Análise – Quarta Divisão

Bem-vindos à realidade do cinema português.

Com cortes significativos na cultura, o fluxo de filmes portugueses diminuiu numa realidade só por si pobrezinha e viciada. Não é necessariamente mau haver menos dinheiro, esta verdade obriga quem produz a apelar à imaginação, elaborar histórias novas e a sacrificar-se em prol da arte.

A questão dos subsídio-dependentes acontece porque os produtos cinematográficos nacionais não têm retorno financeiro, resultado do público insuficiente para pagar nas bilheteiras, o valor investido. Este fenómeno acontece por incompetência das distribuidoras, que à exepção do busto da Soraia Chaves, não conseguem de todo elaborar um plano de marketing capaz de entusiasmar espectadores. Ou nos casos do “cinema independente português”, o divórcio autor/público dá-se sobretudo devido aos pseudo-génios, que trabalham para gáudio pessoal, e na maioria das vezes consideram o público insuficientemente erudito para apreciar a obra. Se não querem saber do público, por que motivo o público quererá saber deles? Felizmente a Quarta Divisão pertence a outro campeonato, está a ser bem publicitada (não precisa da Soraia Chaves) e não possui qualquer ponta de pretensiosismo. Será que tem predicados suficientes para singrar nas bilheteiras?

Quarta Divisão, o novo filme de Joaquim Leitão (realizador de Tentação e A Esperança Está Onde Menos Se Espera), teve uma manobra de marketing bastante interessante e criativa, chamou a atenção com a premissa do filme escarrapachada no trailer: há um mistério por resolver, uma criança está desaparecida “e é o dever de todos nós ajudar”. Ok, contem comigo!

Helena Tavares (interpretada por Carla Chambel) é uma agente policial que depara-se com o caso da criança desaparecida. Martim Cabral e Melo (interpretado por Martim Barbeiro), filho do influente jurista Felipe Cabral e Melo (interpretado por Paulo Pires), não chegou a entrar na escola no dia em que desapareceu. Este acontecimento obriga a polícia lisboeta a organizar uma operação relâmpago para descobrir o paradeiro da criança. Todas as hipóteses são levantadas: rapto, fuga e possível vítima de pedofilia.

Quarta Divisão está extraordinariamente gravada (o cinema português já saltou da pelicula para o registo digital), Joaquim Leitão faz um trabalho notável no capítulo da captação de imagens, os enquadramentos são de uma grande mestria (rimam sempre com a acção), o trabalho com os reflexos nas paredes e nos vidros revelam minucia e detalhe, e os movimentos de camara são sempre aguçados e subtis. A direcção de fotografia é do melhor que já foi feito em Portugal, à excepção dos muito grandes planos e dos planos muito gerais (vítimas do baixo orçamento), a direcção fotográfica faz um trabalho bastante competente, com jogos de luzes a privilegiar as cores frias. Nota alta para a cena do interrogatório e no cenário do Professor Magalhães.

No capítulo da representação, Carla Chambel e Sabri Lucas identificam que a representação em Portugal está de boa saúde e recomenda-se. Talvez estejamos mal habituados com o ar de tédio dos actores consagrados nas telenovelas (triste porque têm uma profissão privilegiada e estão a borrifar-se para o público), mas na Quarta Divisão há uma entrega total à causa e todas as cenas são encaradas com total disponibilidade. Carla Chambel é uma actriz fantástica, abençoada com um olhar bastante comunicativo e Sabri Lucas é um dos melhores actores da respectiva geração, dotado de uma grande consciência de movimento pelo espaço cénico. Dos actores mais consagrados, uma referência à classe do experiente Adriano Luz e da coragem de Paulo Pires em sujeitar-se a cenas fora da área de conforto.

Apesar da elevada qualidade nos aspectos técnicos, Quarta Divisão comete erros dramáticos no que respeita à narrativa: há arcos de personagens que são lançados e nunca são fechados; criam-se sub-plots que não têm influência no enredo principal (distrai o público do que é realmente importante); a história principal muda de direcção, deixando vazios na intriga, criando confusão e desconforto ao espectador (não seria necessariamente mau, desde que fossem silogismos); os diálogos padecem da Navalha de Ockham, há o tique irritante das perguntas retoricas e informações que são gordura, em diálogos até bastante verosímeis.

A história principal é interessante, apesar de já ter sido contada uma centena de vezes, eventualmente poderia ter seguido uma linha diferente (quando vi o trailer pensei que tratava-se de uma conspiração política). O final da Quarta Divisão merece análise pela coragem, mas as acções e decisões da protagonista durante a história não consolidam a decisão tomada.

Positivo

  • Realização
  • Dinâmica entre Carla Chambel e Sabri Lucas
  • Produção
  • Sub-Plots da Polícia Judiciária e da Rede de Pedofilia
  • João Baptista é o nosso Joseph Gordon-Levitt

Negativo

  • Edição
  • Abrir sub-plots para servir de Exposição
  • Nunca está presente a noção fundamental: “Em que medida a história transforma o meu protagonista, e em que medida as acções do meu protagonista transformam a história?”
  • Onde está o Climax?

 

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Leonsuper

Já vi o trailer e não me interessou muito. E boa análise!

Edgar Silvestre

obrigado pelo comentário Leonsuper

Nirvanes

‘A questão dos subsídio-dependentes acontece porque os produtos cinematográficos nacionais não têm retorno financeiro, resultado do público insuficiente para pagar nas bilheteiras, o valor investido. Este fenómeno acontece por incompetência das distribuidoras, que à exepção do busto da Soraia Chaves, não conseguem de todo elaborar um plano de marketing capaz de entusiasmar espectadores. Ou nos casos do “cinema independente português”, o divórcio autor/público dá-se sobretudo devido aos pseudo-génios, que trabalham para gáudio pessoal, e na maioria das vezes consideram o público insuficientemente erudito para apreciar a obra. Se não querem saber do público, por que motivo o público quererá saber deles?’

Concordo com boa parte do que dizes mas há cinema português bom que talvez passa por ser um pouco erudito demais para o que estamos habituados… Aqui em portugal a cultura cinematográfica não é muito boa, isto é, porque estamos no meio do cinema europeu sem praticamente percebermos que ele existe. Aqui é só Hollywood. É o que a Zon Lusomundo nos dá e pronto, lá vamos nós ver o próximo blockbuster. E o que é o equivalente a isso no cinema português? O busto da Soraia Chaves, como disseste muito bem. Isso vende muito bem.
Apesar de tudo o cinema português sub financiado e tudo mais tem várias realizadores e filmes que marcam a nossa história e que marcam outros países (já que por cá se passa despercebido muitas vezes INFELIZMENTE).
O melhor exemplo é o Tabu do Miguel Gomes que saiu o ano passado e tem ganho prémio atrás de prémio, é um hino ao cinema puro… às histórias de amor, ao preto e branco, às colónias, aos portugueses.Acho que fica para marcado para a nossa história, nos filmes importantes que de cá sairam. O Tabu em França chegou aos 150 mil espectadores… quantos achas que chegou em Portugal? Se existe algum divórcio entre o actor e o público não me parece que o autor tenha culpa. A nossa culutra cinematográfica é que não é a melhor. Os Franceses tiveram escolas muito importantes de cinema e aprenderam a abrir os olhos de outra forma.
Falando do Miguel Gomes falamos também no Aquele Querido Mês de Agosto.
Lendas temos o Manuel de Oliveira que ainda o ano passado lançou um filme muito bom chamado o Gebo e a Sombra e é o realizador mais velho no activo.
Temos um outro que eu gosto chamado Marco Martins que fez um filme chamado Alice com o grande actor Nuno Luz que toda a gente conhece, sobre um pai que procura a sua filha raptada, que também é muito bem amado pelo franceses.
E nas curtas? Temos um realizador palma de ouro, o João Salaviza, que nem 30 anos tem e é muito promissor…

Portugal está cheio de boas coisas no meio de tão pouco apoio… Nós é que temos de apoiar o cinema português, e não é só o que a Zon Lusomundo nos dá à boca.

Por último deixo aqui um comentário do realizador João Botelho (um pouco irritado) a propósito destas questões no Canal Q: http://videos.sapo.pt/GiDtoB5hzU4PvE0DGZTO

Edgar Silvestre

O Alice é provavelmente o melhor filme português dos últimos anos. É uma história transversal, muito bem escrita e muito bem interpretada.O Tabu já criou alguma reputação, mas confesso que ainda não vi. MAs isto é simples, arte não é uma experiência individual, tens de conectar com o público, porporcionar uma experiência nova e que obriga a reflexão.Se existem esses predicados, aposto que o filme irá emergir até ao público. Mas falar de cinema português é tocar num assunto que dá pano para mangas. continuo a acusar as distribuidoras de incompetência. se conseguem publicitar o avatar conseguem publicitar um filme português. Ainda por cima com as redes sociais e o youtube, é possível tornar viral qualquer video, desde e CLARO, que seja interessante

Nirvanes

Não são só as distribuidoras… os apoios é que também são muito fracos. O Tabu ganhou não sei quantos prémios e poucas vezes foi falado n televisão ou no telejornal. Agora se a Soraia Chaves tem um novo filme aparece de certeza no fim do telejornal da TVI.
O Alice é excelente história, não só um excelente filme 🙂 Ainda tenho de ver o Como desenhar um Circulo perfeito! Mas o Tabu é singular, acho que é o melhor filme português dois últimos 10 ou 20 anos!

Alistair

Excelente análise! Uma correcção… Salvo erro, o realizador da Zona J é o Leonel Vieira.

Edgar Silvestre

que cabeça a minha! Obrigado

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