Análise – The New Mutants

The New Mutants é um filme tinha a receita perfeita para o fracasso, muitos antes de sequer ser lançado. E tal como todas as premonições, esta vinha acompanhada com determinadas circunstâncias que a antecipavam, neste caso vários adiamentos, algumas refilmagens e a compra da 20th Century Fox pela Disney. Todos estes factores, aliados à situação atual de pandemia, condicionaram, a já difícil tarefa de levar espectadores às salas de cinema para assisti-lo. Até mesmo as obras pertencentes ao universo dos X-Men nos cinemas, comumente designado como Foxverse, não foram flores que se cheirem. Dos recentes, tirando Logan (2017), tanto X-Men: Apocalypse (2016), como X-Men: Dark Phoenix (2019) foram um desastre por parte da crítica especializada, como do próprio público casual.

À vista disto, a insatisfação com resultado final de The New Mutants não era nenhuma surpresa, para quem acompanhou minimamente a sua fase de pré-produção e respectivo desenvolvimento. O próprio director encarregue desta película, Josh Boone, não foi de todo a melhor escolha, levando em consideração a sua reduzida filmografia, que apenas conta com duas produções do géneros de romance e drama, como Stuck In Love (2012) e The Fault In Our Stars (2014). Posto isto, The New Mutants é assumidamente um filme spin-off da ex-cronologia principal dos X-Men, que após este filme irá ser descontinuada, dando lugar a uma nova continuidade escrita e produzida pela tutela executiva do Marvel Studios, sob a alçada da Disney.

Aqui, ao contrário dos restantes filmes, a história é de menor escala (possível e imaginável), contando por isso com um elenco bastante reduzido, que inclui Dani (Blu Hunt) vulgo Moonstar, que após escapar de um desastre na sua terra natal, vê-se internada numa instalação médica controlada apenas pela Dra. Cecilia Reyes (Alice Braga). Juntamente consigo, encontram-se Sam Guthrie (Charlie Heaton) vulgo Cannonball; Illyana Rasputin (Anya Taylor-Joy) vulgo Magik; Roberto Costa (Henry Zaga) vulgo Sunspot e Rahne Sinclair (Maisie Williams) vulgo Wolfsbane. A doutora explica que trouxe cada um destes jovens para esta espécie de hospital, na tentativa de os reabilitar e possivelmente ajudá-los a controlar as suas habilidades sobrenaturais, uma vez que todos sofreram algum tipo de tragédia drástica outrora.

Para além disto, cada um destes incidentes estão associados aos poderes de cada jovem mutante, respectivamente. Roberto pode manipular energia solar, tornando-se uma entidade de combustão viva. Rahne é capaz de se transformar num lobo. Sam pode voar a uma velocidade bastante rápida e Ilyana tem poderes oriuntos de outra dimensão, semelhantes a uma espécie de conjuração de feitiços. Já Dani não tem conhecimento real de qual o seu poder, e ao longo do filme, tentará encontrar uma resposta para tal, simultaneamente que lida com os seus demónios interiores, vindos do seu passado.

Uma vez que se tratam todos de mutantes, e levando em conta a tamanha segurança das instalações, visto que o local é protegido por um campo de forças que os impossibilita de sair, os jovens coletivamente acreditam que estão a ser treinados para pertencerem aos X-Men. Contudo, no decorrer da sua estadia, vão entender as reais motivações de Dra. Reyes e perceber um pouco mais de si mesmos. Um dos poucos pontos positivos de The New Mutants é sem dúvida, a interação entre estes jovens. Pois apesar da curta longevidade do filme, cerca de mais de metade deste tempo é dedicado ao convívio entre estas personagens, sendo um dos grandes destaques o antagonismo entre Illyana e Dani, e a relação entre esta última e Rahne.

No entanto, tirando alguns pequenos momentos pontuais, todo o protagonismo vai para as personagens femininas, o que acaba por deixar a desejar por mais, no que diz respeito ao desenvolvimento de Roberto, e em especial, de Sam. A personagem de Dra. Reyes também não é de todo a mais interessante, isto deve-se muito à decisão do director, de a tornar apenas com um elemento antagonista da narrativa, em vez de construir sobre ele. O que inevitavelmente tem um impacto significativo, no tamanho da tensão e carga dramática dos acontecimentos, que têm lugar naquelas instalações chefiadas pela mesma.

Ainda no que diz respeito às personagens, pessoalmente, fiquei espantado com a interpretação de Anya Taylor-Joy enquanto Magik. Fez não só um ótimo desempenho em trazer alguma da caracterização da personagem vista nas comicbooks, como simultaneamente acrescentou um toque a mais na personagem. Fora isto, o restante elenco cumpre a sua função, mesmo que Alice Braga ou Maisie Williams fiquem um tanto ofuscadas, tendo em consideração, a qualidade da suas atuações evidenciadas em outras obras.

Os efeitos especiais de The New Mutants não são nada demais, sendo que são até bastante superficiais para o sub-género de super-heróis. Todavia, como não são muito recorrentes, a sua presença não chega a incomodar, ou sequer atrapalhar a experiência. O que acaba também por ir ao encontro da ambientação e estética, que embora tente trazer tonalidades e planos de câmera semelhantes a películas de horror, não consegue exatamente transparecer as tais ideias, que tinha no papel para a prática. E atendendo ao material promocional, nomeadamente aos trailers, que apontavam para um tom de terror, este não é de todo o caso, longe disso.

Questões como a banda sonora ou as cenas de ação são ambas pouco trabalhadas, quer pela sua reduzida presença (mais uma vez), bem como pela sua fraca qualidade, mesma quando estas são evidenciadas durante o filme. Dito isto, e como evito entrar em mais promenores que podem estragar a experiência, sobra apenas mencionar a tentativa de incorporar elementos dos Foxverse (como por exemplo dos X-Men) neste filme, e mesmo sendo estes muito poucos, servem o seu propósito na história, bem como para cimentar determinadas pontas soltas, quando estas são trazidas à baila.

É seguro dizer que esta obra marca o fim de todo um universo compartilhado de filmes dos X-Men e derivados, que já dura há quase vinte anos. Não é de todo a melhor forma de concluir esta extensa jornada, até porque o já mencionado Logan (2017) faz um melhor trabalho neste aspecto, mas curiosamente não é a pior maneira de o terminar (pelo menos não a pior de todas), apesar de objetivamente ser um filme bastante fraco. Para o bem, ou para mal, The New Mutants é de longe um filme que devesse estrear nos cinemas, muito menos nesta fase que nos encontramos, todos os seus elementos remetem para filmes de série B de Hollywood, aqueles que tanto marcaram o cinema dos anos 2000.

Para além de ser o filme mais seguro, previsível e cliché deste universo, é também aquele menos inova, quiça sequer tenta fazê-lo. A meu ver, poderia ter muito bem saído diretamente no Disney Plus, mas de qualquer das formas, ter saído ou não em streaming, o seu resultado seria o mesmo, que aqui temos. No entanto, não é daqueles filmes que são tão fracos que acabam por ser bons, não, é mesmo daqueles que são tão fracos, que nem quero sequer vê-los mais alguma vez! Não dou uma nota mais inferior, embora a tangente crítica esteja bastante próxima, muito porque até tem alguns aspectos positivos lá pelo meio, que lhe permitem sustentar-se no mínimo dos mínimos. Como uma última nota, não posso dizer que The New Mutants seja uma decepção, até porque como referi no início, este era um desastre que já se via a milhas de distância, muitos antes de ocorrer.

Positivo:

  • Interpretação de Anya Taylor-Joy;
  • Dinâmica das personagens…

Negativo:

  • …contudo, nem todos têm o mesmo tempo de antena igualmente dividido;
  • Pouca inspiração nas fontes originais;
  • Personagem de Cecilia Reyes;
  • Efeitos especiais superficiais;
  • Não acrescenta nada de novo ao sub-género;
  • Péssima forma de concluir este vasto universo compartilhado;
  • Estrutura narrativa joga demasiado pelo seguro;
  • Elementos de horror mal incorporados;
  • Não justifica a necessidade deste spin-off;

João Luzio
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