Análise – Mythic Quest: Raven’s Banquet T1

Por vezes as sitcoms conseguem ir buscar temas e situações um pouco inesperadas, e nunca tinha pensando numa série desse género na área do desenvolvimento de videojogos. E é mesmo esse o núcleo central que está na base de Mythic Quest: Raven’s Banquet. Assim, esta série produzida pelo serviço de streaming, Apple TV+, vai ao encontro, sob um tom humorístico, dos principais problemas e obstáculos que muitas empresas focadas na criação de videojogos têm de enfrentar diariamente.

Aqui acompanhamos de perto o ambiente de trabalho de todo o tipo de funcionários ligados ao ramo de gaming, os quais trabalham no desenvolvimento do jogo Mythic Quest, uma espécie de MMORPG medieval com elementos de fantasia. O que torna a elaboração deste jogo tão interessante, não é apenas relacionado com as situações que daí resultam, mas sobretudo, com as personagens envolvidas nesse processo. Por este ângulo, acompanhamos Ian Grimm (Rob McElhenney), o director criativo deste jogo, que tem a missão de preparar os seus colaboradores para a criação de uma expansão para Mythic Quest (MQ), a Raven’s Banquet, que dá a temática a esta primeira temporada.

Equipa esta composta por, Poppy Li (Charlotte Nicdao), a desenvolvedora geral do jogo, que tem uma forma muito autêntica de expressar as suas frustrações naquele ambiente e especialmente com o seu superior. David (David Hornsby), produtor executivo, que tem um temperamento um tanto ansioso para lidar com as situações, Brad (Danny Pudi), responsável pela parte financeira, C.W (Murray Abraham), um escritor veterano encarregue pelo lore do mundo de MQ. E ainda de Dana (Imani Hakim) e Rachel (Ashly Burch), ambas game testers

Apesar da história da série seguir um fio condutor compartilhado, cada episódio é único, na medida em que apresenta uma circunstância diferente que pode ou não envolver as personagens todas. Visto que cada uma delas representa uma personagem tipo, naquilo que se poderia esperar num ambiente de trabalho destes, inclusive, reflecte situações e problemas verídicos que pessoas que fazem parte desta indústria acabam por ter de passar. Desde o chefe autoritário focado na sua ideia, que menospreza o valor dos seus funcionários, ao executivo preocupado na segurança do projecto que faz de tudo para satisfazer as necessidades do estúdio.

Portanto, Mythic Quest: Raven’s Banquet nada mais é de que uma série que reflecte humoristicamente grande parte dos estereótipos que se podem encontrar numa equipa de produção de um videojogo. Neste sentido, há também a parte externa envolvida, como é o caso de um streamer, Pootie Shoe (Elisha Hening) que acompanha de perto Mythic Banquet, e no impacto que este tipo de meios pode ter na produção do jogo. Elemento este que acaba por ser um dos grandes plot devices da série e responsável por alguns dos momentos mais cómicos da mesma.

O tom humorístico da série acaba por também apontar alguns dos problemas actuais que quem pertence à indústria gaming tem de lidar ou presenciar na primeira pessoa. Como é o caso de em Mythic Quest, a equipa ser composta por apenas duas desenvolvedoras femininas, ou os interesses financeiros acabarem por se sobrepor aos criativos, ou ainda do poder que a monopolização da chefia, tem no descontentamento dos funcionários e da equipa criativa.

Contudo, é também nestes momentos cómicos que a série acaba por demonstrar, um dos seus problemas. Na medida em que ao ir muito a fundo nas ideias que apresenta, acaba por perder uma parte da piada, o que resulta em situações mal aproveitadas e/ou que se encaixam mal. No geral, tem muitos bons momentos e outros nem tanto, acaba por ser uma mistura de situações com altos e baixos.

Devo ressalvar que toda a estética, ambientação e adereços reforçam a imersão do espectador naquele pseudo-estúdio, o que para uma série de nove episódios e de médio orçamento é um grande feito. Transmite a ideia de estarmos praticamente dentro de um estúdio, mesmo que só partes dele tenham sido mostradas. Ainda nestas particularidades mais técnicas, esperava que houvesse um maior aproveitamento da banda sonora, uma vez que se trata da perspectiva gaming. Sendo esta parte, muitas vezes ausente ou pouco perceptível.

Outro ponto negativo, prende-se com a qualidade dos episódios, que como referi apesar de haver um fio condutor comum, Mythic Quest tem episódios com temáticas muito interessantes e pertinentes e outros que acabam por cair no esquecimento, pela linearidade que adotam.

Em forma de conclusão, o que faz Mythic Quest: Raven’s Banquet ser tão interessante, é sobretudo nas situações e personagens que retrata, mesmo que nem sempre o humor encaixe tão bem em todas as ocasiões. Ainda assim, recomendo a série, pois demonstra, mesmo que de forma irónica e cómica, uma realidade que está bastante presente na indústria gaming atualmente. E que mais do que nunca, não deve ser olhada de lado, ou menosprezada.

Positivo:

  • Personagens tipo encaixam-se bem na temática;
  • Situações e peripécias interessantes;
  • Ambientação e imersão no ambiente apresentado;
  • Tom cómico…

Negativo:

  • …mas que nem sempre se encaixa da melhor forma;
  • Pouco aproveitamento de uma banda sonora temática;
  • Qualidade dos episódios com altos e baixos.

 

João Luzio
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