Análise – Superliminal

Já há alguma vez te questionaste como é que seria se o mundo literalmente se moldasse consoante a tua perspectiva?

Então vieste parar à análise certa, porque este jogo deixa-te experienciar essa realidade ao extremo e ainda te ensina uma valiosa lição de moral sobre como encarar a “perspectiva” no dia-a-dia. Desenvolvido e publicado pela Pillow Castle, Superliminal foi lançado o ano passado para PC, só ficando disponível para consolas em Julho deste ano. Trata-se de um jogo de puzzle em primeira pessoa baseado em perspectiva forçada e ilusão óptica, cuja essência intrigante por vezes faz lembrar títulos como The Stanley Parable. Um facto curioso é que joguei Superliminal na Nintendo Switch, queria destacar isto porque é uma ocasião um pouco rara para mim, quem já me conhece, sabe que o habitual é jogar nas minhas Playstations ou no meu PC. Posso também dizer, com orgulho, que este foi o primeiro jogo que terminei na Switch.

Para terem um breve contexto sobre a premissa do jogo e vou contá-la em segunda pessoa, só porque o nome da personagem nunca chega a ser referido.

À medida que adormeces com a televisão acesa às 3h da manhã, tu ainda consegues ter um pequeno vislumbre duma publicidade sobre o programa de terapia de sonho, criado pelo doutor Gleen Pierce. Quando abres os olhos já estás imergido num sonho e a aparentemente a começar as primeiras etapas deste programa experimental. O objectivo é completares vários níveis diferentes para dares registos suficientes ao respectivo estudo. Entretanto, durante este processo, a personagem que jogas acaba por ficar encurralada num ciclo de sonho e tem de seguir as direcções do doutor Pierce para conseguir escapar de volta ao mundo real.

Como o próprio design do título já indica, tudo é uma questão de perspectiva e por vezes a tua percepção poderá ser uma realidade, bem… a tua realidade! O significado de “superliminal” é percepção consciente, acima do limiar do subconsciente, ou seja, é uma palavra que remete para um tipo de consciência que está para além da faixa experiencial da consciência normal. O jogo segue este lema ao máximo, pois a nossa perspectiva é uma realidade consciente que está enquadrada dentro de um sonho, ou seja, num suposto estado inconsciente.

Apesar do jogo possuir uma estética simples e limpa, os puzzles falam todo o jogo por si. Os puzzles não são tão complicados como aquilo que parecem, nós é que às vezes acabamos por complicar aquilo que já é simples. Basta pensarmos um pouco fora da caixa! Se eu olhasse para um objecto a uma certa distância, dum determinado lugar e a partir de uma certa direção, este ficaria com diferentes tamanhos consoante a minha percepção. No jogo, podemos brincar com esta fórmula ao pegar em objectos, atirando-os para longe ou para perto da nossa posição. No entanto, quando estes são pousados a sua escala de tamanho muda conforme a nossa perspectiva visual e é isto que permite-nos passar para os níveis seguintes.

Existem, por certo, várias maneiras de conseguir resolver os puzzles e quando os completamos é impossível não sentir-mos ligeiramente orgulhosos, tendo em conta que existem puzzles mais desafiantes e outros que requerem mais da nossa paciência. Superliminal consegue surpreender constantemente nesta vertente, cada nível é imprevisível e único à sua maneira.

Uns dos meus favoritos foi o nível de “Terror”, que serve para brincar com a imaginação do nosso cérebro e mostrar que por vezes nós criamos medo a partir de elementos que, ao serem vistos de outra perspectiva, são realmente inofensivos. Sendo eu uma grande fã de terror, eu adorei experienciar este nível.

Outro a destacar foi o nível da “Piscina”, eu adoro piscinas, mas infelizmente não deu para nadar na água. No entanto, pude mudar a escala do meu tamanho e andar em cima de um castelo insuflável, isto só dito já parece muito divertido!

Por último, também quero mencionar o do “Loop” que é um dos níveis mais criativos e difíceis do jogo inteiro, basicamente nós ficamos presos num loop e temos que arranjar uma forma de quebrar esse ciclo. A solução é tão improvável que quase fiquei a deitar fumo da cabeça. Aliás, fiquei tanto tempo presa neste nível a experimentar ideias diferentes, que acabei por achar buggs que por vezes impediam-me de avançar com o jogo e forçavam-me a fazer load. Só neste nível, consegui encontrar um total de 3 buggs únicos!

Estes puzzles mexem com a nossa perspectiva de várias maneiras distintas, tens os que envolvem aumentar a escala dos objectos para maior ou menor para depois utilizá-los como plataforma de acesso a lugares pouco usuais, os que consistem em utilizar esses objectos para premir botões e abrir portas… e por falar em portas, existem algumas que têm características especiais e não te permitem passar se trouxeres um objecto contigo, isto sem dúvida que ajuda a dar uma camada de desafio extra. Há puzzles em que tens de mexer com a escala de certos objectos que servem como instrumento para alterares o tamanho da personagem e fazer com que esta consiga completar o nível.

Por último, também existem puzzles que utilizam uma das minhas mecânicas favoritas, ilusões Trompe-l’œil, uma técnica artística que faz imagens fixas a uma superfície plana parecerem ter um formato de três dimensões. Durante alguns segmentos do jogo, esta técnica era utilizada em paredes e superfícies que estavam revestidas por linhas desconectadas, o que tínhamos de fazer era olhar para estas linhas num determinado ângulo para que estas formassem a imagem de um objecto. Este objecto ganharia assim uma forma dimensional para o podermos manusear.

Relativamente aos cenários, estes não puxam por muito detalhe, porque simplesmente não são o foco central do jogo. Contudo, existem pequenas decorações temáticas que despertam o nosso interesse por serem referências à própria experiência a que estamos a ser submetidos. Para além disto, o cenário por vezes esconde alguns segredos que são engraçados de encontrar.

Em Superliminal, existem easter eggs fascinantes, por exemplo, tens salas escondidas que por vezes desviam-te do rumo original e outras que para as descobrires tens que ser super criativo com as mecânicas de perspectiva, tens blueprints dos níveis espalhadas aleatoriamente pelos cenários e máquinas de refrigerantes em que literalmente podes pedir um mini refrigerante e transformá-lo num colossal. Se prestares muita atenção, poderás também avistar divisões camufladas que têm constelações no tecto e são super deslumbrantes!

O jogo tem uma duração curta, aproximadamente de 2 horas. Contudo, não sei bem como, mas Superliminal tem a capacidade de fazer com que estas 2 horas pareçam mais extensas do que realmente são, digo isto num bom sentido. Quando joguei senti-me muito imersiva com tudo aquilo que era mostrado, juro que nunca me senti tão desafiada, entretida e confusa ao mesmo tempo, desde que via aqueles episódios fantásticos do Brain Games, na National Geographic.

A banda sonora também combina na perfeição com a essência do jogo, é relaxante e misteriosa, possuindo vários estilos de músicas diferentes. É acima de tudo composta por piano, com uns toques de jazz e bateria, mas também poderás encontrar outras misturas interessantes.

No fundo, Superliminal poder ser considerada uma viagem de auto-descoberta sobre como nós decidimos encarar aquilo que a nossa perspectiva nos atribuí. Cada pessoa tem a sua maneira de ver o mundo e existe sempre espaço para mudança. Até porque a perspectiva pode ser uma realidade para nós, mas não quer dizer que seja a realidade mais correcta. Um exemplo que posso dar a partir do jogo é quando ia em direção a uma porta que mostrava um céu azul à distância, mas quando chegava até a esse “céu”, apercebia-me que era só uma pintura. No entanto, por breves instantes e ainda com as minhas dúvidas, acreditei mesmo que talvez poderia ser um céu real. Este efeito de ilusão óptica repete-se muitas vezes ao longo do jogo e até na nossa vida diária, se reflectirmos com mais atenção. A nossa visão por vezes pode levar-nos ao engano, mas no final, tudo é uma questão de perspectiva.

Superliminal encontra-se atualmente disponível para a PS4, Xbox One, Nintendo Switch e PC (via Epic Games Store). O jogo está com lançamento planeado para a Steam em Novembro deste ano. O seu preço ronda valores acessíveis, dependendo da plataforma, pode ir desde os €15.99 até aos €20,99.

Positivo:

  • História intrigante que conduz a uma valiosa lição de moral sobre “perspectiva”
  • Puzzles desafiantes e originais
  • Simplicidade do cenário resulta bem com o carácter ilógico do jogo
  •  Easter Eggs divertidos e muito bem escondidos

Negativo:

  •  O jogo pode parecer curto consoante a “perspectiva” de alguns
  •  Níveis não estão completamente polidos, por vezes existem alguns buggs

Andreia Mendes
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