Análise – Dune (2021)

Apostar em adaptações literárias têm se mostrado um verdadeiro caso de sucesso na indústria cinematográfica e a Warner Bros está bem ciente disto, tendo êxitos que vão desde Game Of Thrones (2011) a Lord Of The Rings (2003). Se aliarmos a isto um realizador competente que já faz parte da mobília da casa, temos todos os ingredientes para uma fórmula de sucesso. Dune (1965) de Frank Herbert não é um nome novo para os fãs de ficção científica, é já um peso pesado do género, com um universo literário que conquistou milhares de leitores ao redor do mundo.

Sendo considerado, por muitos, a melhor obra do género alguma vez feita, ficando par a par com Foundation (1942) de Asimov, a competir pelo título. Dune (1965) também não é novo no mundo do cinema, tendo recebido uma adaptação pelas mãos de David Lynch em 1984, que se revelou um completo desastre. Depois há ainda a versão de Jodorowsky que ficou vários anos em development hell, mas nunca saiu do papel.

Ao se afastar deste mar de contratempos e insucessos, Denis Villeneuve propõe-se a fazer, por fim, jus a este rico leque de histórias e personagens que Herbert idealizou no século passado.  Devido aos avanços e recuos provocados pela pandemia, Dune (2021) chega então às salas de cinema produzido pela Legendary Entertainment e distribuído pela Warner Bros, sendo lançado em simultâneo na HBO Max.

Villeneuve dispensa apresentações, não podia ter sido a melhor escolha para pegar em Dune (1965), tendo em conta que foi o responsável por várias longas-metragens de excelência como Arrival (2016) ou Prisoners (2013), mas sobretudo, por fazer o impensável, ao dar continuidade a um dos maiores filmes de sci-fi de culto de todos os tempos, através de Blade Runner 2049. À vista disto, Dune (2021) rapidamente me fez querer ler a obra homónima, embora não tenha conseguido chegar ao fim, antes da estreia do filme. E este é o meu ponto de partida com Dune.

Devido à extensidade da obra em causa, Dune (2021) é apenas a primeira parte de duas (pelo menos à data da análise), tal como a cena de abertura faz questão de enfatizar. A narrativa não coloca de lado as temáticas de religião e política, tão presentes na obra original. Muito pelo contrário, estando elas bastante visíveis na experiência de Dune (2021), embora na prática acabe por ser algo implícito na história, uma vez que aqui o chamariz está na contextualização e introdução deste mundo enorme.

Neste universo, o planeta Arrakis (mais como conhecido como Dune) embora desértico, é rico numa especiaria rara e única, que dá a quem a consome habilidades sobre-humanas, fazendo os seus olhos ficarem azuis e sendo extremamente aditiva. Daí que Dune seja um local geopolítico estratégico para qualquer uma das Casas que habita o vasto Império a que pertencem. Durante muito tempo a Casa de Harkonnen obteve hegemonia deste território, até que pelas ordens do próprio Imperador, é obrigada a retirar-se, dando o lugar, para assumir, à Casa de Atreides.

Nesta Casa, o seu governante, Leto Atreides (Oscar Isaac) aceitou a proposta como uma oportunidade para aumentar a sua influência no Império, cuja sua Casa havia ganho maior popularidade com o tempo, mas acima de tudo, para estabelecer uma ligação de proximidade com o povo nativo de Arrakis, os Fremen. No entanto, é Paul Atreides (Timothée Chalamet), o filho do governante, a quem cabe um dia assumir a liderança da Casa e do povo que os servem.  Paul recaí no típico arquétipo do herói escolhido (chosen one), sendo que toda a narrativa agarra nisto para desenvolver a habitual jornada (hero journey) em torno da autodescoberta a partir da perspetiva do protagonista.

Ainda na Casa de Atreides, o jovem é guiado por Jessica (Rebecca Fergunson), a sua mãe, e treinado por Gurney (Josh Brolin), Hawat (Stephen McKinley Henderson) e Duncan (Jason Momoa), todos figuras chave do círculo próximo de Leto, ora como artilheiro,  conselheiro ou guerreiro, respetivamente. As preparações são feitas e os Atreides partem para Dune. Só que nem tudo é tão fácil quanto parece, pois toda uma grande conspiração é tecida nos bastidores das intrigas galácticas, tendo como alvo Paul Atreides e o seu povo. Há muito mais para além disto, mas vou deixar assim, para descobrirem ao verem o filme.

Há ainda mais atores que se juntam ao elenco principal, como Dave Bautista, Zendaya, Javier Bardem, entre muitos outros. Ainda que estes últimos venham a ter um papel mais importante no filme seguinte, chega a ser desapontante pelo pouco tempo de antena que aqui tiveram, e infelizmente os trailers induziram o contrário. Mesmo assim é notório os inúmeros talentos envolvidos, é realmente um elenco recheado de talentos.

De notar em especial Timothée Chalamet que acaba por ter das suas melhores interpretações no ramo. Claro, nunca descurando aquilo que foi visto em Call Me By Your Name (2017), mas para o tipo de papel pretendido, está um Paul Atreides bastante credível, ainda para mais se levarmos em consideração a outra adaptação de Lynch da personagem, que envelheceu bastante a personagem, descaracterizando-a.

Muito se deve à mão de Villeneuve, que se sente em toda a experiência de Dune (2021). É uma das suas melhores contribuições enquanto realizador, estando ele já muito à vontade no género, e isto reflete-se sobretudo nos inputs criativos, em termos do que colocar ou deixar de lado na adaptação, mas no geral, foi muito bem conseguida. Os cenários, os adereços, os figurinos, a direção de arte, a edição, é tudo um prato cheio para as futuras nomeações dos Oscars 2022, sem qualquer dúvida, que há data da análise, Dune (2021) está em vias de ganhar em várias categorias.

E ainda não toquei em dois elementos, verdadeiros pesos de pesados, que marcam a filmografia de Villeneuve: a cinematografia e a banda sonora. O primeiro é de uma qualidade soberba, que se destaca ao longe, de tudo aquilo que foi visto até então do realizador e do género. Sendo da tutela de um veterano, Greig Fraser, conhecido pelo seu trabalho em Rogue One (2016). Tudo aquilo que elogiei em The Green Knight (2021) é aqui elevado ao expoente máximo. Não há como ficar indiferente. E isto leva-me a considerar Dune (2021) um verdadeiro must see numa sala de cinema, inclusive numa sala incorporada com o sistema IMAX.

Já o segundo elemento tem as mãos de Hans Zimmer. O mesmo compositor que contribuiu grandes partituras musicais no ramo do cinema que vão desde Interstellar (2014) de C. Nolan, Man Of Steel (2011) de Z. Snyder até Gladiator (2000) de R. Scott. Sempre que o nome de Zimmer aparece creditado em algum filme, já sabe que vai sair dali algo bom, é talvez o melhor compositor da atualidade. Através de Dune (2021), este grande profissional entrega uma composição com uma veia experimental, que aposta em grande parte na cultura do Médio Oriente, um pouco como Lawrence Of Arabia (1962) fez.

Rapidamente se tornou das minhas banda sonoras favoritas de Zimmer, e isto aliado à sonografia e à cinematografia, já falada, faz com que o filme seja uma verdadeira viagem audiovisual envolvente e inigualável. Podem e devem ouvi-la clicando aqui. A propósito da envolvência que referi, este elemento é acentuado pela escolha cuidada da direção de arte, também outro ponto a favor de Dune (2021).  As paisagens e os locais escolhidos transportam o espetador diretamente para a ação, houve efetivamente uma atenção especial do início ao fim do filme neste aspecto.

Quando se compara aquilo que o leitor imagina na sua mente do que está a ler, com aquilo que uma adaptação mostra, surgem divergências naturais de perspetivas. Para mim, o filme está muito perto da imagem visual que eu tinha da obra. Não é assim tão comum, haver tanta atenção neste requisito, mas ainda bem que houve, uma vez que tornou o world building de Arrakis em algo que só consigo comparar com Blade Runner (1982) ou Lord Of The Rings (2003).

É preciso frisar, que a ação embora tenha os seus momentos altos e com alguma presença, não é de todo o foco aqui. O lado psicológico, da intriga política e dos conflitos pessoais são o alvo de estudo nesta adaptação. Era realmente algo necessário no género de sci-fi, que ao longo dos anos tomou uma forte inclinação para uma veia puramente visual e carregada de adrenalina. Dune (2021) é o oposto. Ainda que dê foco nas questões visuais, está mais preocupada em ser terra-a-terra, com um ritmo que abre margem para o desenvolvimento suave da história e da apresentação e construção das suas personagens de forma adequada.

Depois de tanto o elogiar, não haverá alguns aspetos que deixam a desejar? A verdade é que existem, mas olhando como um todo, o saldo final é substancialmente positivo. Os pontos positivos conseguem ofuscar em grande parte a sua contraparte negativa. Pois acabam por ser ‘problemas’ relativos aos olhos de quem vê. Para além da tão badalada trope do “O Escolhido“, ainda para mais no género de sci-fi, a parte que diz respeito aos Harkonnen fica muito aquém.

Mesmo que esta seja a primeira parte de duas (ou mais), pouco é feito para se sentir uma sensação de ameaça, pelo menos constante e dinâmica. Algumas cenas iniciais contribuem para construir uma futura presença sombria que irá atormentar a família Atreides, mas tal futuro, está reservado para a seguinte continuação. Assim por alto, sem spoilers, o próprio planeta acaba por ser ele próprio uma ameaça, que está sempre à espreita. Como é o caso das tais criaturas que se deslocam no subsolo, as gigantescas sandworms.

Aquele que era um dos filmes mais aguardados do ano, a meu ver, revelou-se o melhor até ao momento. Tudo aquilo que Villeneuve se propôs a fazer, foi cumprido. É uma das melhores produções de ficção científica que tenho memória dos últimos tempos, sendo também uma excelente e acessível porta de entrada para quem está pouco familiarizado com este tipo de narrativas mais densas e complexas. Com elevada certeza, Dune (2021) tem tudo para se tornar a nova marca de peso da Warner Bros no decorrer da década, e que se for bem aproveitada, é bem capaz de ser o novo ‘Harry Potter’ desta geração.

Positivo:

  • Narrativa sólida de ficção científica;
  • Elenco de peso;
  • Adaptação bem conseguida e acessível;
  • Realização de Denis Villeneuve;
  • Cinematografia imersiva;
  • Direção de arte;
  • Prestação de Hans Zimmer na banda sonora;
  • Experiência obrigatória na sala de cinema;

Negativo:

  • Repete alguns dos típicos clichés do género, em especial com Paul Atreides;
  • Os Harkonnen e os Fremen podiam ter sido mais aproveitados;

João Luzio
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