Análise – Gods Will Fall

Com a enorme notoriedade que os jogos roguelike têm ganho no panorama de gaming atual, seria natural esperar uma difusão deste sub-género com outros semelhantes, como por exemplo, os dungeons crawlers. No entanto, a nova proposta produzida pela Clever Beans pretende misturar este último subgénero com uma ambientação e premissa perto dos moldes de Shadow Of The Colossus, com uma dificuldade bastante mais acentuada ao estilo Dark Souls e uma jogabilidade do tipo hack-and-slash.

Aqui, somos colocados no papel de um grupo de oito guerreiros, os quais pretendem insurgir-se contra as ações tiranas de um batalhão de deuses maquiavélicos. Este breve mote vai ao encontro do ponto central de Gods Will Fall, pois tal como o próprio nome indica, caberá ao jogador pôr fim ao reinado destes deuses. Sendo que a história é apenas contada através de uma cutscene inicial, acompanhada de breves narrações ocasionais feitas por uma voz misteriosa no decorrer da jornada.

Gods Will Fall, como dei a entender logo no início da análise, mistura vários elementos de jogabilidade de vários subgéneros, para entregar uma experiência própria e singular. Do ponto de vista de um jogo roguelike, apresenta um sistema onde apenas temos um total de oito vidas, no sentido, em que se um dos nossos guerreiros morrer em batalha, será uma consequência permanente. Tirando a exceção de quando o jogador consegue terminar a dungeon com sucesso com outra personagem e a morte provocada tenha sido por um dos inimigos da mesma, e não pelo boss nele contida.

Como se não bastasse esta curva de dificuldade acentuada, pois se perdermos os oito guerreiros é game over e temos de começar tudo de novo, Gods Will Fall eleva a fasquia com um sistema de aleatoriedade bastante vasto. Este sistema não apenas muda aleatoriamente os parâmetros de habilidades que cada guerreiro terá no começo de cada campanha, como também muda o nível de dificuldade de cada dungeon, podendo os inimigos ser mais ou menos fortes, ou o próprio boss ter mais ou menos barra de vida.

Mesmo que seja uma mecânica propositada para aumentar a dificuldade, e simultaneamente a longevidade deste título, considero esta decisão como o seu maior defeito. Na medida em que por ser algo tão aleatório em todos os aspectos, torna díficil haver o mínimo de planeamento entre cada campanha. Por exemplo, caso no início tenhamos personagens dotados de bastante stamina e ataques de pouco dano, mas os inimigos das dungeons forem sempre mais resistentes e/ou os desafios requererem personagens com maior vitalidade, tornar-se-á praticamente impossível completar esta campanha, sem que pelo meio seja sacrificado todo o grupo. Assim Gods Will Fall, para além pedir bastante dedicação do jogador para sobreviver aos inúmeros desafios, será também preciso uma boa dose de sorte, para que a campanha que nos seja escolhida, seja mais benevolente.

Quanto às dungeons propriamente ditas, estas são bastante simples, na medida em que apresentam de forma clara o percurso para se chegar do ponto A ao B, no entanto, este caminho será preenchido por vários inimigos e determinadas plataformas que poderão automaticamente fazer o jogador perder um guerreiro de forma fatal. Adicionalmente, também a própria probabilidade do cenário ter itens, como escudos ou conjurações, é muito reduzido, o que se traduziu na minha experiência, de completar toda a dungeon com o mesmo equipamento que entrei.

No final da dungeon encontrar-se-á um dos dez deuses, sendo que cada, como seria natural, terá um padrão de ataques e respectivas fraquezas, que irão tornar cada batalha bastante única. Além disso, a cada conjunto de guerreiros que nos seja atribuído no início, certos deles terão uma ligação com um destes deuses, podendo perder ou aumentar determinados parâmetros do seu status. O que aumenta assim, ligeiramente, a personalização de quem escolhemos levar para cada dungeon, sendo que cada um entra à vez, podendo este triunfar, ficar preso dentro da mesma, ou acabar morto.

Da perspectiva de um jogo hack-and-slash, cada guerreiro poderá ter um ataque fraco, forte e possibilidade de arremessar armas deixadas pelos inimigos derrotados. Sendo que poderão vir equipados, por natureza, com vários tipos de armas, entre elas, uma simples espada ou até uma lança de longo alcance. Sendo assim essencial, o jogador adaptar-se rapidamente ao estilo de combate de cada inimigo e boss, esquivando-se das suas investidas ou aproveitando-se de abertas no seu leque de ataques. Vale ainda ressalvar, que quanto mais inimigos derrotarmos dentro de uma dungeon, menor será a barra de vida que o boss terá, aquando do confronto final.

Como se trata de uma experiência com um ponto de vista isométrico, a Clever Beans aproveitou esta decisão, para enriquecer ambiente de cada dungeon, fazendo o jogador sentir-se minúsculo e bastante mais frágil na vastidão de cada área. O que acaba por reforçar a imersão do jogador com a proposta da história. Ainda na vertente do design, cada boss é efetivamente único, sendo que todas as partes que constituem o seu corpo são bem detalhadas e fortemente sugestivas, na forma de como poderemo-nos aproveitar destas últimas para triunfar na batalha.

No entanto fora destas dungeons, o reduzido mundo aberto que liga as diferentes dungeons do mapa serve apenas para propósito sem que haja muito mais para além disso para explorar e visitar. Ainda assim, e tal como apontam as mais recentes novidades sobre os próximos updates, esta decisão será corrigida, com mais coisas para interagir, assim como novas áreas para explorar. Mas levando em conta apenas aquilo que está na presente versão de Gods Will Fall é algo que fica muito aquém do resto do jogo. Por último a banda sonora e a restante sonoridade do jogo encaixa-se bem na mitologia do jogo, trazendo tanto composições de música mais dramáticas e inquietantes em momentos de maior tensão, como também faixas mais épicas e quase orquestrais em momentos de maior intensidade e adrenalina.

Resumidamente, Gods Will Fall demonstra como por vezes a amálgama de vários conceitos e ideias num só pacote pode não só resultar e replicar as partes de um todo, como também oferecer algo original. Apesar alguns dos seus constituintes não estarem totalmente polidos, e precisarem de ser refinados aquando de futuras atualizações, a presente versão tem a sua devida qualidade, enquanto jogo estilo roguelike e não só. Caso gostem e sejam veteranos de jogos com um nível de dificuldade ao nível de Dark Souls e de um bom desafio, Gods Will Fall será uma ótima adição na vossa galeria de jogos. Mas se apenas querem passar um bom momento e relaxar terão de procurar noutro lugar, pois este título não irá perdoar os mais novatos, nem os mais negligentes.

Positivo:

  • Fusão de vários subgéneros bem conseguida;
  • Banda sonora e sonoridade;
  • Ambientação expressiva;
  • Gameplay simples mas satisfatório;
  • Design das dungeons e dos bosses;

Negativo:

  • Curva de dificuldade acentuada;
  • Não recomendável para novatos do género;
  • Sistema de aleatoriedade desajustado;
  • Área de ligação de dungeons fica aquém do restante jogo;

João Luzio
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