Análise – Encanto

A cada ano que passa, o Walt Disney Studios lança as suas habituais produções em animação, sendo que este ano já tivemos uma, Raya And The Last Dragon (2021) e agora presenteia-nos com outra, Encanto (2021). Trata-se do 60º filme do estúdio, realizado por Byron Howard (conhecido por Tangled (2010) e Zootopia (2016)), juntamente com Jared Bush (argumentista de Moana (2016)). Soma-se ainda a figura ilustre de Lin-Manuel Miranda (ator e produtor aclamado do mundo da Broadway), que já colaborou com a Disney, através da adaptação do musical Hamilton (2020) para o Disney Plus.

Uma das coisas que salta logo à vista é que Encanto (2021) é um verdadeiro musical ala Broadway que tanto pautou as produções animadas da Disney nos saudosos anos 90s. Todo esse estilo e magia volta aqui a ser alvo de estudo, onde os números musicais dão vida ao filme e a banda sonora rouba o protagonismo. Muito disto se deve a Lin-Manuel Miranda, a quem ficou a cargo a composição das músicas, embora seja o próprio elenco de dobradores quem as canta durante o filme, tal como era hábito.

Esta longa-metragem é também uma homenagem à cultura colombiana, presente nos cenários, no vestuário e na própria caracterização das personagens. Começando pela família Madrigal que é quem compõe o núcleo de personagens mais importantes, sendo Mirabel a protagonista, e quem irá passar pelo maior crescimento ao longo do filme. A ação passa-se toda numa modesta cidade no interior da Colômbia, onde a tal família Madrigal habita, rodeada por outros aldeãos que se foram instalando depois da sua chegada.

Só que não se trata de uma família normal, pois devido a um trágico incidente, a matriarca Abuela Alma recebe uma vela misteriosa, que muda por completo, o destino da descendência Madrigal. Daqui para a frente, tanto filhos, como netos, recebem um dom especial, que os torna únicos entre si, sendo esse poder usado para o bem maior daquela pequena civilização. Apenas Mirabel, por alguma razão desconhecida, é a única imune a esta bênção mágica, não tendo qualquer tipo de habilidade. Isto irá levá-la a embarcar numa aventura de autodescoberta, ao mesmo tempo que desvenda as nuances por detrás do passado da sua família, associado a uma premonição fatídica.

Cada integrante da família tem um papel importante a desempenhar na narrativa, pois por detrás da imagem perfeita e impecável, escondem-se revelações e, acima de tudo, rivalidades e emoções reprimidas. Encanto (2021) foca no essencial ao apenas dar ênfase na ligação entre os membros Madrigal. Destaca-se Pepa, cujo estado de espírito consegue influenciar o estado do tempo na mesma medida; Luisa que foi dotada de uma força sobre-humana e Bruno, o tio de Mirabel, que tem visões do futuro, sendo a figura mais misteriosa dos demais.

Incluindo os outros elementos restantes, cada um tem espaço para brilhar, quer via alívio cómico, quer com uma música tema dedicada. O coração do filme é mesmo a sinergia entre cada um deles, e na forma como se inserem no todo da família. Mas como referi, é através de Mirabel que observamos, em simultâneo, o descarrilar da linhagem Madrigal. A propósito, a frequência dos números musicais faz com que grande parte daquilo que é transmitido ao espectador seja feito através da banda sonora e não tanto por diálogos de exposição.

Destacam-se faixas como «We Don’t Talk About Bruno» ou «Waiting On A Miracle». Não sendo eu o maior fã de musicais, como já dei a entender em Hamilton (2020), para todos os efeitos, gostei bastante de tudo aquilo que aqui foi feito, talvez fruto de não ir com quaisquer expectativas antes do visionamento, mas a verdade é que aproveitei a experiência de Encanto (2021) da melhor forma possível, onde o tempo passou a voar, e quando dei por mim, o filme tinha acabado.

A única coisa que me incomodou, está relacionada com os alívios cómicos do filme. Ao não existir propriamente uma personagem ou duas, a quem se consiga apontar diretamente o dedo neste aspeto, a realização optou por dividir o humor um pouco por todas as personagens, umas mais que outras. Na execução, isto não resulta da melhor forma, tendo o impacto completamente oposto. Quebram momentos importantes, sendo destoantes com a história. O que a meu ver, teria até sido mais ousado, caso tivessem optado por uma abordagem focada só na carga dramática, deixando o humor e as piadas de lado.

Seja como for, ainda no que diz respeito à realização fiquei satisfeito, que a profundidade do storytelling fosse buscar inspiração aos moldes da Pixar. Já a qualidade da animação consegue ter um impacto certeiro, muito devido à preocupação e cuidado com os detalhes, desde a expressão facial das personagens ao cenários colombianos vivos e coloridos . Consequência da evolução gradual que se tem verificado nos últimos anos ao nível da animação, na própria Disney.

A movimentação das personagens está igualmente bem conseguida, não apenas por não causar aquela estranheza proveniente da transição de cena a cena, mas por ser tudo tão natural, para aquilo que se entende de algo feito através da computação animada. Destaco por fim, também, a pequena e tradicional curta metragem que antecede o filme, de nome Far From The Tree, que transmite uma forte lição de vida.

Para quem já acompanha de perto musicais, e igualmente filmes de animação, Encanto (2021) é um prato cheio para os fãs. Mesmo com tantas parecenças com o reportório passado da Disney, a verdade é que este novo filme é ímpar. Quem espera o habitual vilão ou o expectável par romântico poderá ficar surpreendido, muito pelas escolhas criativas tomadas, principalmente a partir da metade do filme. Encanto (2021) é, por isso, uma verdadeira lufada de arco fresco, uma espécie de leve reinvenção, que irá captar a atenção dos mais novos, mas também do público mais velho já nostálgico por mais.

Positivo:

  • Desenvolvimento da família Madrigal;
  • Números musicais e banda sonora são a melhor parte do filme;
  • Personagens interessantes e com motivações convincentes;
  • Contribuição de Lin-Manuel Miranda;
  • É uma experiência diferente daquilo que a Disney tem feito nos últimos anos;
  • Representação cultural da Colômbia;
  • Regresso à fórmula Broadway,
  • Final emotivo;

Negativo:

  • Humor e piadas não são inseridas da melhor forma;

João Luzio
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