Análise – Full Throttle Remastered

Durante a década de 1990, a LucasArts produziu vários clássicos do género point-and-click, tais como The Secret Of Monkey Island (1990) ou Grim Fandango (1998). Outro grande jogo dessa época foi Full Throttle (1995) que introduzia uma temática mais séria e caótica para o seu género, contudo, só após a aquisição por parte da Disney, da LucasArts em 2012, é que este título ganhou uma versão remastered em 2017.

Assim, Full Throttle Remastered pretende trazer todo o brilho e conteúdo do original para as consolas da nova geração, com melhorias ao nível gráfico e alterações em grande parte das funcionalidades. Sendo um jogo point-and-click de aventura, e tal como muitos jogos da sua época, o seu foco recaí, sobretudo, na história e nos puzzles.

Neste seguimento, a história decorre no ano de 2040, numa sociedade futurística, que produz, entre outras coisas, veículos hovercrafts. No entanto, a empresa Corley Motors recusa-se a largar as suas raízes, e permanece como a única fabricante de veículos motorizados de duas rodas. Assim, ao redor da sua fábrica, a população vive submersa numa distopia, digna de um filme de Mad Max, onde reinam várias gangues e facções de motoqueiros. Entre elas existe a Polecats, liderada por Ben, o protagonista de Full Throttle.

Porém, incapaz de aceitar a decisão do presidente da Corley Motors de manter esta linha de produção, o seu vice-presidente Adrian Ripburger, tem os seus próprios planos para tomar a empresa para si, e alterar a produção para se vender minivans. Desta forma cabe a Ben, que ao ter ficado inconsciente no início do jogo, travar Ripburger de extinguir a sua sociedade de motoqueiros, e proteger Malcom Corley, assim como desvendar o passado misterioso desta última personagem.

No que diz respeito ao gameplay, este jogo sendo um point-and-click, funciona muito à base da escolha das decisões e interações com NPC’s  e na resolução de puzzles, clicando-se para isso no cenário e respectivos objetivos interactivos. Ben pode examinar, agarrar e pontapear tudo aquilo que é possível de interagir num determinado local, sendo que a opção de examinar, resulta quase sempre, num comentário por parte da personagem, com um tom irónico e muito próprio.

Há ainda outra vertente do gameplay, que é usada pontualmente, quando conduzimos a nossa mota pelo cenário. Nestes momentos pode suceder-se um confronto inesperado e aleatório com outras gangues, nos quais teremos de utilizar o itens ao nosso dispor contra os inimigos, de forma a derrubá-los das suas motas. Por muito inovativo que este sistema seja na teoria, o caso muda de figura na prática, uma vez que os controlos respondem pessimamente às nossas ordens, para além de que este é um tipo de gameplay já datado. O qual já tinha sido apontado como uma falha no original e vê-lo novamente nesta edição remasterizada é um ponto negativo, contra a experiência de Full Throttle.

Sendo uma versão remaster, não há com fugir aos aspectos gráficos, e neste sentido, a equipa da Double Fine fez um trabalho de mestria em manter o tom ao estilo cartoon original, mas dando-lhe uma nova roupagem e otimização, apropriada à nova geração de consolas. O trabalho de vozes é de extrema qualidade, contando com alguns nomes conceituados, como Mark Hamill, o eterno Luke Skywalker, que dá voz ao vilão do jogo, entre outros atores.

Outros aspecto relevante que tenho de mencionar refere-se aos puzzles, e como já é hábito dos jogos da LucasArts, estes têm muitas vezes soluções e formas de os desvendar inusitadas. O que se traduziu em algumas vezes, não ter outra opção, senão recorrer a guias para me orientar no que fazer e como o fazer. Muitos puzzles beiram o nível do abstrato, e arrisco dizer que muito provavelmente terão, obrigatoriamente, de recorrer a estes guias para os solucionar, ou então, só tentando tudo e mais alguma coisa, vezes e vezes sem conta. Mesmo na presença deste entrave, a minha vontade de concluir a história e respectiva ligação com as personagens, eram os motivos que me faziam persistir nestes momentos de maior confusão e incerteza.

A longevidade de Full Throttle fica muito aquém, até daquilo que se espera de point-and-click da LucasArts. Muitas das side-quests apesar de acrescentarem vida ao mundo e expandirem a personalidade de determinadas personagens, chegam a ser, em última análise, desnecessárias. Na medida em que este tempo poderia ter sido otimizado para dar lugar a momentos mais impactantes. Não obstante, é também nestes momentos que o brilho do jogo sobressaí drasticamente, graças ao humor e carisma sádico de Ben, que acaba por acontecer nestas ocasiões.

Em suma, Full Throttle Remastered é um jogo extremamente recomendável aos fãs de jogos point-and-click ou de jogos movidos pela história, como os da Telltale. Acima de tudo introduz um dos grandes nomes deste género para as novas gerações que perderam a chance de jogá-lo. Por outro lado, a duração da sua experiência pode comprometer a balanço do benefício-custo, na medida em se vale a pena comprá-lo pelo preço pedido, no entanto, aquando das promoções da Steam, Full Throttle Remastered fica a um preço bastante acessível e convidativo.

Positivo:

  • História;
  • Melhorias gráficas;
  • Trabalho de vozes, em especial a de Mark Hamill;
  • Universo envolvente com personagens marcantes;
  • Gameplay entretém…

Negativo:

  • …contudo certas secções encontram-se datadas para os dias de hoje;
  • Alguns problemas do original mantiveram-se;
  • Necessidade de recorrer a um guia para se ultrapassar certos puzzles;
  • Longevidade poderia ter sido estendida;

 

João Luzio
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