Análise – Evil Dead

Recuamos até 1981. Um jovem realizador, com uma imaginação prodigiosa, lançava um dos maiores marcos do cinema contemporâneo. The Evil Dead tornar-se-ia uma referência obrigatória do horror, o alicerce do terror visual, cimentando a carreira de Sam Raimi (que viria mais tarde a realizar a trilogia do Homem-Aranha e Oz: The Great and Powerful). Enquanto Alfred Hitchcock aterrorizava plateias com dramas densos e estrangulamentos psicológicos, Sam Raimi perturbou com imagens desconcertantes, mórbidas, aplicando alusões ao folclore medieval e ao macabro.

A década de 70 ficou marcada por filmes como Halloween e Massacre no Texas, mas The Evil Dead dava um passo em frente no género, com o Mal como antagonista e o herói (paradoxalmente) a sujar as mãos para sobreviver.

Evidentemente que é motivo de galhofa rever The Evil Dead e Evil Dead II em pleno século XXI, apesar da equipa de caracterização ter empregado o melhor que conseguia, à luz da recente experiencia cinematográficas as cenas over the top e os adereços utilizados estão mais perto do burlesco do que do verosímil/assustador. Não obstante, The Evil Dead contribuiu de forma decisiva para um dos géneros mais populares do cinema.

The Evil Dead (1981) e Evil Dead II (1987) circulavam na mesma premissa: uma casa isolada no bosque, íntima com entidades demoníacas e rituais diabólicos, palco do terror para quem a visitasse. Nos dois filmes, Ashley ‘Ash’ J. Williams (interpretado por Bruce Campbell) assumiu o protagonismo, deixando para a posteridade cenas inesquecíveis como a mão possuída, o espelho que ganha vida, o demónio no alçapão e a extraordinária conclusão do segundo filme. Groovy! Altamente recomendado.

Devido à popularidade da série, e já que Hollywood “está numa” de investir em remakes, não foi de estranhar o anúncio do remake de The Evil Dead, numa versão contemporânea e com um texto moderno. Fede Alvarez foi o escolhido para liderar o projecto e Sam Raimi acompanhou o processo de produção. Uma grande responsabilidade, tendo em conta que os devotos fãs são uma “raça” complicada e o grau de dificuldade, em reconstruir de novo a matriz que popularizou o género, é elevado.

Evil Dead (2013) conta a história de um grupo de amigos que decide passar uns dias numa casa perdida no bosque. Após vinte minutos de exposição para desenvolver as personagens – demasiado longa para quem está no cinema apenas pela carnificina – a acção arranca. Um espírito maligno está entranhado na casa e a leitura de um livro proibido permite a libertação do mal. Mia (interpretada por Jane Levy) é possuída e lança o caos. No princípio o grupo não sabe como lidar com os acontecimentos, mas depois começam a cair “que nem tordos”.

Um reparo bastante sério. É compreensível que o filme tenha a intenção de desenvolver os personagens, para que possamos sentir compaixão ou alívio quando morrem, mas Evil Dead (2013) cai na asneirada de apresentar personagens genéricas, drasticamente estereotipadas: Mia é a viciada em drogas (todos nós sabemos que as drogas são más, agora, porque é que todos os filmes de horror têm um toxicodependente? Ex: Freddy vs JasonSawGhost of MarsHansel & Gretel Get Baked); o céptico surge na personagem de David (interpretado por Shiloh Fernandez); o nerd na personagem de Eric (interpretado por Lou Taylor Pucci); a rufia na personagem de Olivia (interpretada por Jessica Lucas); e a vulnerável na personagem de Natalie (interpretada por Elizabeth Blackmore). Foi aí que eu percebi que ia ficar com pesadelos, horrorizado com o péssimo argumento e os sucessivos clichés.

Felizmente Evil Dead (2013) consegue sobreviver aos lugares comuns e surpreender q.b.. A história evolui de forma favorável, com a inteligência de escolher o protagonista certo e proporcionar o clímax ideal. Os innuendos aos filmes originais resultam e cria-se expectativa em relação ao desfecho.

No capítulo da representação, Jane Levy borra a pintura do trabalho desenvolvido quando está “possuída”, a actriz não é ameaçadora e as linhas que despeja soam a ridículo. Shiloh Fernandez está a léguas do legado de Bruce Campbell, o jovem actor é incapaz de incutir o desejo de que haja sobreviventes.

A realização de Fede Alvarez oscila entre o excelente e o constrangedor, natural para um realizador promissor com pouca experiência. Existem enquadramentos fantásticos, que denotam inspiração nas bandas-desenhadas, e coreografias visuais estupendas. Mérito também – tendo em conta que os grandes planos num filme de terror raramente resultam (desvendam as imperfeições da maquilhagem e as dificuldades dos actores em transmitir a quantidade exacta de medo) – pela aplicação de grandes planos em movimento, que funcionam de forma orgânica e intimista (ex: cena do lago). O drama acontece nos zooms… É necessário uma grande perícia para aplicar um movimento de lente tão ostensivo, e em Evil Dead os zooms são terrivelmente desconcentrantes.

Avaliar um filme de terror é terreno escorregadio, a experiência varia de espectador para espectador. Evil Dead (2013) é capaz de impressionar os mais sensíveis, afinal de contas é visualmente poderoso e violento, mas se recuarmos a Pesadelo em Elm Street, a sensação de perigo ultrapassa os personagens e estende-se aos espectadores, e Hostel, que extrapola um cenário inspirado na vulnerabilidade de quem está longe de casa. Evil Dead fica órfão do pequeno ecossistema onde se instala, a não ser que a vossa casa tenha um alçapão, rapidamente o filme fica no esquecimento. O remake de Evil Dead não tem o mesmo impacto do original (e já lá vão 30 anos), mas também não era isso o exigido. A missão de Fede Alvarez seria entreter e valorizar os aspectos que engrandeciam a saga Evil Dead. A adaptação ficou efectivamente moderna, afastando-se da ingenuidade do original, privilegiando o gore, mas aquém da genética de Evil Dead.

Há um dizer em Hollywood que defende a dinâmica de um filme como um cardiógrafo, com altos e baixos, todavia a qualidade deve manter-se sempre por cima. Esta característica não se encontra no material adaptado. Não há elementos que transcendam a mediocridade, o filme distrai-se em chocar, ignorando o fundamental: narrar uma história.

Positivo

  • Alguns enquadramentos
  • Cinemáticas fortes
  • Direcção de fotografia
  • Orientação do protagonista
  • Innuendos dos filmes originais

 

Negativo

  • Desenvolvimento dos personagens
  • Os clichés inspirados nos maus filmes de terror
  • A representação de Jane Levy é estridente
  • Ausência de momentos icónicos

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Alistair

Então, sempre, analisaste o Evil Dead. Não é o meu género de filme. Mas gostava de saber: já viste o Trance? Se sim, o que achaste?

Edgar Silvestre

viva. escolhi o Evil Dead porque tinha a intenção de fazer um video a comparar o original e a adaptação. mas a adptação não teve sumo para elaborar um vídeo. Devo ver o Trance está semana, não sei se terá análise, seja como for, deixo a minha opinião

Rui Queirós

eu já vi o transe, é bom, mas, não elevem demasiado as expetativas

André Vieira

O Transe é bastante bom até. É um pouco previsível e anda sempre em volta do mesmo mas consegue surpreender pela positiva. É um daqueles filmes que gostava de ter na prateleira.

Alistair

Então, Edgar! Sempre viste o Trance? O que achaste?

Edgar Silvestre

não consegui. quando tentei ver o filme já não estava disponível. uma pena.

mart88

Eu vi no sabado, gostei principalmente a violencia grafica mas não como filme de terror.
Ao contrario de ti gostei da Jane Levy (não é 5 estrelas mas das personagens achei a melhor) achando é que a direcção falhou em criar o ambiente de perigo e sem fuga possivel que caracterizou os originais (os dois primeiros).
Nos originais a propria floresta e a casa são os inimigos e os cenários mais escuros e pesados fazem aumentar a tensão,
Neste há muita luz, tentam explicar muita coisa demorando a arrancar sem nunca sentirmos qualquer ligação as personagens (principalmente o principal)
Para mim o ponto mais positivo é não terem se resumido somente em fazer um remake puro mas antes rescreveram a historia tendo assim algumas surpresas.
Tambem gostei de terem colocado o carro original no filme 😀

Edgar Silvestre

Há vários elementos aplicados do original, inclusive o lago, que aparece no intro do primeiro filme e depois não é aproveitado. Em relação à Jane Levy, gostei dela como heroina e menos como demonio, ao contrário da Olivia que está FANTÁSTICA quando possuída, de longe a cena mais arrepiante. Do original gosto da casa como personagem e do bosque como ameaça (como tu), mas tendo em conta a visão mais verosimil da coisa, aceita-se a decisão do Fede Alvarez. A questão/problema é: se um filme tem de sobreviver com 5 pessoas numa casa, tens de garantir que os personagens são interessantes. Não são.

Guilhathorn

Não honrou o original, aliás foi um pouco “crappy” na minha opinião…

Edgar Silvestre

no original há surpresas atrás de surpresas, e cada uma melhor do que a outra.tirando a mudança de protagonista, a adaptação não surpreende

Guilhathorn

Lá está, para mim acho que não valeu muito a pena ver, podia ter escolhido outro…

Tiago Ferreira

Provavelmente nem vou ver isto ao cinema. Mas também duvido que veja em casa, pois eu não sou fã deste estilo de filmes, ainda mais os actuais que não têm ponta que se pegue.
Ainda tenho de ver o antigo e já me disseram que é bom, pois não é simplesmente terror mas também critica a humanidade.
Isto lembra-me o The Thing (remake) que também não tenho intenção de ver mas o antigo é um dos meus favoritos do John Carpenter.

Boa análise Edgar!

Edgar Silvestre

tens de ver Tiago, o segundo Evil Dead é fabuloso. Está disponível no Youtube, basta pesquisares em Evil Dead 2 Full Movie. O mesmo se aplica ao primeiro e terceiro

Tiago Ferreira

Já vi o primeiro hoje…a caminho do segundo!

Rui Queirós

eu adorei o filme

acho que o filme está recheado de surpresas e twists e tendo em conta o panorama do cinema de terror atual, foi um dos melhores filmes do género que vi nos últimos tempos

vi-o no domingo à 1:15 xd estava sozinho na sala

não sei se é permitido, senão forem editem por favor, fica aqui a minha opinião ao filme:

http://www.naviv.net/2013/05/opiniao-noite-dos-mortos-vivos-evil-dead.html

Edgar Silvestre

olá Rui. É sempre permitido. O PN é uma janela de debate e troca de opiniões. Admito que ver o Evil Dead de madrugada no cienma e sozinho deve ser assustador. o meu problema com o filme recai no subdesenvolvimento das personagens. se tivessem dedicado mais tempo a projectá-las teria sido muito melhor e a sensação de angustia duplicava

Rui Queirós

percebo o que queres dizer.. não sei se calhar gostei assim porque já há muito tempo, talvez desde o Saw que não via um filme de terror que me tivesse impressionado tanto xD

André Vieira

Muito boa a análise como sempre. Os meus amigos bem me tentaram “raptar” para ir ver este filme mas decidi ir ver o “Transe” e não me arrependi. Não sou a pessoa mais apropriada para ir ver este tipo de filmes no cinema e prefiro ver Terror/Gore em casa porque depois posso-me mijar todo que ninguém vê xD. Adorei os Evil Dead do Raimi, especialmente o segundo que é a galhofa completa como referes. Só uma pergunta: o Bruce Campbell tem algum cameo no filme? Cumprimentos.

mart88

não

Edgar Silvestre

há um cameo da Cheryl do primeiro filme

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