Análise – Invincible T1

Adaptar comicbooks para o formato de filme ou série, tem sido uma tendência crescente nas últimas décadas, como tal, a indústria vai dando progressivamente mais espaço, para obras nicho chegarem a ver a luz do dia. Desta vez coube a tarefa à Amazon Prime Video, através de Invincible (2021) que é baseada numa série de comicbooks homólogas, criadas por Robert Kirkman em 2003, cuja longevidade se estendeu daí até mais de dez anos, acumulando cerca de 144 edições. A produção da série em si, ficou a cargo de Simon Racioppa, que fez questão de chamar um elenco de vozes de peso, cujos nomes incluem Steven Yeun e J. K. Simmons.

Em termos comparativos, a série baseia-se em grande medida no mesmo que está presente nas comicbooks, indo até à 13º edição, contudo, tendo também bastantes diferenças em relação à obra original. Posto isto de lado, devo dizer que entrei a ver Invincible (2021) completamente às cegas, sem mesmo conhecer a obra que dava mote à produção, como tal consegui ter uma perspectiva neutra, em comparação àquilo que um fã hardcore, que leu o material original, pode ter, a vê-la.

De início, um breve olhar pela história que Invincible (2021) pretende contar, acabamos por notar que a mesma toca em vários pontos semelhantes, que dão mote, a inúmeras histórias de superheróis que todos conhecemos. Contudo um olhar mais atento, e sobretudo com o desenrolar da narrativa, percebe o porquê de Invincible (2021) se diferenciar tanto da concorrência. Ora, aqui somos apresentados a Mark Grayson (Steven Yeun), um adolescente aparentemente normal, que lida com os mesmos problemas que todos jovens têm de lidar. Porém, o seu pai é nada mais, nada menos, do que Nolan Grayson, mais conhecido como, Omni-Man (J. K. Simmons), o superherói mais poderoso na Terra.

Há medida que Mark vai crescendo os seus poderes vão despertando, resultado do seu pai ser membro da raça Viltrumite, que, de acordo com o próprio Nolan, estão numa missão pioneira, com o intuito de espalhar paz e prosperidade ao redor do universo, ficando o planeta Terra na tutela deste último. Não obstante, o surgimento das primeiras manifestações dos poderes do seu filho, faz com que Nolan decida, por fim, treiná-lo, para que o mesmo possa aperfeiçoar as suas habilidades. Desta maneira, a série, ao longo dos oito episódios que a compõem, segue o jovem Mark, que se dá pelo nome,da sua persona de superherói, Invincible, simultaneamente que tem de lidar, à sua volta, com um mundo repleto de possíveis alianças, inimigos, tentações e traições.

De facto, como se pode ver, Invincible (2021) vai buscar várias ideias a outros contemporâneos do mesmo género, como Spiderman, na caracterização do protagonista, e a Superman, onde aqui as evidências são claras, na forma como Omni-Man é retratado, inclusive na sua, alegada, história de origem. Mas dirão alguns – então é isto que Invincible (2021) tem de tanto inovador? A chave é a forma como nos é contada a história. Apesar de aparentemente o mundo onde a série se insere, recair nos típicos moldes de um universo de “bem contra o mal“, há muito mais que se lhe diga, caso o espectador decida prestar mais atenção e ler nas entrelinhas.

Muitas vezes, estes lados não são tão claros, e a própria série faz um excelente trabalho em marcar uma posição diferenciadora, na forma como as suas personagens são e agem. Por exemplo, são vários os momentos, em que o espectador irá ser completamente surpreendido, pois a série faz questão de nos “puxar o tapete” múltiplas vezes, deitando por terra aquilo que dávamos como garantias do que é e do que irá acontecer. E essa tentativa de subversão do género é bastante positiva, num meio tão saturado como é o dos superheróis em pleno ano de 2021.

Aspecto que vai beber àquilo que outra série, também recente, faz muito bem, refiro-me a The Boys (2019), cujas comparações entre Homelander e outra personagem na série, são inevitáveis, mas não irei entrar mais a fundo, para não estragar algumas revelações. Por falar em surpresas, esse é outro trunfo de Invincible (2021). Aqui nada é por acaso, e tudo terá uma explicação bem amarrada e sólida aquando do clímax final, que por sinal, é das melhores cenas que já alguma vez vi, numa série animada. Já que teci comparações a The Boys (2019) vale referir que não me referia apenas às temáticas, mas sobretudo, senão mais aqui, pelo uso da violência e gore.

Há momentos de verdadeiros banhos de sangue e sucessivos actos de brutalidade, o que com certeza, está longe de ser uma produção recomendada para um público mais juvenil. E a série não esconde a sua natureza macabra, estando esta última, bem pautada logo no primeiro episódio. Por outro lado, há toda uma carga de metalinguagem, com a nossa realidade, que acaba por trazer à tona, na série, várias questões que tanto têm marcado a atualidade, relacionadas ao empoderamento feminino, entre outros temas, que estão mais presentes na esfera do mundo digital.

Tratando-se este de um mundo repleto de heróis, vilões e, sobretudo, daquilo que se encontra algures no meio da moralidade entre ambos, não podia faltar inúmeros personagens secundários, muito peculiares. Desde a equipa dos Guardians Of The Globe, sendo uma alusão à Justice League, até a Damien Darkblood (Clancy Brown), um demónio no papel de dectetive, em busca de respostas, para solucionar um crime macabro, ocorrido logo no início da série, cuja caracterização e visual, são uma clara referência a Hellboy. Por outro lado, a série não foca apenas em replicar ou homenagear outras obras, através das suas personagens.

Pois há bastante espaço para figuras completamente únicas, dos quais destaco, Cecil Stedman (Walton Goggins), director da uma agência secreta encarregue de monitorizar a atividade dos seres superpoderosos; Atom Eve (Gillian Jacobs), colega de Mark, cujos poderes assentam na manipulação de energia e cuja jornada pessoal a irá levar para um caminho de autodeterminação e empoderamento, o que vai ao encontro do elemento de metalinguagem que referi anteriormente. E ainda dos irmãos gémeos/clones Mauler (Kevin Richardson), indivíduos de pele azul, dotados de grande inteligência que irão ser um grande adversário no caminho do protagonista e de outras tantas personagens.

Como quero deixar a análise isenta de spoilers, de modo a que todos consigam aproveitar as sucessivas revelações e nuances da história, irei apenas referir que, não irão faltar momentos de deixar qualquer um de boca aberta, em especial o último episódio, que tanto tem sido discutido online por tudo onde é lugar. Seguidamente, quanto às questões técnicas, estas acabam tendencialmente por incidir mais na parte visual, sempre que se trata de alguma coisa animada. No meu entender,  devo dizer que embora aprecie o estilo visual escolhido de Invincible (2021), há certos momentos de continuidade, especialmente quando há muitas coisas a ocorrer simultaneamente em tela, onde a qualidade reduz substancialmente.

Mesmo assim, não é algo demasiado gritante, que chegue a ser incomodativo, é apenas uma situação que quando ocorre, é notório. Adicionalmente, a equipa de dobragem está de parabéns, não só conseguindo trazer para a tela, com mestria, aquilo que a sua personagem representa, como também elevar a fasquia de qualidade, com a presença de veteranos como J. K. Simmons, que encaixa na perfeição, enquanto Omni-Man. Assim como Sandra Oh, enquanto Debbie Grayson, mãe do protagonista,  que entrega uma prestação condizente e quase irreconhecível, levando em conta outros papéis seus..

A análise já vai longa, e por mim ficava a falar da série por mais uns quantos parágrafos (o que é um ótimo sinal), contudo, corria o risco de entrar no território de spoilers. Por isso, com aquilo que vos deixei aqui, são mais do que motivos suficientes para darem uma chance, bem merecida, à série que com certeza, ainda terá muito mais a dizer, com já duas temporadas confirmadas para estrear nos próximos anos.

Seja como for, sem dúvida que esta é uma das grandes séries do ano, sendo a meu ver, o grande ponto alto do mesmo. Invincible (2021) é, acima de tudo, uma lufada de ar fresco nas obras que abordam a temática de superheróis. Com um tom único, carregado de violência e gore, um argumento inteligente e repleto de metalinguagem, tornam Invincible (2021) uma experiência tão única e especial na Amazon Prime Video, que tem agora nas suas mãos um título de peso, que garantidamente, a longo prazo, será bastante rentável.

Positivo:

  • História;
  • Personagens secundárias;
  • Várias surpresas e plot-twists;
  • Temáticas e presença de metalinguagem;
  • Evolução de Mark ao longo da série;
  • Subversivo no género de superheróis;
  • Relação pai-filho, entre Mark e Nolan;
  • Transborda em violência e gore;
  • J. K. Simmons;
  • Clímax do último episódio;
  • Grande antecipação para o que virá a seguir;

Negativo:

  • Por vezes, a qualidade da animação não é a melhor;

João Luzio
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