Análise – Spencer

Continuando a publicação de análises de filmes pendentes de 2021, é a vez da ficção histórica, Spencer (2021). Realizado por Pablo Larraín, conhecido sobretudo pela longa-metragem Jackie (2016), a narrativa está centrada nos mesmos moldes de um slice of life, num período crítico da vida da Lady Di, mais conhecida por Diana Spencer (1961-1997). Independente da idade que se tenha, de uma forma ou de outra, todos conhecem ou já ouviram falar desta personalidade que marcou o século passado. A sua trágica morte, parou o mundo, marcando uma geração inteira. Evento que é facilmente lembrado por todos, ainda nos dias de hoje.

Larraín optou por pegar num período muito controverso da vida de Diana, um que moldou para sempre o destino da família real britânica. Refiro-me ao seu distanciamento de Prince Charles em 1992, que iria ser consumado mais tarde em 1996, quando se divorciaram oficialmente (ainda que o filme não delineie esse período). Ao contrário de outras adaptações, esta versão apropria-se de alguns elementos de ficção, embora a sua base seja o de drama biográfico, isto é, onde o embasamento da narrativa está mergulhada em factos reais e em figuras que passaram pela vida da Princesa de Wales.

A narrativa acompanha a vida da protagonista durante alguns dias, dando uma visão mais íntima e minuciosa dos momentos que antecederam o ultimato de Diana à família real. A ação já se inicia com a instabilidade e ansiedade por parte de Diana, patente no seio da realeza, sendo a cena de abertura uma maneira bastante clara de destoar o comportamento da Princesa de Wales. Mais especificamente, os eventos retratados em Spencer (2021) têm início no natal de 1991, onde Diana (Kristen Stewart) já tem conhecimento do caso extraconjugal de Charles (Jack Farthing) com Camilla Bowles (Emma Darwall Smith).  Aqui a protagonista não apenas carrega a dor de manter um casamento de fachada, bem como suporta a pressão, que fazer parte do núcleo da realeza britânica acarreta, na sua vida pública e privada.

O resto do filme ocorre no período de três dias durante a época festiva do natal. Inclui participações expressivas de Alistair Gregory (Timothy Spall), uma personagem fictícia baseada em David Walker, um regente da staff pessoal da Rainha; Darren McGrady (Sean Harris), chef principal da cozinha real; Maggie (Sally Hawkins), outra personagem ficcional, que serve de auxiliar de Diana, com quem estabelece uma relação de intimidade. Tendo ainda a presença de outros membros da família real, mas com pouca presença, pela negativa. Pois, perdeu-se a oportunidade de desenvolver um pouco mais da relação de Diana com os herdeiros do trono, William (Jack Nielen) e Harry (Freddie Spry).

A atenção está mesmo focalizada em Diana Spencer, a quem a câmara acompanha cada segundo e minuto em tela. Interpretada por Kristen Stewart, atriz que depois de ficar vincada à saga Twilight (2008-2012), tem vindo a mostrar pela positiva que é capaz de papéis mais arrojados, que realmente puxem pela sua competência e versatilidade enquanto vedeta do grande ecrã. Não posso dizer com grande certeza, pois vi muito pouco da filmografia de Stewart, mas este seu papel  é possivelmente a sua melhor prestação enquanto atriz, até ao momento.

Feito que, à data desta análise, lhe possibilitou a nomeação para Best Actress, tanto nos Golden Globe Awards e no Critics Choice Movie Awards. Isto torna-se claro, ao verificarmos que Spencer (2021) inclui vários aspetos daquilo que consideramos como um filme de estudo de personagem, ao estilo de Black Swan (2010) ou Taxi Driver (1976). Onde, naturalmente, a interpretação de Kristen Stewart se torna essencial para sustentar esta produção.

Diana sempre foi lembrada pela sua postura pouco convencional, face ao padrão rigoroso e disciplinado da família real, com quem muito contrastava. Atitude essa que lhe valeu os holofotes do mundo inteiro, sendo capa de manchetes internacionais, pelas mais variadas polémicas que envolviam a sua vida. Além de se relacionar abertamente em causas sociais e no ativismo. Portanto Stewart, não tinha propriamente um trabalho fácil nas mãos, num papel que exige muito mais do aquilo que estava habituada a lidar.

Uma comparação inevitável que salta à vista, é para com a adaptação televisiva The Crown (2016). Se por um lado a versão desta série, interpretada por Emma Corrin, consegue ser mais fiel e historicamente precisa, a versão de Spencer (2021) surpreende, ao entregar uma faceta mais enigmática, e na minha perspectiva, bastante superior ao nível de atuação e presença em cena. Com efeito, a visão de Pablo Larraín opta por focar nos olhares, nos gestos e nas expressões não verbais, do que nos diálogos em si.

É uma jogada interessante, deixando ao critério do espectador a interpretação do que está a ser visto. Quem não prestar atenção a estes pormenores poderá chegar ao final, vazio com a experiência e não perceber exatamente qual o significado do que as duas horas desta obra estavam a querer transmitir. Outro ponto, prende-se com o vestuário da princesa, que é também bastante simbólico. O que reforça o ponto que referi, da vertente interpretativa da obra. Estados de espirito e emoções reprimidas são apresentadas de formas não explícitas pela roupa que a Princesa de Wales usa no decorrer do filme.

A linguagem cinematografia é essencial para se entender as várias camadas de Spencer (2021). A câmara assume em grande parte duas posturas: Prioriza planos abertos para evidenciar a magnitude da presença da família real, usada nos corredores, salas e até no exterior do palácio; e dá ênfase em planos close-up, quando Diana está presente. Quem conhece os pormenores do contexto em torno da vida e morte da princesa irá ver o filme de outra forma. Por outro lado, quem não está ciente, poderá ter dificuldade em se relacionar com esta longa-metragem.

Um exemplo disso é a sequência que envolve o colar de pérolas no jantar com a família real. Onde é ilustrado explicitamente a pressão que Diana experienciava naquele novo mundo, repleto de normas e etiqueta rígida. Não apenas dentro, bem como fora do seio real, era também vítima, só que do olhar atento dos media. Cada pequeno passo em falso não apenas envolvia a própria, mas igualmente a reputação da aristocracia britânica, daí que Spencer (2021) seja sobretudo, uma jornada de libertação.

Larraín auxilia-se da história de Anne Boleyn, que Diana vai citando passagens durante o filme, para criar um paralelismo com aquilo que a mesma está a vivenciar. Onde a protagonista desse livro fora decapitada por Henry VIII, acreditando este último que tal ato seria mais fácil, do que o divórcio. Há muitas outras interpretações e mensagens a se retirar daqui, dependerá, acima de tudo, da atenção e esforço do espetador.

Spencer (2021) tornou-se rapidamente num dos meus favoritos do ano passado, tendo uma das melhores atuações, de que tenho memória nos últimos anos. Com uma execução que irá valer a Kristen Stewart, sem dúvida, a nomeação nos Óscares, quiçá a vitória na categoria de melhor atriz (é para aqui que aposto este ano). Apenas consigo recomendar o filme a quem esteja familiarizado com as nuances e o todo o drama familiar que marcou a vida de Diana.

Caso contrário irão sentir alguma dificuldade em se deslumbrar pela experiência que Pablo Larraín concedeu. Não é a adaptação mais fiel no que diz respeito à vida da Princesa de Wales,  mas é uma que tem todo o mérito possível. Por não só retratar um período tão controverso, e que mudou, certamente, o rumo de umas das figuras mais marcantes de tempos recentes, bem como homenagear, a seu jeito, quem foi Diana Spencer.

Positivo:

  • Atuação de Kristen Stewart leva o filme às costas;
  • Olhar intimo e ousado na vida de Diana Spencer;
  • Realização e cinematografia de Pablo Larraín;
  • Predominância da linguagem não verbal encaixa na perfeição;
  • Vestuário e adereços de enorme qualidade;
  • Carregado de simbologia e com várias camadas;

Negativo:

  • Requisito quase obrigatório ter algum contexto prévio acerca da vida de Diana;

João Luzio
Share

You may also like...

error

Sigam-nos para todas as novidades!

YouTube
Instagram