Análise – Lincoln

Lincoln, o maior candidato à vitória na 85ª Gala dos Óscares da Academia de Hollywood.

É um filme a roçar a perfeição, Steven Spielberg demonstra porque é um dos melhores realizadores vivos, com uma extraordinária direcção de actores, um casting fabuloso (todos os actores querem trabalhar com Spielberg), enquadramentos e panorâmicas medidas ao nanómetro, e a melhor direcção de fotografia do ano. Toda a experiência, qualidade e criatividade de Spielberg consagrou em Lincoln.

Como se não fosse suficiente, Daniel Day-Lewis coloca em cena argumentos mais do que suficientes para convencer a Academia que é um dos melhores actores do mundo. DayLewis distingue-se pela transformação, pela sublime representação e pelos detalhes que só estão ao alcance dos grandes actores: Todos os gestos e palavras proferidas, são empreendidos com certeza absoluta.

Abraham Lincoln (Daniel Day-Lewis) é presidente dos Estados Unidos da América numa fase conturbada pela Guerra Civil, pela consolidação do modelo Democrático e os respectivos artigos Constitucionais, nomeadamente a noção de Homem Livre, racismo e escravatura. Felizmente a história não é limitada às manobras políticas e ao cenário democrático dos Estados Unidos, as decisões de Lincoln criam repercussões familiares e nas pessoas que rodeiam o presidente dos Estados Unidos.

A história é mais ou menos de domínio comum, no campo dos “spoilers axiomáticos” do recente artigo “SPOILER ALERT! Os indícios que podem arruinar a experiência cinematográfica”. As principais liberdades criativas correspondem às deixas cómicas, muito bem escritas e integradas no contexto da narrativa.

Dificilmente fugirá o Óscar a Spielberg. No que toca à produção e realização, tudo em Lincoln é perfeito. A verdade dos cenários é inquestionável, as cenas de batalha estão coreografados ao detalhe, o guarda-roupa só pode ser aquele e cada figurante tem um comportamento definido e único.

A direcção de fotografia é sublime. É a segunda vez que elogio a direcção de fotografia porque, mesmo tendo em conta que é uma vida a trabalhar em conjunto, entendo que Steven Spielberg está a dever um jantar onde Janusz Kaminski quiser. Os contrastes entre o cinzento e o azul enchem o ecrã, há a coragem de assumir luz “ a queimar” nos cenários com janelas, e o primeiro momento em que Lincoln aparece, o enquadramento e a iluminação ficam impressos na retina… seguramente servirá de exemplo de hoje em diante nas Escolas de Cinema.

A representação é fantástica (não seria de esperar outra coisa com Daniel Day-Lewis, Sally Field, David Strathairn, Joseph Gordon-Levitt, James Spader, Hal Holbrook, Tommy Lee Jones, John Hawkes e Jackie Earle Haley), mas duas características evidenciam-se.

Em primeiro lugar, se já não há adjectivos para caracterizar Daniel Day-Lewis, o que dizer de Sally Field? A actriz norte-americana, vencedora de dois Óscares da Academia, é a cúmplice ideal de cena para Daniel Day-Lewis, e os momentos em que os dois estão em cena, colocam a fasquia da representação e da emotividade na estratosfera.

A segunda característica é a colocação de actores a dialogar ao mesmo tempo. É normal as pessoas atropelarem-se quando falam, porque não vemos situações destas nos filmes? Porque implica enorme sincronização dos actores e alinhamento no texto para que o espectador não perca o fio à meada. Em Lincoln, inúmeras são as vezes em que há vários actores a disparar texto ao mesmo tempo, atropelando-se e com diferentes tons de voz, mas a clareza e a mensagem nunca ficam em xeque. Notável.

Lincoln está tão imaculado que falta aquele pozinho para tornar o filme mágico. Lincoln merece ser visto e revisto numa cadeira da Escola Superior de Cinema, mas dificilmente figurará na lista do “filme de uma vida”. Provavelmente pela realidade Europeia, ou porque as mensagens de coragem, de altruísmo e justiça não aplicam-se numa realidade que assume como dados adquiridos. A personagem de Lincoln é rica e tridimensional, mas padece de elementos que criem empatia e reflexão (aplicando Freud), que oscile do superego para o infra-ego. Se em Silver Linings PLaybook fui correr com Bradley Cooper, em Lincoln apenas” senti-me como um espectador privilegiado na Casa Branca.

 

Positivo

  • Direcção de Actores
  • Realização
  • Daniel Day-Lewis e Sally Field
  • Casting
  • Direcção de Fotografia
  • Produção
  • Caracterização de Lincoln

Negativo

  • Bofetada de Daniel Day-Lewis em Joseph Gordon-Levitt pouco credível
  • A personagem de Lincoln é tão cativante que abafa a história

 

Share

You may also like...

Subscribe
Notify of
guest
14 Comentários
Oldest
Newest Most Voted
Inline Feedbacks
View all comments
Guest

Tenho de ir ver o filme para poder ler o resto deste artigo a seguir ao Spoiler alert xD

Silver4000

Spoiler alert é o nome do artigo que o Edgar fez, a falar sobre spoilers em filmes, tais como a musica, o cenàrio e isso (e que està com hyperlink, por isso podes clicar e ler). Podes ler a anàlise à vontade 😛

Edgar Silvestre

exacto. a única maneira de fazer spoil seria caso o filme tivesse tomado alguma liberdade criativa

Ghost

Mais uma excelente análise, como já é costume.

Edgar Silvestre

obrigado Ghost. A próxima será o Warm Bodies

Ghost

Estou curioso em relação a esse filme. Espero que não saia um Twilight dali, mas não parece que seja isso que vá acontecer.

Edgar Silvestre

para mim vampiros são zombies que tratam da higiene pessoal… mas o warm bodies parece ser uma comédia ao estilo do shawn of the dead

Leonsuper

Eu pelo sim pelo não não li a review, como quero ver o filme e a do Django pareceu-me ter ligeiros spoilers, mas “Bofetada de Daniel Day-Lewis em Joseph Gordon-Levitt pouco credível”, dahell xD

Edgar Silvestre

podes ler a análise porque não tem nenhum spoiler. trust me. O único spoiler já o leste de facto. o Day-Lewis dá uma bofetada no Levitt ao de leve mas a edição sonora parece uma explosão. Mas posso ser eu

Leonsuper

Hm ok então, esta tarde vou ler. Achei curioso estar nos pontos negativos uma simples bofetada, e não me pareceu justificar. Mas no caso de parecer uma explosão, então se calhar até merece algum destaque, fiquei curioso xD (1ª vez que uma das coisas que me faz querer ver um filme é uma bofetada que parece uma explosão)

Edgar Silvestre

não é uma explosão, mas claramente o som está exagerado para o impacto. como já vi o filme duas vezes, reparei nos detalhes

Leonsuper

Eu percebi, uma explosão mas não tipo a sério. Ok, chega que começo a trocar-me. xD Mas porreiro. x)

Nirvanes

Pode ser uma explosão porque há um paralelismo com… a guerra civil? Não sei, só estou a dizer e parece-me uma razão credivel. E não duvidava que o spielber fizesse dessas brincadeiras (eu faria!!). Eu não notei nada de especial na bofetada.

Nirvanes

Hoje não me quero alongar muito.
Gostei muito do filme, o conteúdo histórico é bom. Mas o melhor de tudo é Daniel Day-Lewis que é tão bom actor que dói e o tratamento da luz que é espectacular.

error

Sigam-nos para todas as novidades!

YouTube
Instagram
14
0
Would love your thoughts, please comment.x
()
x