Análise – Mulan (2020)

Quem não se recorda dos clássicos filmes da era dos anos 90s da Walt Disney Animation, tais como Aladdin de 1992 ou Lion King de 1994? Foi realmente uma grande fase para a empresa, aliás, a meu ver foi mesmo a última, que manteve um nível de qualidade e criatividade constante, ao longo desses dez anos consecutivos. No limiar desta fase, surgiu outra obra, que apesar de não estar no mesmo pódio das anteriores, é igualmente apreciada e lembrada com nostalgia, por quem a viu na altura e a revê nos dias de hoje, refiro-me a Mulan de 1998.

Com uma história simples, uma protagonista feminina convincente, aliado aos momentos cómicos de Mushu, este filme é mencionado inúmeras vezes na cultura pop dos dias de hoje como um marco da empresa de Walt Disney. No entanto, nos últimos anos a mesma empresa tem dado primazia à remasterização destes clássicos, menosprezando assim cada vez mais a criação de produções totalmente originais. Neste sentido coisas, como Aladdin (2019), The Jungle Book (2016), Beauty And The Beast (2017), entre outros têm sido (re)lançados nos cinemas, sob uma versão live-action remasterizada.

Agora, chegou a vez de Mulan (2020) receber o mesmo tratamento, contudo, devido ao pretexto da pandemia global, a multinacional responsável pelo filme, apostou em lançá-lo diretamente no seu serviço de streaming próprio, o Disney Plus, ainda por um preço acrescido de mais trinta dólares, muito superior àquele que diz respeito à subscrição do próprio valor do serviço, o que é bastante excessivo, mas já lá iremos. Como nota pessoal, devo dizer que sou totalmente contra esta onda de live-actions, porque no fundo, trata-se de reciclar o conteúdo de outrora, como uma nova roupagem, sob o pretexto de reviver os clássicos para as novas gerações. No entanto, como muitos já se aperceberam, esta estratégia nada mais é do que uma tentativa de capitalizar em cima da nostalgia das pessoas, com o único intuito de faturar em grandes quantidades de forma rápida e fácil.

Posto isto de lado, Mulan (2020) entra logo com o pé esquerdo neste cenário, sendo não só uma versão que retira todo o charme do original, para lhe colocar em cima uma camada revestida de conteúdo politicamente correcto, e ainda em termos de qualidade, não chega de perto aos pés da obra de 1998. De forma a contextualizar até aqueles que desconhecem a história do original, eis uma breve síntese: Numa tentativa de vingar a morte do seu pai pelas mãos do Imperador da China (Jet Li), Bori Khan (Jason Scott Lee) e o seu exército emergem das sombras com o intuito de matar este último e tomar todo aquele reino para si.

Com receio do crescente poder de Khan e da iminente invasão, o Imperador ordena uma mobilização civil, a qual impunha que um homem de cada família se juntasse às forças do exército chinês, chefiado pelo Commander Tung (Donnie Yen). Contudo na família do patriarca, Hua Zhou (Tzi Ma), a situação não era a melhor, levando em conta que este último se encontrava bastante debilitado para se alistar, aliado ao facto de que a sua descendência era apenas composta por duas filhas, Mulan (Liu Yifei) e Hua Xiu (Xana Tang). Nesta situação, Mulan temendo que o seu pai fosse morrer violentamente em combate, decide secretamente assumir a persona masculina de Hua Jun, de modo a conseguir alistar-se no batalhão.

Com efeito, num mundo totalmente desconhecido para si, Mulan terá não só de esconder quem realmente é, mas sobretudo, embarcar numa jornada que a transformará numa guerreira capaz de honrar a sua família. Aqui, irá também deparar-se com um grupo de jovens recrutas, entre os quais, se encontra Chen Honghui (Yoson An), que será tanto um forte aliado, como um interesse amoroso para a jovem guerreira. Logo à partida, o filme inicia-se com uma cena, que para além de exagerada, vai totalmente contra a proposta da directora Niki Caro, pois segundo a mesma esta obra teria uma abordagem mais próxima da lenda chinesa original de Mulan.

A protagonista não é apenas uma personagem talentosa e habilidosa em combate, aqui retratam-na como uma espécie de super-heroína, nada contra, mas levando em consideração a tal proposta inicial, há claramente uma incoerência com aquilo que era prometido. Mulan chega a quebrar as leis da gravidade, sendo inclusive extremamente badass e pouquíssimas vezes derrotada ou abalada pelas forças inimigas. Para não falar que não há qualquer tipo de explicação plausível quanto a esta questão – Mulan é como é, e o espectador tem de engolir o filme todo, o facto da protagonista ser super poderosa, só porque convém à história.

Ainda no início, o primeiro acto é bastante sofrível, na medida em que pouco se empenha por mergulhar o espectador na história, utilizando constantemente a sobre-exposição do que está acontecer. De outra perspectiva, no decorrer de Mulan (2020) vemos que a equipa de produção investiu em abundância na ambientação e cenários, tentando trazer toda a substância da cultura chinesa para esta adaptação. Não fica somente por aí, pois desde os vestuários aos mais pequenos adereços, que Niki Caro apostou em referenciar a mitologia chinesa, e por incrível que pareça, nesse requisito tem uma dedicação mais cuidada do que o filme homólogo de 1998.

Mas esta construção positiva, fica apenas por aqui, pois rapidamente a superficialidade das personagens secundárias, excepcionalmente genéricas inundam o ecrã, com os típicos estereótipos tão badalados do meio norte-americano. Com exceção de Xian Lang (Gong Li), uma personagem criada a propósito deste filme, que é a única capaz de ter algum tipo de profundidade narrativa coerente e até complementar com a jornada da jovem Mulan. Pois no final das contas, acabam por se desenvolver uma e outra, tendo esta relação antagónica, um real impacto no desfecho do arco de personagem de cada uma, respectivamente.

Adicionalmente, o vilão interpretado por Scott Lee é outra das poucas adições positivas desta adaptação, na medida em que melhora, a outrora reduzida caracterização desta personagem vista no original. Khan tem direito a uma breve história de origem, com um arco de personagem próprio, ao contrário de servir apenas como um obstáculo no caminho de Mulan. No resto do filme, retira em grande medida tudo aquilo que fez Mulan (1998) ser tão marcante, nada do que acrescenta é de alguma forma favorável (tirando aquilo que já foi referido), muito pelo contrário, entrega uma experiência sem alma, e sem qualquer tipo de toque artístico próprio que saia em seu benefício.

E não me refiro apenas ao facto de Mushu não estar presente, pois os números musicais foram igualmente retirados, e ainda todo o humor cómico, tão particular do primeiro filme. Quanto às cenas de ação, estas até foram bem executadas, isto porque a cinematografia escolhida por Niki Caro, favorece as cenas de maior dimensão e com várias coisas acontecer em simultâneo no ecrã. Nestas cenas há uma tonalidade de “slow motion“, que a meu ver, serviu para disfarçar as inconsistências entre a transição dos cortes, tal como acontece nos filmes dos Transformers.

Portanto, é uma abordagem bastante inconsistente, não se decide se quer ser um filme realista, ou de fantasia. Para não falar que estes elementos de fantasia são descabidos numa temática real, o que vai totalmente contra a própria lenda chinesa. O que acaba também por me levar a um dos problemas centrais desta obra (senão o problema principal), de que é incoerente do início ao fim. Ora estamos a lidar com problemas e situações reais, ora estamos a ver Mulan a quebrar as leis da física, enquanto luta contra o exército inimigo. A meu ver, trata-se daquilo que o filme de Captain Marvel (2019) fez, de impôr uma agenda própria e uma ideologia politicamente correcta nesta película, de forma a atingir o agrado de um público-alvo muito específico.

Mulan (2020) é de longe das piores remasterizações feitas pela Disney, nos últimos tempos. Como já referi várias vezes nesta análise, a directora tentou desapegar-se do filme de 1998, da pior forma possível, retirando tudo aquilo que fez o original tão especial e icónico, para devolver uma experiência sem alma. E isto leva-me à conclusão, que tenho desde há muito tempo, do facto da atual gerência do grupo empresarial Disney não perceber o porquê dos seus filmes de outrora terem tanto sucesso até aos dias de hoje. Ou melhor, secalhar até o sabem, mas preferem apostar na via mais segura possível, tendo um retorno dez vezes maior.

E como é natural, em qualquer processo criativo, onde se dá prioridade às questões financeiras, face à inovação e ao aperfeiçoamento de algo, o resultado tem tudo para não agradar grande parte do público. Vale ressalvar que este filme tem ainda o tal preço adicional de trinta dólares, o que para aquilo que é devolvido, não justifica sequer um pouco o valor cobrado. É realmente ridículo, como a empresa responsável tem a ousadia de tomar tal decisão, por algo tão insuficiente como Mulan (2020). Este filme é sem dúvida, um novo ponto baixo dos remakes live-action da Disney e como tal está longe de ser uma experiência recomendável.

Positivo:

  • Inclusão da cultura chinesa;
  • Cinematografia das cenas de ação;
  • Vilão tem um desenvolvimento superior ao original;
  • Relação entre Mulan e Xian Lang;
  • Vestuário e adereços;
  • Tenta trazer algo novo…

Negativo:

  • …mas substitui o antigo com algo pior;
  • Personagens secundárias superficiais;
  • Primeiro acto;
  • Não se decide se quer ser uma abordagem realista ou fantasiosa;
  • Excluí toda a essência e charme que fez o original tão especial;
  • Não justifica o preço adicional de trinta dólares;
  • Niki Caro revela uma interpretação incoerente de como conta a  história;
  • Filme mergulhado numa agenda politicamente correcta;
  • Dos piores remakes live-actions da Disney;
  • Mulan é demasiado preponderante para aquele mundo, sem qualquer tipo de explicação;

João Luzio
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