Análise – Free Guy

Videojogos e cinema não tem sido um casamento muito prospero, tanto de um lado, com tie-in-games, como de outro, com adaptações cinematográficas. No entanto, neste último, casos como Tomb Raider (2018) ou Sonic The Hedgehog (2020) não desiludiram, muito pelo contrário, mostraram que há esperança ao final do túnel. Por isso, Free Guy (2021), dirigido por Shawn Levy (conhecido por Night At The Museum), chega no embalo da boa conotação que estas adaptações ganharam recentemente.

Esta produção não se baseia, necessariamente, num jogo em específico, embora, haja semelhanças claras com títulos das franquias de Grand Theft Auto e Saints Row. Na prática, Free Guy (2021) é, na verdade, um filme que abraça todo o lore ligado ao mundo gaming, especialmente o online, e dos seus derivados, como o streaming ou a própria produção de um jogo.

Nesta questão, não desilude, consegue agradar tanto a quem está envolvido neste ramo, e até quem está de fora consegue entender as nuances de como o universo funciona. Mesmo que paralelamente, outra história acerca do desenvolvimento do jogo Free City, se vá construindo ao mesmo tempo da ação do mundo virtual. Mas vamos por partes.

O protagonista, Guy (Ryan Reynolds) é um NPC (Personagem não jogável), no dito jogo online, ambientado numa típica cidade moderna, repleta de missões, veículos e armas para utilizar. Tal como ele, todos os restantes NPC’s vivem alheios à ideia de que fazem parte de um jogo, que são apenas fruto de um algoritmo padronizado.

Até que certa ocasião, fruto do encontro com o avatar, Molotov Girl, pertencente à jogadora Millie Rusk (Jodie Corner), o protagonista desperta da sua programação, a partir do uso de uns óculos escuros, ao estilo They Live (1988), que as personagens jogáveis utilizam. A partir daqui, a ação é sequenciada em bola de neve, onde vemos o impacto que Guy pode ter naquele mundo e qual o seu real papel nele.

Dado aquilo que mencionei previamente, fora do mundo digital, o casal composto por Walter McKeys (Joe Keery) e Millie Rusk vêem-se numa situação complicada. Pois, Antwan (Taika Waititi), o alegado criador de Free City, copiou o código fonte deste jogo, de outro chamado Life Itself, de autoria do casal. Com isto mente, Walter que desempenha funções na empresa de Antwan e Millie uma jogadora assídua do título em causa, almejam ambos recuperar o que é seu por direito e expor o caso ao mundo.

Convenientemente, a anomalia do despertar de Guy vem em em boa hora, pois o evento foi crucial, enquanto brecha dentro de Free City, para o casal recuperar o seu domínio. O processo de ‘acordar da Matrix‘ por parte de Blue Shirt Guy, como as personagens que com ele interagem o irão apelidar, dá-se muito nos mesmos moldes, daquilo que Jim Carrey em The Truman Show (1998) passou. Primeiro estranha-se, depois entranha-se. Situação esta, que resulta numa sequência de segmentos bem característicos de um humor, que só Ryan Reynolds pode proporcionar.

Mesmo em que alguns momentos, por ser levado ao limite, revela uma certa inconsistência com as situações apresentadas em paralelo. Por outras palavras, destoa imenso, não havendo propriamente um equilíbrio entre a carga dramática presente, e uma injeção doseada, na mesma proporção, com o alívio cómico.

Devido ao ritmo acelerado de Free Guy, este problema pode passar despercebido, no entanto, torna-se mais notável no decorrer do segundo ato em diante. Visto que devido ao peso do carisma de Ryan Reynolds, o restante elenco acaba ofuscado, o qual poderia muito bem ter tido uma maior importância na história, e consequentemente, maior desenvolvimento. Não criando por isso, grande vínculo no espectador, sendo personagens rapidamente esquecíveis.

De entre eles, fez-me mais confusão a participação de Waititi, que interpreta o típico chefe ego maníaco. Esperava ser cativado por este antagonista, mas acabou por ser deixado nos moldes habituais, daquilo que se espera de um vilão, de um filme, de domingo à tarde, mesmo que até tenha a sua piada.

Para lá desta componente emocional, há muito espaço, como seria de esperar, para várias referências ao universo dos videojogos. Quem é um jogador assíduo, em especial de experiências online com outros jogadores, poderá até se rever em algumas situações. Shawn Levy criou uma apresentação fidedigna àquilo que o mundo gaming é e representa atualmente, havendo até uma certa crítica implícita lá no meio, mas fico-me por aqui.

A própria parte que diz respeito à equipa que desenvolve Free City está bem retratada, sendo alguns dos estereótipos, são mais do que condizentes com a realidade de muitas empresas, onde a liberdade criativa está sujeita a um escrutínio profundo por parte de quem pertence à chefia do projeto. Estas duas narrativas fluem muito bem, graças ao trabalho de realização, que consegue colocar um peso e medida adequados na globalidade da experiência.

Sendo que perto do segundo ato, as duas intersectam-se e trocam vários pontos entre si, ao nível de uma construção mútua das personagens. Em especial entre Guy e Millie, que desenvolvem uma relação amorosa, com direito a um momento bastante catártico no final do filme. Isto para dizer que, quer sejam fãs de videojogos ou fãs de cinema, ou até ambos, cada um conseguirá retirar algo de positivo de Free Guy. Ao nível técnico nada de pertinente a apontar, tirando talvez a escolha inusitada mas condizente, da banda sonora.

Aquilo que poderia ter sido mais um prego no caixão, no que diz respeito ao casamento entre videojogos e cinema, acaba por se transformar numa surpresa agradável. Embora Ryan Reynolds seja uma força pujante na generalidade do filme, tudo o resto captará o espectador, mergulhando-o num mundo virtual vivo e carregado de explosões e adrenalina. Está longe de ser o suprassumo da relação entre estes dois ramos distintos, mas é um que vale a pena ver, e dar uma oportunidade. Os amantes de videojogos já precisavam de algo assim nas grandes telas do cinema.

Positivo:

  • Premissa e apresentação;
  • Experiência divertida que entretém;
  • Abordagem adequada ao mundo do gaming;
  • Referências pertinentes;
  • Ryan Reynolds rouba a cena, sempre que está em tela…;

Negativo:

  • Mas acaba por ofuscar as restantes personagens;
  • Personagem de Taika Waititi com desenvolvimento escasso;
  • Humor, por vezes, pouco condizente com as situações apresentadas;

João Luzio
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