Análise – The Legend of Heroes: Trails From Zero

A série The Legend of Heroes é mais um exemplo de como o passa palavra consegue fazer com que jogos de nicho atinjam o estrelato e ganhem uma audência cada vez maior. Cada vez que um fã é conquistado, é quase certo que este vai acabar por trazer mais jogadores que acabam por ficar.

Como a Falcom tem vindo a focar os seus lançamentos no Japão, acabou por ser a NIS America a responsável por localizar os jogos passo a passo e lançando os mais recentes. Para surpresa de todos, em vez de passar ao próximo da saga (Trails into Reverie), a companhia entrou na máquina do tempo e resolveu localizar a saga de Crossbell que tinha sido lançada apenas no Japão e antes da saga de Trails of Cold Steel.

Para quem chega agora pode ser um pouco confuso, mas pensem em The Legend of Heroes: Trails From Zero e The Legend of Heroes: Trails to Azure como dois jogos contidos na sua história mas que estão a meio caminho entre duas sagas. Vão tirar melhor proveito desta história caso joguem a trilogia original (Trails in the Sky), pois alguns acontecimentos e personagens do passado aparecem aqui.

The Legend of Heroes: Trails From Zero conta a história da SSS, uma equipa de quatro elementos vindo de diversos estilos de vida, que entram para uma divisão especial da Polícia responsável por aumentar a reputação da força policial da cidade de Crossbell. Os quatro heróis começam por trabalhar em conjunto em casos mais simples, mas em pouco tempo começamos a descobrir que Crossbell está totalmente corrompida e muitos estão interessados em aproveitar-se disso para iniciar grandes problemas.

Loyd, Elie, Tio e Randy são uma equipa bastante forte e até se afastam bastante dos típicos estereótipos que podemos ver nos restantes episódios da saga. Especialmente porque não existe um conflito entre as personagens principais, o que as deixa ter espaço para crescer e que exista um interesse genuíno dos membros da equipa em trabalhar em conjunto e estarem bastante unidos. Ajuda também que as personagens principais sejam fantásticas e estejam muito bem escritas. Claro que Loyd não é uma Estelle, mas também é o primeiro jogo onde aparece e a personagem vai acabar por crescer em Azure também.

A outra personagem principal é na realidade a cidade de Crossbell, que acaba por ser o centro de tudo neste jogo. A cidade é o mote para a história, serve como centro de quase tudo o que se passa e é onde as personagens passam grande parte do tempo. Existem áreas adjacentes à cidade com mais aldeias, minas, o hospital e algumas fortalezas, mas no geral, tudo isto faz com que Crossbell pareça um sítio vivo e real.

Em termos de jogabilidade, The Legend of Heroes: Trails From Zero usa o sistema clássico da Falcom dentro da série com a exploração dos cenários, pequenos puzzles e muita conversa para ter com centenas de NPC. Cada um dos vários capítulos do jogos requer que façam uma série de missões principais e secundárias para avançar na história. Normalmente só precisam de fazer a missão urgente, mas jogar todas as missões alternativas é a melhor forma de conhecer mais do mundo de jogo e algumas das personagens secundárias mais importantes.

Normalmente Crossbell é uma área segura de inimigos, mas quando estamos fora da cidade ou a explorar os túneis debaixo dela, vamos encontrar várias passagens que levam a locais secretos com baús para abrir (que voltam a ter as suas mensagens hilariantes) e muitos monstros pelo caminho. Estes surgem no mapa e podem ser apanhados de surpresa para iniciar a luta com vantagem e mais turnos do nosso lado. O mesmo pode acontecer com eles e se formos apanhados pelas costas, começamos o combate rodeados e a atacar por último, o que pode matar as personagens num instante se tiverem a jogar nos modos de dificuldade mais puxados.

Os combates são tidos por turnos e no formato de grelha. Cada personagem pode andar um certo número de casas consoante a sua movimentação e atacar os inimigos que estejam ao alcance. Normalmente os ataques corpo a corpo precisam de estar próximos e magias ou ataques de área resolvem o combate contra inimigos mais distantes. É aqui que entram também os Crafts que usam CP da personagem para realizar habilidades únicas. Além disso o CP permite ainda usar habilidades de equipa ou S-Craft que são os ataques derradeiros e mais poderosos de cada personagem.

A parte interessante de The Legend of Heroes: Trails From Zero é que além de usar items para melhorar a personagem, recorre a Orbments e Sephith para nos deixar equipar artes em cada uma das personagens. Isto abre espaço para podermos investir em cada uma das personagens determinadas habilidades de ataque e defesa mais próprias. Quando já não precisamos de Sephith para criar os Quartz necessários para equipar, podemos sempre vender os que ganhamos nos combates e vamos apanhando para ganhar dinheiro que podemos gastar em outras coisas. Juntar Sephith é bastante fácil até e não é impossível estar a rebolar em Mira (dinheiro), a meio do jogo.

Como é um jogo bastante mais focado no progresso e na história, The Legend of Heroes: Trails From Zero parece menos uma jornada épica que Trails in the Sky. A história é bastante contida neste espaço e embora os fãs saibam o que se está a passar em redor das personagens, nunca parece que a narrativa está a desenvolver para algo que se considere épico, aliás, a mesma só começa a ficar séria a partir do terceiro capítulo e por esta altura, muitos de vocês já devem estar com cerca de 20 horas de jogo em cima. Tendo em conta que é fácil fazer 60 horas neste jogo apenas para fazer as coisas mais importantes, não vai ser complicado fazer o dobro caso queiram falar com toda a gente e fazer tudo. Felizmente foi adicionado o modo que aumenta a velocidade do jogo, a qual é uma bênção nas missões que temos de voltar várias vezes ao mesmo sítio ou fazer combates contra inimigos básicos que não dão grande luta.

Visualmente, estamos perante um jogo que foi originalmente lançado na PSP, transferido para a PS Vita, PC e mais tarde para PS4, o que quer dizer que podemos considerar este visual já bastante ulrapassado (tendo em conta que a PSP tinha o poder próximo de uma PS2). Mesmo assim, existe bastante charme neste jogo e no seu mundo. Quem não tem problema em jogar jogos retro e especialmente RPG, vai estar bastante em casa com estas versões. Curiosamente, no meio de todas as versões, a versão PC e Nintendo Switch são as recomendadas, visto que tiveram uma conversão própria, a qual sofreu melhorias visuais, do motor de jogo e até coisas boas como o log de diálogos e framerate. O PC é claramente a que leva mais vantagem e ainda tem os mods que podem vir a melhorar experiência, por isso mesmo, a versão “menos” recomendada acaba por ser a de PS4. A banda sonora não é a mais forte de todos os jogos de Legend of Heroes, mas a qualidade é bastante forte. A isto juntamos um excelente trabalho a nível de vozes. Só tenho pena que não exista uma versão em inglês para alguém como eu que jogou todos os jogos em inglês sempre que possível.

Claro que The Legend of Heroes: Trails From Zero é um marco especial para os fãs de qualquer uma das sagas de Trails. Este e Azure eram os jogos que faltavam localizar para inglês de forma oficial para ter quase tudo o que é preciso para se jogar a saga de uma ponta à outra (o Spin-off ainda não é importante por agora). Logo é de esperar que qualquer fã já o tenha jogado na versão traduzida pelo Geofront, porém, nada melhor do que ter a verdadeira versão oficial lançada no ocidente, mesmo que tenha algumas gralhas e erros na localização (além de falas que não parecem bater com que está a ser dito no ecrã).

Por outro lado, caso gostem de JRPG e tenham uma mente aberta, os dois jogos de Crossbell são os ideais para começar logo a seguir a Cold Steel. As personagens são fantásticas, a história é mais contida e acontece em modo de crescendo, além de que o combate é muito divertido. É complicado recomendar a todos os outros, pois é preciso ter muita paciência para todo o desenvolvimento lento e tudo aquilo que a narrativa vai construíndo. Além do mais, este episódio faz parte de algo bem maior, que os fãs de enredos complexos e longos vai adorar.

The Legend of Heroes: Trails From Zero encheu-me as medidas e é aquilo que estava à espera, não é o melhor da saga, mas percebo que é preciso jogar Azure para ficar a perceber se a história de Loyd e companhia é mesmo a melhor das três. Algo que só vai acontecer no início do próximo ano quando Trails to Azure for lançado. Se tudo isto vos parece bem e querem saber mais, deixo o meu vídeo que fala sobre a série no final desta análise.

Positivo:

  • História profunda e de qualidade
  • Boas personagens
  • Narrativa mais contida ajuda a entrar na série
  • Combate divertido

Negativo:

  • Alguns bugs e erros na localização
  • Versão PS4 é a última escolha
  • Narrativa principal demora a arrancar

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