Análise – Tomb Raider

Neste momento, tanto o cinema como os videojogos atravessam uma era em que se recorda o que era bom com remakes e remasters de clássicos. Ao mesmo tempo surgem cada vez mais Reboots de histórias e personagens que tentam contar histórias antigas às novas gerações.

Este último método tem sido sido utilizado em especial no cinema, onde filmes como The Amazing Spider-ManDark Knight ou o Man of Steel, vieram (e vão) trazer novas versões reinventadas de outros filmes com outros actores e histórias ligeiramente diferentes.

Embora de forma menos nítida e predominante, o mesmo tem vindo a acontecer nos videojogos. Jogos como DMC, Castlevania Lords of Shadow e até Rayman Origins são bons exemplos de jogos que resolveram riscar o que tinha sido criado até agora, para voltar a contar a mesma história, embora com algumas diferenças.

Se jogos como Rayman Origins e Castlevania Lords of Shadow tiveram sucesso junto dos fãs, porém, embora seja um jogo com bastante qualidade, DMC não teve a mesma sorte e caminhou na corda bamba ao longo da sua produção e lançamento.

Mesmo que não tenha pintado o cabelo da personagem principal de uma cor diferente, a Crystal Dynamics e a Square-Enix resolveram que era a vez de Tomb Raider e Lara Croft sofrer o mesmo tratamento e recomeçar do zero. Será que foi a decisão correcta?

Retirar a confiança e o à vontade característicos de Lara Croft e devolve-la à sua juventude em que ainda era inexperiente e incapaz foi um risco enorme, mas a história de como Lara naufraga juntamente com os seus colegas de viagem, numa ilha remota, é uma das experiências mais humanas e coerentes da menina Croft até hoje.

Durante a aventura, vemos como Lara aprende a sobreviver na floresta com poucos recursos, como aprende a usar as poucas ferramentas disponíveis para criar armas e como pela primeira vez, precisa de retirar uma vida humana para salvar a sua. São momentos altamente naturais e humanos que mostram as origens de uma das maiores heroínas de sempre.

Há que dizer que Tomb Raider está bastante bem escrito, pensado e compassado. Quase todos os cenários ajudam a evoluir a história e a personagem e poucos são os momentos em que estão a salvo ou sem a pressão de que algo está prestes a acontecer. Cada zona que visitam está interligada através de um sistema livre de exploração, afastando a série do estigma de níveis do passado. Embora não seja um mundo totalmente aberto, a ilha está quase sempre aberta à exploração e podem recuar a pé ou através do sistema Fast Travel (viagem rápida) para grande parte das zonas previamente visitadas.

Claro que Lara precisa de um motivo para lutar e sobreviver e o facto de ser uma das principais responsáveis pelo naufrágio, alimenta um fantasma que a coloca responsável pela vida dos outros tripulantes. A ameaça constante oferecida pela fauna da ilha e pelos habitantes da mesma, dão força à personagem principal para visitar extremos da sobrevivência humana. Os momentos em que vão interagir com os outros sobreviventes são quase sempre curtos e quando não os estão a salvar, estão a lutar para salvar a vossa própria pele.

Felizmente, Lara não é totalmente incapaz e com alguns ensinamentos dados pelo seu mestre, grande parte dos elementos de jogabilidade chave de Tomb Raider estão de volta. Lara é uma escaladora nata, capaz trepar de diversas formas. A aventura que vivem na ilha vai obrigar a que tenha também de aprender a combater e disparar armas contra outros humanos.

A introdução dos elementos de sobrevivência e aprendizagem na utilização de armas oferece a este jogo uma das mecânicas que mais gostei de experimentar nesta nova aventura. Se antigamente Tomb Raider era basicamente um jogo de acção e plataformas, a introdução de experiência acumulada ao colher comida, encontrar artefactos e abater inimigos fazem com que Lara evolua em níveis, os quais podem gastar para melhorar as vossas capacidades físicas.

Além do físico, podem recolher também inúmeros destroços e objectos nos cenários e dos inimigos, com os quais podem melhorar as armas que Lara usa. Estes sistemas fazem com que Tomb Raider tenha também uma vertente RPG de peso, que leva o jogador a querer explorar os cenários para ganhar mais experiência e encontrar Salvage, para assim melhorar Lara. É sem dúvida um elemento muito vem vindo e parece natural, mostrando da mesma forma a evolução de quem aprende com a experiência.

Voltando aos cenários, a Crystal Dynamics fez um trabalho soberbo nos mesmos e logo a inicio é possível ver que algumas zonas estão claramente inacessíveis, o que requer que voltem atrás com novas ferramentas. Assim vão descobrir novas áreas com mais mantimentos e relíquias, ou até mesmo, túmulos que podem explorar para encontrar tesouros especiais e localização para outros artefactos, estas túmulos funcionam como pequenos puzzles que colocam as vossas capacidades à prova.

Para ajudar os menos pacientes ou novatos, foi incluído um “instinto de sobrevivência” que podem usar para recolher dicas sobre o cenário e quais são os pontos de interesse com os quais podem interagir. Embora pareça demasiado simplificador, não há dúvida que pode ser uma grande ajuda para os menos experientes nestas andanças e só necessita de ser utilizado por quem quiser.

Embora a aventura de Lara pela ilha ainda seja longa e carregada de incentivos para continuar a explorar o mapa, a Crsytal Dynamics e a Square-Enix resolveram seguir a manada e dar um modo Multijogador a Tomb Raider.

Tenho a dizer que a início até fiquei bastante entusiasmado com esta vertente, pois faz lembrar o modo online de Uncharted, mas está bastante longe do nível de qualidade da concorrência. Não quero com isto dizer tenha sido um mau esforço, mas parece que falta a fibra e impacto da campanha e embora existam vários casos onde os sobreviventes competem contra os habitantes da ilha, não existe uma componente furtiva real, o que é uma pena.

De qualquer forma, o online é sem dúvida bem vindo e não existe nada de errado com ele, por isso pensem nele como uma mais valia para o pacote geral.

Chegou a altura de falar do visual e som de Tomb Raider, duas componentes que dão cartas. Começado com o visual, o motor de jogo construído pela Crystal Dynamics não só é um autêntico portento visual, como uma ferramenta impressionante de fluidez e movimento das personagens. Tal como grande parte dos jogos deste fim de geração, existem aqui muitas limitações criadas pelo hardware, mas nada que prejudique o jogo por demais. Podem contar com boas animações, cenários bonitos e detalhados, presença realista dos efeitos climatéricos e muita interacção com os cenários.

Como é natural, um grande destaque vai igualmente para as personagens, estas foram bem criadas e são minimamente credíveis, porém, Lara é realmente a rainha do baile. É impossível não sentir compaixão por esta jovem que procura sobreviver a todo o custo frente a um cenário aterrador. É possível ver o medo espelhado na sua cara quando está rodeada de lobos, os lábios a tremer quando está à chuva ou o pânico quando é emboscada pelos inimigos nas primeiras zonas do jogo.

Quanto à música, esta varia entre o bom e o excelente, mas tenho a apontar que uma ou outra música mais parecem talhadas para um ambiente de selva tropical do que as florestas da ilha. Quando a acção aumenta, as músicas fazem um bom acompanhamento. As vozes estão boas no geral e conseguem ser credíveis. Aqui o destaque vai novamente para Lara que recebeu a voz de Camilla Luddington. A qualidade da sua prestação é muito boa, e tenho que dar valor à quantidade de sons, guinchos e gritos que gravou que é realmente impressionante. Outra nota de referência vai para a ambiência sonora que tem bastante impacto e representa bem a violência dos combates e da natureza.

Como é natural, o novo Tomb Raider faz lembrar em muito Uncharted, o que não deixa de ser irónico pois Uncharted foi buscar grande parte das suas influências à salteadora de túmulos original. Agora temos Lara a inverter novamente o bico ao prego e dar uma nova direcção ao género, mostrando que Drake vai precisar de suar bastante para manter o seu lugar no trono. Mas não é só de Uncharted que o novo Tomb Raider vive, consegui ver aqui também a influência inesperada de Dark Souls através da sua construção de cenários, a forma como estão interligados e a pressão de explorar locais desconhecidos. Por vezes chega a ser tão opressivo que se torna numa experiência mais assustadora do que muitos jogos de terror lançados nos últimos tempos.

Tomb Raider é uma vitória gloriosa sobre o desconhecido. Apesar de ter um online que vai passar ao lado da maioria, vai viver pela sua campanha, uma experiência que fica marcada na memória dos jogadores e que ajuda a construir uma personagem que é um ícone de várias gerações. Ainda é cedo para dizer quais são os jogos do ano, mas este estará certamente entre eles.

Vejam aqui a nossa análise em vídeo ao Tomb Raider!

Positivo:

  • Campanha viciante
  • A evolução humana de Lara
  • Sistema de experiência e evolução de armas
  • Construção da ilha e encadeamento de cada zona
  • Mundo semi-aberto incentiva à exploração
  • Prestação de Camila Luddington
  • A ilha parece orgânica

Negativo:

  • Lara passa de exploradora a assassina demasiado depressa
  • Online não vai além de um bom extra
  • Podiam existir mais formas para personalizar as armas
  • A consola congelou mais que uma vez entre cinemáticas

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