Análise – Space Jam: A New Legacy

Já lá vão quase três décadas desde que Space Jam (1996) foi originalmente lançado e que com o passar do tempo foi se tornando um marco para as gerações que cresceram a vê-lo. A ideia de ter tanto Michael Jordan, considerado à época a maior estrela do mundo de basketball, juntamente com os Looney Tunes e companhia, caiu que nem uma luva, agradando tanto a crítica e, sobretudo o público.

Embora sendo um filme simples na sua essência, conseguiu ter um ótimo desempenho nas bilheteiras, sendo um sucesso comercial estrondoso, ao ponto da Warner Bros considerar colocar em marcha uma sequela. Contudo, esta promissora continuação ficou em «development hell» por muitos anos até 2014 onde foi aprovada, mas só vendo a luz do dia, agora em 2021.

Já dizia alguém que “mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”, de facto, Space Jam: A New Legacy chega numa época em que, apesar de saudosos para os mais velhos, os Looney Tunes caíram no esquecimento dos mais novos. As gerações recentes acabaram por ver muito pouco destas personagens no seu ativo, sendo que a última leva de produções ronda o início dos anos 2000’s (Looney Tunes: Back In Action), apesar de ocasionalmente surgir uma ou outra série animada (Looney Tunes Show), sendo a mais recente Looney Tunes Cartoons. Daí que esta nova produção tinha ainda como missão, ser um chamariz para um público mais novo destas personagens.

Neste sentido, a premissa do filme coloca uma nova estrela do basketball à frente da aventura, nomeadamente LeBron James, que tem ganho bastante protagonista neste desporto, ao ponto de ser equiparado por muitos, ao antigo protagonista do filme de 1996. Sobe ao cargo de director, Malcolm D. Lee, conhecido pela sua filmografia de qualidade duvidosa, de paródias e comédias, sendo esta escolha um forte insight do resultado abaixo do esperado, que estaria por vir aqui, mas já lá iremos. Não esquecendo Don Cheadle, enquanto principal antagonista, e é claro os carismáticos e pouco convencionais Looney Tunes.

Quanto à história em si, esta não podia ser o mais trivial, indo reciclar em grande medida toda a narrativa do anterior, havendo pouco esforço para quebrar a fórmula apresentada em 1996. Aqui, Dom James (Cedric Joe) ambiciona tornar-se um developer de videojogos, mas devido à teimosia e persistência do seu pai, o qual quer este siga as suas pisadas numa carreira profissional de basketball, faz com que a relação de ambos não seja a maior, havendo um distanciamento e até choque.

De outro ângulo, a inteligência artificial da Warner Bros, de nome AI-G Rhythm (Don Cheadle) que se tornou autoconsciente, almeja ganhar maior reconhecimento no mundo real, desenvolvendo por isso um plano meticuloso. Devido a uma série de situações, entre elas a recusa do astro de basketball de trabalhar para a Warner Bros e o ego inquieto de AI-G Rhythm a meter-se no caminho, resulta no aprisionamento de LeBron e de Dom no mundo/server virtual da Warner Bros.

Como se isto não fosse suficiente, o maléfico algoritmo dá um prazo de 24 horas a LeBron para formar uma equipa, de forma a enfrentá-lo num jogo de basket, que no caso deste ser bem sucedido, recuperará a sua liberdade e o seu filho. Portanto cabe agora ao protagonista, numa corrida contra o tempo, percorrer toda a extensa galeria de universos da Warner Bros, de forma a conseguir vencer e derrotar o vilão.

A partir do segundo ato, onde Bugs Bunny é introduzido, Space Jam: A New Legacy acaba por sofrer do mesmo problema de Ready Player One (2018), onde prioriza empurrar continuamente personagens, cameos e referências uns atrás dos outros na tela, menosprezando o desenvolvimento das personagens e entregando uma experiência, parcialmente, vazia de emoções.

Embora, seja compreensível de que se trata de um filme (e não uma série) e que por isso o ritmo acabe por ser mais acelerado, o facto é que a direção de Malcolm Lee dá apenas um leve vislumbre daquilo que introduz, para rapidamente passar ao momento seguinte, sem grande explicação ou payoff adequado. Por outro lado, há referências acertadas, que realmente são divertidas e fazem à sua maneira, uma homenagem na obra que se baseiam.

Sendo que por exemplo, há easter eggs para todos os gostos, desde os mais velhos como o Wizard Of Oz (1939), Casablanca (1942), The Matrix (1999) e Austin Powers (1997), ou até mais recentes e em voga como os superheróis da DC, Mad Max (2015), Game Of Thrones (2011), entre tantos outros. Em cada um deles, há um par de Looney Tunes a recrutar, acompanhado por uma cena bem humorada, que irá agradar a quem vai apanhando as referências. Mas tal como referi a sua presença é até cativante, mas pouco aproveitada e explorada.

Todos os restantes elementos do enredo acabam por cair em terra, quando (tal como esperava) Space Jam: A New Legacy recria ponto a ponto várias partes substanciais do original, sem que isso seja justificado ou levado a “sério” para a resolução do conflito principal. É óbvio que a Warner Bros sabia perfeitamente que parte do público alvo seria um tanto mais velho, isto é, aquele que viu e cresceu algures nos anos 90 e início do século seguinte, no entanto, aquilo que poderia ser visto como homenagem literal e em abundância destoa do propósito central: ser uma sequela.

Ora a inovação está cá, mas somente quando dos Looney Tunes (e das suas peripécias) se trata, pois tudo o resto revela uma grande preguiça criativa por, de facto, criar algo novo e seguir o filme para novos horizontes. É uma pena que tenha sido este o cenário criativo delineado, pois havia espaço para potenciais novas ideias. Seja como for, até mesmo na atuação do astro principal, o filme peca.

Bem, uns poderão dizer que é injusto considerar criticá-lo, pois trata-se de um jogador de basketball, mas a verdade é que artistas vindos de outros ramos, como é o caso de Dave Bautista, que a seu jeito, mostrou ser apto para o cargo. Com LeBron James não é o caso, a atuação é realmente muito fraca, até para alguém que já atuou anteriormente em Trainwreck (2015), onde até fez um trabalho prestável, aqui está muito longe de ser algo aceitável.

Quanto ao restante elenco, Don Cheadle é que mais se destaca, mesmo que a sua personagem não tenha sido executada da melhor forma, sendo um típico vilão que caí em alguns clichês habituais de filmes de série B. De qualquer forma, a presença dos Looney Tunes consegue ser uma lufada de ar fresco no meio disto tudo. A sua energia é contagiante, fez-me até lembrar da altura em que os via na televisão quando era mais novo. Para todos os efeitos,  isso é bastante positivo, considerando que mesmo depois destes anos todos têm ainda a aura magnética e divertida de outrora.

Faço menção à banda sonora, que entrega tanto arranjos pertinentes de faixas do original, ao mesmo tempo que se atualiza com músicas atuais de artistas, como John Legend, Lil Uzi Vert, entre outros. A nível técnico, embora reticente, até simpatizei com o estilo visual escolhido, onde houve espaço tanto para o tradicional 2D, simultaneamente, que havia CGI com fartura. Há até um balanço adequado entre ambos os estilos, sendo que nenhum se sobrepõe entre si. Como última nota, reconheço o empenho em trazer de volta as vozes originais dos Looney Tunes, sobretudo, na versão dobrada em português, que não desilude face à americana.

Space Jam: A New Legacy é uma sequela que pouco faz para justificar a sua presença, criando uma relação de dependência extrema com o original (sobretudo com os Looney Tunes) como forma de encobrir um enredo débil, atuações pouco convincentes, uma execução turbulenta e uma experiência narrativa, na generalidade, medíocre.

Ainda assim é um filme que entretém, principalmente se forem fãs do universo Warner Bros, mas que claro, fica muito aquém quer daquilo que os mais nostálgicos queriam, quer para servir de porta de entrada para as gerações mais novas. Se realmente queriam mesmo (muito muito) vê-lo, não têm propriamente nada a perder, mas reforço, que está longe de chegar aos pés do original, e que mais vale reverem o primeiro.

Positivo:

  • Consegue entreter e ter alguns momentos divertidos;
  • Looney Tunes são a melhor parte do filme;
  • O jogo final de basketball;
  • Banda sonora;
  • Mistura entre CGI e animação 2D;
  • Certas referências e cameos estão bem colocados, mas…

Negativo:

  • …há um bombardeamento excessivo de propriedades da Warner Bros;
  • Atuação de LeBron James;
  • Execução inadequada;
  • Enredo débil;
  • Nostalgia não é suficiente para salvar o filme;
  • Recicla em grande parte elementos do original;

João Luzio
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