Análise – Tenet

O ano de 2020 tem sido um período incerto no que toca ao mercado cinematográfico, ora um filme é adiado para o ano seguinte, ora é lançado diretamente em streaming. No entanto, uma das grandes estreias do ano, senão a maior, conseguiu o seu lançamento fixo, em algumas salas de cinema, mesmo perante a situação de pandemia. Refiro-me a Tenet, da autoria do conceituado director de cinema moderno, Christopher Nolan, cujas produções têm marcado fortemente a cultura pop e até as futuras gerações de cineastas. Efetivamente, Nolan tem sido um dos grandes protagonistas no que diz respeito à reinvenção do cinema moderno, especialmente desde os anos 2000.

Portanto, não é de estranhar que Tenet tenha ganho toda a atenção da crítica e do público, muito antes de sequer ser lançado. Antes de mais vale ressalvar que Tenet é igualmente o regresso de Nolan, após três anos de ausência, no meio cinematográfico, e tendo em conta a receção mista de Dunkirk (2017) este retorno era mais que bem-vindo e muito aguardado. Esta produção está recheada da marca tão reconhecível e icónica de Nolan, desde os planos cinematográficos até ao próprio conceito rebuscado do filme.

De facto, por vezes, Tenet ecoa outras obras anteriores do realizador, misturando, por exemplo,  elementos da narrativa de espionagem de Inception (2010), com a abstração de Memento (2000). Apesar disso, Tenet entrega a sua própria experiência que, a meu ver, é ímpar e excecionalmente distinta de qualquer uma vista nos últimos dez ou mais anos. E isto, para além daquilo que irei mencionar posteriormente, deve-se sobretudo ao facto de ser uma película, que beneficia de ser assistida numa sala de cinema.

No que toca à história, em Tenet acompanhamos o protagonista do filme (John David Washington), enquanto membro de uma organização de mesmo nome, contudo, nem ele nem o espectador sabe de imediato qual a sua função exata no panorama geral. E isto deve-se sobretudo, ao facto de que Nolan optou por conduzir a narrativa, sob determinados moldes que opõem aqueles seguidos pela maioria da indústria atualmente. Isto é, em vez de utilizar a sobre-exposição daquilo que está a ser apresentado, opta por explicar o mínimo possível (quando não é subentendido nas entrelinhas) o que efetivamente está acontecer no ecrã.

Posto isto, este Protagonista, cujo nome nunca é revelado, para além de se ver envolvido num esquema de espionagem contra um barão russo, Andrei Sator (Kenneth Branagh), é também exposto a uma tecnologia arrojada, cuja utilidade abraça a mitologia das viagens no tempo. Contudo, aqui não se trata exatamente de “viajar no tempo”, mas sim de regredir nele, em outros termos, significa alguém inverter-se temporalmente, indo do dia de hoje para o dia anterior, como se fosse um relógio que andasse para trás. A postura de Nolan face à exposição desta concepção abstrata, é completamente remota, uma vez que pouco faz, para que o espectador perceba as suas nuances, pois dá primazia à experiência em si, menosprezando compreensão do que está acontecer.

Esta distância entre o entendimento da narrativa por parte do espectador, face ao constante bombardeamento de informação no ecrã, faz com que Tenet seja um filme complicado de se perceber na sua totalidade. É provável que determinadas pessoas prestem mais atenção a certos detalhes do que outras, mas no geral, é certamente o filme mais emaranhado de Nolan. É mesmo daqueles que nos faz refletir e debater após o vermos, quiçá capaz de fazer os mais curiosos, repetir a experiência mais uma vez, para tentar entender Tenet no seu conjunto. Daí que simultaneamente, Tenet seja tanto um filme que todos deveriam experienciar, como aquele que eu menos recomendo ao espectador casual assistir, devido à sua complexidade abstrata e indelineável.

Nesta jornada, o Protagonista irá cruzar-se com outras personagens, que estão também enroladas nesta teia de mistérios e conspirações, como é o caso de Neil (Robert Pattinson), parceiro sigiloso do Protagonista. E ainda de Kat (Elizabeth Debicki), esposa de Sator, que quase se encaixa no triângulo de intérpretes do filme, juntamente com o Protagonista e Neil. Para a minha surpresa, Kat foi das melhores escolhas do elenco, não só pela sua atuação, que serve como o principal alicerce emocional da história, mas sobretudo pela sua caracterização e envolvimento no decorrer da ação.

O que me leva a um dos pontos mais custosos da experiência, que se prende com a reduzida definição das personagens. Como Tenet dá preferência ao conceito/ambientação face aos seus integrantes, acaba por torná-los vazios de caracterização, tirando a excepção de Kat. Tirando um ou outro aspecto pontual, pouco ou nada é feito para que o espectador se interesse pelas personagens, o que tem um efeito negativo, nas cenas de maior carga dramática e antecipação.

A principal figura antagónica que se opõe na rota do Protagonista, Sator é tecido nos mesmos moldes daquilo que se seria esperado dos vilões clássicos da saga de James Bond. Cuja combinação do sotaque russo, com a tentativa de executar um plano ego maníaco, se encaixa perfeitamente neste estereótipo tão badalado. Até outros atores veteranos da filmografia de Nolan, têm muito pouco tempo de antena, tais como Michael Caine ou Martin Donovan, que apenas lhes são dadas uma ou outra frase de exposição da narrativa ao Protagonista, funcionando quase como um mero cameo.

Tenet aposta e muito nos elementos práticos, face ao teor narrativo, é quase como comparar um livro bastante detalhado narrativamente, em comparação a uma pintura fortemente carregada de detalhes. Para alguns espectadores, esta decisão é exatamente o que eles procuram, pessoalmente prefiro algo emocionalmente carregado, amarrado numa narrativa consistente e repleta de caracterização. O que no final das contas, é precisamente o oposto daquilo que Christopher Nolan entrega com esta película. Uma vez que a nível técnico a habilidade para misturar o design de som, com a cinematografia widescreen é soberba.

Estes aspectos sobressaem ainda mais, nas cenas de ação, as quais estão repletas de informação e envolvidas num equilíbrio audiovisual, que poucos directores conseguem almejar. No que diz respeito à banda sonora, e ao contrário das restantes produções que tinham o cunho de Hans Zimmer (pois trocou a oportunidade para trabalhar na recente adaptação de Dune), esta ficou totalmente a cargo de Ludwig Goransson. Para um filme que mistura este conceito abstrato de inversão temporal, Ludwing consegue fazer um trabalho de mestre a incorporar as faixas musicais, em harmonia com a ação, simultaneamente que reverte, quando necessário, estas últimas.

Tenet, e sem entrar em grandes spoilers, trabalha em grande parte, aquilo que poucas obras ousam fazer: mexer drasticamente com a estrutura típica de um filme. Aqui, não se trata apenas de alterar entre passado ou futuro, ou recorrer a cenas de analepses, mas sim em criar uma narrativa simétrica, que comunica bastante bem entre o início e o fim, sendo o seu meio, a interseção destes dois pontos de vista. Esta concepção está muito bem conseguida, e implementada, independentemente da dificuldade de cada um, em encaixá-la cronologicamente na sua cabeça. Tenet consegue inclusive ser mais desafiador que o seu semelhante, disruptor temporal, Memento (2000).

Tenet pode muito bem ser definido pela máxima do «mais importante do que a chegada, é a própria caminhada». Sem dúvida, que a mais recente produção de Nolan entretém e envolve o espectador numa história de ficção científica, com vários elementos de espionagem. Os efeitos práticos e a forma dinâmica de gravar as mais variadas cenas, compensa face à escassa ligação emocional com as personagens. Sim, Tenet é uma experiência difícil de ingerir e por vezes, excessivamente complexa. Contudo, para aquilo que devolve ao espectador, quer tenha ou não percebido, vale muito mais.

Se a maioria dos filmes de Nolan requerem toda a atenção do espectador, Tenet requer a entrega de corpo e alma àquilo que está a ser apresentado, pois cada mínimo detalhe irá ser revelante para o entedimento geral. Todavia, a apesar de tudo o que apontei, Tenet não deixa de ser o grande ponto alto do ano, pelo menos por agora. É uma experiência cinematografia visualmente incrível. O verdadeiro segredo para se desfrutar Tenet, consiste nas mesmas palavras que uma das personagens utiliza, para explicar o conceito da inversão – «Don’t try to undestand, feel it».

Positivo:

  • Trabalho de direção e de edição;
  • Efeitos práticos bem conseguidos;
  • Beneficia da sua exibição numa sala de cinema;
  • Experiência audiovisual incrível;
  • Estrutura narrativa simétrica;
  • Imersão do espectador;
  • Prestação de Elizabeth Debicki;
  • Banda sonora;
  • Conceito de inversão do tempo;

Negativo:

  • Experiência difícil de se entender na totalidade;
  • Primeiro acto confuso;
  • Caracterização das personagens;
  • Andrei Sator;

João Luzio
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