Qualquer cinéfilo acaba por passar despercebido por inúmeros filmes que vão estreando pelo mundo fora, especialmente quando de festivais de cinema se trata. Ora, CODA foi um desses casos para mim. Originalmente exibido no Sundance Film Festival no início do ano, esta longa-metragem conseguiu captar atenção de quem a assistiu, sendo considerado por muitos um dos melhores do evento. Como tal fiquei com curiosidade de o espreitar, ainda para mais quando chegou ao serviço de streaming da Apple. Dirigido por Sian Heder, uma diretora ainda novata no ramo, com algumas curtas e um filme, de nome, Tallulah (2016) no seu reportório.
Com CODA, a diretora tentou uma proposta pouco usual. O próprio título é uma sigla, para Child Of Deaf Adults, que dá mote a toda a história. Diferente do que seria de esperar, o núcleo de personagens principais é constituído por uma família surda, há exceção da filha mais nova, Ruby Rossi (Emilia Jones), que é quem acompanhamos, sob uma olhar íntimo, durante o filme. Os restantes membros são Frank (Troy Kotsur), o patriarca que está muito envolvido no negócio de família na pesca, Jackie (Marlle Matlin), a mãe, e Leo (Daniel Durant), o irmão mais velho, que almeja seguir os passos do pai, no ramo.
Antes de mais, devo admitir que não sou o maior apreciador (tirando escassas exceções) de filmes coming of age, tais como Lady Bird (2017) ou Rushmore (1998), o facto é que, CODA (2021) conseguiu surpreender-me bastante. Não esperava gostar tanto do que vi, e de realmente ficar investido no dia-a-dia de Ruby, observando todas as complicações e nuances que advém de se viver com uma família surda. É uma proposta credível, que nos faz sentir na pele da personagem, e sentir todo um mar de emoções variadas juntamente com a protagonista.
Ainda que grande parte da carga dramática seja em torno da sinergia entre esta e a sua família, há também espaço para uma narrativa paralela que envolve o seu hobbie predileto, o de cantar. Nela, encontra-se Bernardo Villalobos (Eugenio Derbez) ou Mr. V, professor e mentor de Ruby nas aulas de canto, que irá puxar pela protagonista para esta dar o seu melhor e quem sabe ao ponto de entrar na tão famosa, Berklee College Of Music.
No decorrer deste treino, Mr. V faz com que o percurso da jovem, entusiasta de música, se cruze com o de Miles (Ferdia Walsh-Peelo), que serve de interesse amoroso da protagonista. Cuja escolha do ator para o interpretar foi um tiro certeiro de casting, uma vez que o mesmo ficou conhecido num dos melhores filmes de música da última década, Sing Street (2016).
Esta dualidade entre seguir aquilo que os pais querem ou seguir os nossos próprios sonhos, não é nenhuma novidade em Hollywood. Mas a peça nova nesta equação, é mesmo por se tratar de uma família surda, onde Ruby é crucial para que o agregado consiga comunicar, em nome de todos, com o mundo exterior, que não parece fazer o mínimo esforço para entendê-los, nem mesmo quanto à linguagem gestual. Portanto, sem ela, e ainda para mais com base em certos detalhes posteriores na trama, faz com que Ruby embarque num processo de amadurecimento rápido, onde um dilema pessoal, se transforma igualmente num dilema familiar.
Praticamente metade do filme é feito sem diálogos audíveis, sendo que Heder apostou acima de tudo, realçar aquilo que é o mundo privado de uma família surda, até mesmo com momentos dignos de um filme de comédia, mas com um grande fundo de verdade, que só joga a favor da experiência de CODA (2021). Os três membros da famílias tem um vínculo diferente com Ruby, quer Jackie que preferia que a filha tivesse nascido surda, com receio que esta pudesse não se conectar com o seio familiar.
Quer com Frank que, por um lado, tanto deseja ver a filha seguir o seu sonho, mas ao mesmo tempo, com a preocupação constante, de que sem a presença dela, tornar-se-á difícil sustentar o negócio familiar. E até com Leo, o qual se vê como um role model para Ruby, mas que devido à sua condição de surdez, acaba por ser ele quem mais depende da irmã, sendo esse um fator que irá transformar drasticamente a personagem ao longo da história.
Ao nível técnico, é um filme relativamente simples, até porque se trata de uma produção de baixo orçamento, comparativamente ao padrão médio da indústria. Não há para todos os efeitos, uma preocupação neste aspeto, nem não acho que era necessário haver. É na relação e ligação entre e com as personagens, que CODA (2021) se faz destacar e sobressair face a todos os outros filmes do género. Até porque como referi, o filme sabe dosear adequadamente, os momentos de comédia, com os dramáticos, sem causar estranheza, ou que estes entrem em conflito por protagonismo no argumento.
CODA (2021) é das grandes surpresas, ao nível dos filmes independentes, deste ano, com fortes possibilidades de ser um dos indicados ao Óscar de melhor filme. Não se trata de uma produção revolucionária, nem tão pouco pioneira, mas uma que é necessária no meio. Felizmente, conheci-o sem saber nada, e saí dele mais do que satisfeito, por ter embarcado numa viagem emocional na vida da família Rossi, que com certeza, tinha ainda muito por dizer.
Ao contrário do habitual, CODA (2021) é um filme que consigo recomendar a qualquer tipo de público e que com grande certeza afirmo, que dificilmente ficarão indiferentes com a mensagem poderosa, que o filme quer transmitir, mesmo que para alguns esta possa passar despercebida.
Positivo:
- História envolvente;
- Prestação do elenco surpreende;
- Química entre a família Rossi;
- Atuação de Emilia Jones;
- Mensagem emocional poderosa;
- Um dos melhores coming of age dos últimos tempos;
Negativo:
- A relação entre Ruby e Miles podia ter maior tempo de antena;




