muitos decidem acreditar que é a palavra oficial da indústria de videojogos no que toca aos melhores jogos de sempre.
Existe um grande problema, que curiosamente afecta a maioria de todos os outros programas do género. Este problema sendo que as escolhas são feitas apenas por um júri em particular, que na maioria dos casos tem gostos específicos e focam-se apenas no conteúdo “local” (neste caso América do Norte), ignorando a maioria da indústria que reside no resto do mundo. Mas como The Game Awards é o programa mais popular do género no que toca a videojogos (sim existem muitos outros que acabam por ser ignorados), em especial devido a todos os negócios que Geoff Keighley faz para trazer trailers exclusivos (a razão principal pela qual todos decidem ver o programa) e o habitual elenco de convidados que não sabem nada de videojogos e que os fãs em questão não estão interessados em ver, este é o programa que tem toda a atenção da maioria dos jogadores ao redor do mundo.
No entanto torna-se óbvio à medida que o tempo vai passando o quanto este programa ignora certa parte da indústria, incluindo os vários problemas que surgem devido a jogos estarem nas categories erradas ou excepções especiais serem feitas para certos jogos em particular. Podem dizer que muitas companhias Japonesas tem o seu lugar no programa, mas quantas dessas companhias e jogos são mainstream enquanto que tudo o resto é ignorado, com a excepção do lado Americano que vai sempre dar destaque a qualquer jogo indie ou companhia nova que surja.
Por exemplo, no ano passado a companhia Hypergryph lançou um jogo premium mobile, isto é, um jogo mobile pago e sem qualquer tipo de microtransação, chamado Ex Astris. Numa era onde jogos premium mobile são raros e o mercado mobile está infestado com jogos gacha, seria de esperar que a industria desse o foco necessário a Ex Astris, não é? Não. As escolhas de 2024 foram Balatro, Wuthering Waves, Zenless Zone Zero, AFK Journey e Pokémon Trading Card Game Pocket. Quantos jogos desta lista é que são exclusivamento mobile? Um. Qual é o jogo que ganhou nesse ano? Como deveriam de saber, Balatro. E porquê? Porque é um jogo não Asiático. Não me espantaria se os outros quatro candidatos estivessem lá apenas para encher a lista e que o júri que os sugeriu nunca lhes tocou. E com isto não quero dizer que Balatro é um jogo mau, mas é óbvio que as pessoas envolvidas em criar estas listas de jogos do ano não se dão ao trabalho de fazer a pesquisa necessária, em especial tendo em conta que este é o trabalho deles porque todo o júri é composto por jornalistas cujo trabalho é falar sobre videojogos.
Pondo isso de lado, é óbvio que na maior parte das vezes The Game Awards é mais um concurso de popularidade do que uma crítica actual sobre os jogos que saíram durante o ano, e é por essa razão que não deve ser levado a sério, excepto que é por muitas pessoas em especial múltiplos streamers que acabam por fazer a situação pior quando o seu jogo favorito não ganha. E é devido a isso que pelo menos Geoff Keighley devia de corrigir o erro grave de o júri não fazer o seu trabalho de casa e atribuírem jogos em certas categorias apenas para encher sem sabem do que se trata, ou de meterem múltiplos jogos nas categorias erradas. Já para não falar das escolhas que fazem erguer a sobrancelha porque não faz sentido nenhum que algumas escolhas estejam lá.
Porque razão vamos ter uma streamer Japonesa na categoria de Content Creator? Porquê esta categoria para começar? Duvido que o júri vejo qualquer destas pessoas, em especial alguém que não tenha Inglês como lingua principal. Pelo menos no ano passado todos sabiam a razão pela qual Usada Pekora foi selecionada como uma das candidatas. É bastante óbvio que a razão pela qual Konatsu Kato foi selecionada é porque ela tornou-se viral por reagir ao seu rolo em Silent Hill f. Não existe mais nenhuma explicação para além disso, senão porque é que nos outros anos nunca tivemos actores não ingleses nas nomeações? Porque é que estamos sempre a ver os mesmos nomes na lista? Mais uma vez, o júri não quer saber e isto acaba por ser um concurso de popularidade. Pessoalmente, mesmo que Clair Obscure: Expedition 33 tenha um bom elenco, eu diria que a performance de Aaron Paul em Dispatch foi fenomenal e digna de mais atenção.
Outro exemplo deste ano seria a categoria Mobile. Enquanto que seja um pouco dúbio o facto de Uma Musume estar lá uma vez que o jogo saiu à quatro anos atrás no Japão, não faz muito sentido que Wuthering Waves esteja presente para além do simples “encher a lista”. Isto porque faria mais sentido se Wuthering Waves estivesse na categoria “Ongoing” ou “Community Support“. Falando de Wuthering Waves, muitos reclamaram o facto de o jogo estar presente na categoria “Players Voice“. Eu discordo da opinião, para mim o critério para “Players Voice” é o mesmo que todas as outros categorias, o que inclui “Ongoing” e “Community Support“, onde o jogo devia estar. Sendo um jogador activo de Wuthering Waves (sim também joguei Expedition 33 e Dispatch) é na minha opinião que o jogo merece estar na categoria “Players Voice“, pois a Kurogames tem feito um trabalho fenomenal em termos técnicos, sempre a inovar a cada update e sem medo de experimentar para ver o que cola e o que não cola, e na criação do ambiente, com imensos cenários fantásticos incluindo o mais recente mapa Honami que é um dos locais mais incríveis de sempre. O staff de Kurogames merece este reconhecimento pelo trabalho que tem feito e o amor e dedicação ao jogo, tornando Wuthering Waves numa experiencia dentro dos jogos do mesmo género.
Provavelmente a maior “controvérsia” da noite seria o facto de Clair Obscur: Expedition 33 ganhar a maioria das categorias onde foi nomeado, ou de a maioria das categorias terem os mesmos jogos vezes sem conta, não dando lugar a outros jogos que talvez mereciam um bocado de reconhecimento memo que não estivessem destinados a ganhar. Por exemplo o remake de Trails in the Sky 1st Chapter muito que merecia um lugar na lista não só por ser um óptimo jogo com uma boa história e personagens mas também por ser um dos melhores remakes da década. E por muito bom que Clair Obscur: Expedition 33 fosse, o facto que saiu vitorioso contra Kingdom Come Deliverance 2 é algo que faz coçar a cabeça. Sim Clair Obscure: Expedition 33 é um óptimo jogo e a sua jogabilidade é o ponto alto da experiência, mas Kingdom Come Deliverance faz um trabalho excepcional no que toca a simular vida medieval, seguido por uma história e personagens interessantes. Não existem muitas experiencias como Kingdom Come Deliverance tal como não existem muitas experiencias como Death Stranding. E por muito bom que um jogo tenha sido, é certo que em certas categorias existe algo melhor. Não é apenas porque um jogo é selecionado como Game Of The Year que quer dizer que irá ou deva ganhar todas as outras categorias ou que seja inferior apenas porque outro jogo foi melhor em certos aspectos.
Podia fazer uma lista enorme apenas com o que esteve errado este ano, mas é bastante óbvio que o The Game Awards é cada vez menos sobre videojogos e os críticos a darem uma opinião válida e mais sobre quantas companhias pagam para ter um trailer no evento, ou quantas celebridades são convidadas. Chegamos a uma altura onde tanto o The Game Awards como o Summer Games Fest, ambos organizados por Geoff Keighley, são piores que a E3 no que toca a celebrar videojogos. Mesmo tendo em conta que estes eventos não digam nada e são votos de popularidade, a realidade é que no fim do dia acabam por ter um pouco de influência na industria e jogadores. E é devido a isso que pelo menos o júri devia ter mais atenção às suas nomeações e categorias, e uma boa maneira de corrigir isso seria alargar as nomeações do júri e incluir outros jornalistas e editoriais da industria, embora sim haja o problema de alguns países receberem jogos mais cedo que outros. Mas seria um passo na direcção correcta e um bom início para um programa mais respeitável da industria.
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