Análise – Snowpiercer T1

Bong Joon-ho (mais conhecido por Parasite de 2019) trouxe em 2013 um filme que adaptava a comicbook francesa, Le Transpercerneige, chamado de Snowpiercer. Agora, em 2020, chega uma adaptação a série que pega tanto elementos desta obra literária como do filme homólogo de 2013. Desta forma Snowpiercer (2020) é uma espécie de reboot da franquia, que tem como premissa, um mundo pós-apocalíptico completamente congelado, no qual um comboio de mesmo nome, contém os últimos seres humanos vivos, os quais estão divididos por castas, numa sociedade distópica.

Apesar de seguir a sua própria continuidade e linha temporal, Snowpiercer (2020) tem vários paralelismos, em especial com o filme de 2013. E isto confirma-se, sobretudo, no primeiro episódio, que parece quase como uma recriação com diferentes atores das cenas do filme. No entanto, para a minha surpresa, a série muda por completo o seu rumo, ao introduzir um caso de homicídio dentro da locomotiva, que abala não só aquilo que é esperado desta obra, como também das possibilidades que explora. Parecendo praticamente uma história criminal, digna de Agatha Christie, só que acontece dentro de um comboio, submerso em conspirações e esquemas políticos.

Contextualmente, a série tem início após sete anos da partida de Snowpiercer. Outrora, o mundo havia sofrido um problema de aquecimento global e os líderes mundiais decidiram enviar uma espécie de gás gelado para atmosfera, de modo a solucionar este problema. Todavia, o plano acaba por não ter o melhor dos desfechos, o que resulta no congelamento permanente da superfície da terra. Neste cenário surge Willford, um génio maquinista, que constrói uma locomotiva capaz de albergar centenas de pessoas, composta por mais de mil carruagens. No entanto, aquando da partida, um grupo que não tinha bilhete, decide invadir a parte traseira do comboio, de forma a garantir a sua sobrevivência.

A partir desta premissa, forma-se uma sociedade dentro de Snowpiecer, dividida entre os tailies, que não têm bilhete e por isso ficam na “cauda” do comboio e são também aqueles com as piores condições de vida. A terceira classe composta pelos indivíduos trabalhadores, que mantêm a vida da locomotiva em andamento, e ainda pela segunda e primeira classe, compostos pelas pessoas mais influentes e ricas dentro da locomotiva. É este o contexto por detrás da série e que serve como pano de fundo para os sucessivos acontecimentos da narrativa.

Nesta situação, Andre Layton (Daveed Diggs), um ex-dectetive, que vive na cauda do comboio, juntamente com os seus companheiros, planeiam uma revolução para conquistarem os privilégios da parte frontal da locomotiva. Contudo, Snowpiercer para além de ter um sistema de classes próprio, tem também uma força repressiva, capaz de prevenir qualquer tentativa de rebelião contra a administração, representada por Melanie Cavill (Jennifer Connelly).

Tal como referi, ainda que haja certas simetrias entre o guião do filme e da série, é aquando de um homicídio na primeira classe, que a narrativa vira completamente do avesso, para contar duas histórias diferentes: uma referente aos mistérios e conspirações e outra referente à revolução e empoderamento de classes. E que posteriormente ambas as histórias acabam por se intersectar e se complementar, para entregar uma experiência nova e bem desenvolvida.

Para contar esta história, a produção de Snowpiercer reforçou a importância da ambientação e respectivos adereços e locais, de forma a conseguir colocar o espectador dentro daquela situação, envolvendo-se com as personagens e permitindo-lhe sentir as sensações que resultam de mais de sete anos presos numa locomotiva. Certos planos de camera mais apertados emanam uma sensação de claustrofobia, de propósito para fazer o espectador sentir que não há escapatória daquela situação.

Voltando ao enredo este além de abordar questões políticas e de justiça social, têm ainda um teor humanístico, que serve quase como uma espécie de study case, daquilo que são os efeitos do comportamento humano num ambiente adverso como acontece em Snowpiercer. E isso é traduz-se na evolução (nem sempre para melhor) de determinadas personagens, como Pike (Steven Ogg), amigo de Layton, ou de Lilah “LJ” Folger (Annalise Basso), filha de um casal influente da primeira classe, as quais são o resultado directo daquilo que seria esperado num clima de sobrevivência. Isto para dizer que a produção de Snowpiercer, deixou os arquétipos de personagens idealizadas (bem vs mal) para entregar personagens multifacetadas e com passados e características complexas. Assim não há nenhuma personagem que se possa considerar como cem por cento bondosa, ou vice-versa, pois cada uma dá ao enredo um dígito a mais no desenvolvimento da sociedade distópica vivida no Snowpiercer.

Contudo há determinadas temáticas demasiado badaladas, que acabam por não ter tanto impacto, elemento que é reforçado para quem está familiarizado com o filme e/ou a obra literária, como foi o meu caso, o acaba por estragar determinadas surpresas, que até estão bem construídas. Por outro lado, se no filme as questões de equilíbrio estavam relacionadas com um tom pseudo-religioso, aqui na série, este equilíbrio resulta da uma necessidade científica, a propósito do racionamento dos recursos a longo prazo, para que a sociedade de Snowpiercer possa continuar.

Há ainda outra parte do elenco a destacar, como é o caso das personagens de Bess Till (Mickey Summer), uma oficial de autoridade, Ruth Wardell (Alison Wright), hospedeira de bordo, e de Josie Wellstead (Katie McGuiness), pertencente à cauda do comboio. Muitos outros poderiam ser aqui destacados, pois todo o elenco faz muito bem a sua função, indo para lá dos seus arquétipos de personagens, como mencionei antes.

As sucessivas reviravoltas e plot-twists no enredo, entretém bastante, fazendo o espectador assistir ao episódio seguinte. Se num momento pensamos que a história vai para um caminho x, no segundo a seguir, a história vai para um caminho y, totalmente diferente. O factor novidade e de criatividade narrativa foi muito bem-vindo na série de Snowpiercer (2020), o que acabou por torná-la uma experiência à parte das outras, e na minha opinião a melhor entre elas.

Quanto aos aspectos técnicos visuais e sonoros, estes encontram-se dentro do padrão esperado. Sendo que a banda sonora pode parecer ausente em determinados momentos, e talvez até necessita-se de um tema principal ou no mínimo de um leitmotif associado à locomotiva, ou determina personagem. Já o visual está condizente, e é reforçado pela ambientação, que como referi anteriormente, está muito bem trabalhada e ajustada à temática de Snowpiercer (2020).

Quer tenham gostado da obra literária ou do filme, ou nunca sequer tenham visto nada acerca deste universo, esta série ultrapassa de longe os seus antecessores, e é também um ótimo ponto de partida para qualquer pessoa, respectivamente. Snowpiercer (2020) é um dos pontos altos do ano, no que diz respeito às séries, e possivelmente é bem capaz de ser, daquelas obras que melhor se encontra adaptada, ao mesmo tempo que consegue adicionar vários elementos narrativos novos, sem que a sua essência seja perdida no caminho.

Positivo:

  • Elenco;
  • Personagens bem desenvolvidas e complexas;
  • Ambientação e imersão;
  • Mantém a essência das obras que lhe antecedem;
  • Reviravoltas e plot-twists bem executados;
  • Críticas sociais e políticas pertinentes;
  • Temáticas interessantes…

Negativo:

  • …mas já foram badaladas, frequentemente, em outras obras;

João Luzio
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