Análise – Cruella

Como já se tornou hábito, a Walt Disney decide lançar mais um filme relacionado a uma das suas franquias clássicas e muito amadas pelo público. Desta vez, calhou à vilã de 101 Dalmatians (1961), que mesmo já tendo uma adaptação live-action, através de 101 Dalmatians (1996), com Glenn Close no papel principal, recebe agora um filme totalmente dedicado a si, e à sua história de origem, que serve também como prequela para o original. Já há muito tempo que se falava deste filme (por volta de 2016), contudo, só apenas em 2021 é que conseguiu ver a luz do dia, sendo também uma estreia simultânea no cinema e no Disney Plus.

Como não estava muito interessado, acabei por vê-lo sem saber quase nada, para além do facto de que Emma Stone estaria responsável pelo papel da infame Cruella De Vil. Talvez seja por isso, que consegui gostar em grande medida, a visão que Graig Gillespie, o director, tinha em mente quando idealizou o filme que aqui temos. Seja como for, e a propósito de Emma Stone, devo dizer desde já que, a sua atuação está muito bem feita, e isso é notável ao longo do desenvolvimento da personagem no filme, com vários momentos memoráveis.

Indo ao encontro da narrativa, esta começa por acompanhar, desde muito cedo, a personagem de Estella Miller (Emma Stone) que se revela uma rapariga muito rebelde e dinâmica, num mundo repleto de ordem e regras. De tal forma, que durante uma festa, cuja anfitriã era uma Baronesa bastante poderosa, um incidente provocado por Estella resulta na morte da sua mãe, a qual é empurrada por um trio de cães dálmatas, de um penhasco abaixo. Sentindo-se profundamente culpada, a jovem insubordinada, agora órfã, aventura-se sozinha pelas ruas de Londres, onde conhece dois arruaceiros, Jasper (Joel Fry) e Horace (Paul Walter Hauser), que tornar-se-ão companheiros, inseparáveis, no crime.

Aqui, Estella começa a revelar vários traços que a transportam para a visão que temos da vilã tão icónica de 101 Dalmatians (1961). Dez anos, se passam e a protagonista, que pintou agora o cabelo de vermelho, juntamente com os seus dois parceiros, acabam por cometer vários crimes, vivendo à margem da lei. Por outro lado, a personagem de Emma Stone, que ao tentar colocar em prática as suas habilidades de design de moda, acaba por se cruzar com a Baronesa Von Hellman (Emma Thompson), dona de uma loja prestigiada de moda. Que lhe dá a oportunidade de trabalhar para si, enquanto designer.

Com o surgimento desta circunstância, o trio de trapaceiros decide colocar em marcha um plano, que envolve recuperação de um objeto de elevada estima sentimental por parte de Estella, que agora está em pose da Baronesa. E como não podia deixar de ser, irão surgir mais surpresas pelo caminho, com algumas revelações incalculadas pela protagonista. Como não irei avançar mais com a história, importa referir que este elenco de peso, conta ainda com a presença de John (Mark Strong), enquanto fiel cúmplice de Baronesa nos seus esquemas, e ainda de Anita (Kirby Howell-Baptiste), enquanto jornalista e potencial aliada de Estella.

Em torno destas personagens, está uma ambientação rica em detalhes e povoada de adereços, das mais variadas formas, que fazem a seu jeito, uma boa homenagem, a uma era já saudosa, dos anos 70. Acresce também uma banda sonora competente, que traz ao de cima, várias músicas de géneros e estilos diferentes. Portanto diria que a ambientação de Cruella (2021) foi alvo de um trabalho cuidadoso, e com efeito, isso vê-se por toda a extensão das cenas. Se bem, que quem o assistir numa sala de cinema, será recompensado, pois irá desfrutar ainda mais, da estética e apresentação do filme.

Sobre isto, encontra-se uma experiência um tanto extensa, para aquilo que seria necessário contar, com mais de duas horas de duração, que certamente, pouco acrescentam à generalidade da obra. E isto faz-se sentir, de forma acentuada, perto do final, onde o filme perde o gás, e todo o build-up que estava a compor. Acaba assim por esmorecer, trazendo ao de cima, certas banalidades e tópicos, demasiado rodados no meio cinematográfico, sendo por isso um fator que não sai nada a seu favor.

A fim de criar empatia com o público, Gillespie concebe, a meu ver, o maior problema do filme, que é tentar suavizar e amenizar o comportamento de Cruella. Isto por si só, não levanta qualquer tipo de objeção, porém, se nos lembrarmos de que se trata de um filme de Cruella, a mesma que queria apanhar e matar uma centena de cães dálmatas, apenas para puder fazer da sua pele, roupa, vemos que não encaixa nada bem.

À vista disto, supunha que, (lembrando de que está em cima da mesa um filme de origem de uma vilã maquiavélica) fosse mostrado como a jovem rebelde Estella se transformou na tal figura tão detestável do icónico filme de 1961, que muitos de nós com certeza cresceram a ver. Mas embora haja essa tentativa, a mesma não se traduz da melhor forma, acabando por a protagonista transparecer mais como um anti-herói, do que propriamente uma vilã.

Assim como referir antes, a equipa por detrás do filme, faz o exato oposto, tentando aproximar Cruella de uma personagem cujas ações são moralmente erradas, mas revestida de um manto que subentede, que os meios justificam os fins, e que pro isso havia uma certa base de integridade para tais ações. Contudo, isto não faz qualquer tipo de sentido, e com efeito não é de todo essa personagem que vemos no original, são duas personagens bastantes distintas a seu próprio jeito… Deixou-me bastante desiludido, este embaraço no argumento e construção da tão, supostamente,  temida vilã.

Enfim, com os seus altos e baixos, Cruella (2021) acaba por ter um balanço final positivo, com certeza fruto, das sólidas atuações e de toda atmosfera erguida em torno do mesmo. Tratando-se de uma produção live-action, vale sempre a pena referir, de que o filme está longe de ser equiparado a outros contemporâneos do seu tempo, como Lion King (2019) ou Mulan (2020). Se bem que aqui havia maior espaço para mudanças, o que provou ser até vantajoso, em relação a estes filmes que mencionei, por não haver propriamente uma obra de onde se basear de forma literal.

Que mais posso dizer que não tenha sido referido? Bem, posso dizer, com elevada certeza, que caso tenham perdido a fé nos estúdios Walt Disney levando em consideração a última vaga de live-actions lançados, este está longe de chegar a esse patamar tão raso. Portanto, é caso para dizer que o recomendo, só pelo simples facto (além de todos aqueles que já mencionei) de ser uma evolução positiva, em comparação a grande parte das obras que o antecederam nos últimos cinco anos.

Positivo:

  • Rivalidade entre Cruella e Baronesa;
  • Elenco;
  • Vestuário e adereços;
  • Emma Thompson consegue, sempre, roubar a cena;
  • Ambientação de época fidedigna;
  • Banda sonora;
  • Sucessivas reviravoltas;
  • Atuação de Emma Stone;

Negativo:

  • Não precisava de ser uma experiência tão longa;
  • Cruella está longe de ser a vilã que vimos no clássico de 1961;
  • Último 1/3 do filme perde o gás;
  • Tentativa de humanizar Cruella;

João Luzio
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