Análise – Licorice Pizza

Quando pensamos nos grandes realizadores de cinema no ativo, é impossível não lembrar de Paul Thomas Anderson (PTA). Com o seu estilo irreverente conquistou uma legião de fãs ao longo dos anos, através de obras como Boogie Nights (1997) e, o melhor, There Will Be Blood (2007). Portanto sempre que se aproxima a estreia de um dos seus filmes, não há como escapar das atenções, ainda para mais quando é um dos nomeados dos Oscars 2022, que infelizmente não conseguiu ter o reconhecimento merecido. Trata-se de Licorice Pizza (2021) a mais acessível e despretensiosa obra da filmografia do realizador.

Ao contrário das habituais narrativas em torno do estudo de personagens, que tanto caracterizam a sua marca autoral, como é o caso de Punch-Drunk Love (2002), aqui a atenção vai para um olhar privado na infância de PTA. Mais concretamente na Los Angeles dos anos 70, onde temos intrinsecamente uma história coming of age e uma comédia romântica como pendores temáticos. Licorice Pizza (2021) ficou marcado pela polémica em torno da diferença de idades entre as personagens, principal motivo que provocou algum desconforto e controvérsia, mas já lá iremos.

Foi preciso um pouco de pesquisa para encontrar o porquê do título do filme, mas PTA aponta que se refere a uma loja de discos na Califórnia, que lhe transporta mentalmente para a terra onde cresceu e se descobriu. É nestas imediações que toda a ação de Licorice Pizza (2021) ocorre. Onde Gary Valentine (Cooper Hoffman), num dia de fotografia na escola, se cruza com Alana Kane (Alana Haim) uma das fotógrafas assistentes. Ainda que um tenha apenas quinze anos e a outra vinte e cinco, forma-se uma amizade improvável, se bem que, espontânea e natural.

De início estranha-se, mas rapidamente se entranha. O público cria um vínculo entre os dois, e acompanhamos a partir daí, todas as aventuras e desventuras que irão marcar aquele período na vida de ambos. É realmente difícil ignorar as idades dos envolvidos, no entanto, a forma como a direção cultiva um tom de autodescoberta e amadurecimento pelo meio, tudo parece sincero e nada malicioso. A maneira como as personagens são construídas, sob o manto de um guião grandemente adaptado, demonstra que a idade pouco importa para definir aquilo que fazem e são.

Se Gary é imaturo e pensa como alguém da sua idade, as atitudes que assume ostentam o manto paternal, preocupando-se com os negócios da família e com o ‘mundo dos adultos’. Já Alana que embora se revele uma role model para Gary, ao longo do filme, esta está senão mais perdida na vida do que ele. Na busca de um rumo e sentido para tudo, saltando entre empregos, e desenvolvendo relações pouco estáveis. Esta fusão de personalidades reverte numa das químicas mais autênticas que tenho memória. É efetivamente o coração de Licorice Pizza (2021).

Reverte também em inúmeras situações inusitadas que vão desde a venda de camas de água a um famoso produtor de filmes da época, Jon Peters (Bradley Cooper) até ao envolvimento de Alana com o ator William Holden (Sean Penn). PTA foi buscar várias personalidades e eventos  para criar um espelho da sociedade daquele tempo, em particular, utilizando a crise petrolífera de 1973 como pano de fundo. Como referi não é tanto em replicar isto que está o foco do filme, como acontece em Once Upon A Time In Hollywood (2019), mas sim na substância do romance entre o duo protagonista. Em comparação, aproxima-se mais de um American Graffiti (1973).

Ainda que sejam dois atores desconhecidos, Alana Haim destaca-se e é a grande surpresa do filme. Desde os primeiros minutos em cena que capta as atenções e deixa uma impressão forte. Certamente que Licorice Pizza (2021) será a porta de entrada para uma carreira aparatosa que se adivinha para a protagonista. Quanto a Cooper Hoffman, este é filho do já falecido Philip Seymour Hoffman, um dos grandes atores da sua geração, que já fazia parte do núcleo duro de Paul Thomas Anderson. É até simbólico esta passagem de pai para filho, pois PTA poderá o ser responsável pelo lançar da carreira de Hoffman, uma espécie de homenagem ao seu antigo colaborador.

Por outro lado, tanto Bradley Cooper e Sean Penn, os veteranos, têm uma presença fugaz aqui, mas que deixa um rasto, conseguindo roubar os holofotes sempre que estão em cena. Particularmente, a linguagem cinematográfica usada, retrata uma Los Angeles idealizada, pura e colorida, quase saída de um sonho. Onde a nostalgia referente à juventude do realizador se acentua, quase como um voltar a casa por duas horas e pouco. Mesmo até quem não viveu nesta era, é convidado a mergulhar num tempo longínquo, que nos faz acreditar estar nos anos 70s.

A própria banda sonora foi escolhida a dedo, oscilando entre os clássicos incontornáveis como Life On Mars de David Bowie até algo menos conhecido como Tomorrow May Not Be Your Day de Taj Mahal. Isto à mistura com a cinematografia renomada de PTA resulta em mais uma experiência cinematográfica excecional e digna dos restantes trabalhos do autor. Contudo reside na falta de alguma disposição extra, que também marca a filmografia do próprio, que Licorice Pizza (2021) está em omissão.

Por exemplo, existe uma camada que introduz um ponto de desenvolvimento da personagem de Alana. No facto desta depender em vários momentos da atenção masculina, ao ponto de criar alguma rivalidade e tensão com Gary, quase como se fosse uma competição. Esta ideia tinha pernas para andar e dizer algo mais profundo e arrojado, como acontece em Magnolia (1999), mas fica por aí. Isto ocorre mais vezes ao longo do filme, onde entrega apenas o mínimo possível deixando grande parte dos segmentos abertos e com quase nenhum payoff.

De forma muito agridoce, Licorice Pizza (2021) sai da cerimónia dos Oscars sem qualquer premiação nas mãos. É um filme com uma premissa simples, que para muitos pode saber a pouco, apesar de ter tudo para ser um dos melhores lançamentos do ano passado.

Vale a pena ser visto é claro, não porque tenha qualquer toque de genialidade, mas antes pela maneira como retrata uma relação amorosa de forma nostálgica, cativante e inocente. É no final das contas, a autodescoberta de dois jovens à procura de um sentido na sua  vida nas Los Angeles dos anos 70, que qualquer um se conseguirá relacionar.

Positivo:

  • Viagem pessoal ao passado de Paul Thomas Anderson;
  • Química genuína entre Gary e Alana;
  • Banda sonora;
  • Composição das cenas;
  • Guião bem elaborado;
  • Cinematografia de excelência habitual do realizador;
  • Interpretação de Alana Haim;

Negativo:

  • Aprofunda superficialmente os temas que introduz;
  • Termina de forma abrupta;

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