Análise – Celeste

Com a crescente expansão da comunidade de speedrunners (da qual também faço parte e sou bastante assíduo), sempre vi inúmeros jogos a chegarem e a  desparecem das tabelas das grandes competições mundiais nos últimos anos, entre aqueles que se mantiveram com presença regular estava Celeste. Várias foram as críticas que aclamavam Celeste como um dos melhores indies da última década, por isso, desde muito tempo prometi dar-lhe a sua devida chance, e aqui estamos.

Um primeiro olhar ao jogo pode categorizá-lo como apenas “mais um indie”, no entanto ao experienciar aquilo que Celeste tem para oferecer, ultrapassou quaisquer que fossem as minhas expectativas prévias. Produzido pela  Matt Makes Games Inc, este jogo pretende replicar um pouco da fórmula de Super Meat Boy (outro clássico indie e dos speedruns), mas dando primazia à narrativa e ao world building. Neste sentido, em Celeste, controlamos Madeline cujos os seus problemas psicológicos a fazem embarcar numa jornada para escalar a grande Celeste Mountain.

De início parece, mais uma vez, “só uma aventura linear, do ponto A ao ponto B”, e como eu estava enganado. Madeline não é só uma rapariga com um objetivo em mente, é também alguém que enfrenta problemas como a insegurança, depressão e até ataques de pânico, o que para um jogo pixelado, pode parecer uma temática demasiado séria. Mas apesar de Celeste fazer um bom trabalho em abordar estes tópicos, consegue sobretudo, passar uma mensagem transversal a qualquer pessoa, e isso reflecte-se ao longo da viagem ao cume da montanha.

Portanto, sem revelar grande coisa quanto à narrativa, chegar à Celeste Mountain é quase que uma simbologia para a autosuperação da protagonista, que terá de enfrentar os seus demónios interiores no caminho, caso queira ser bem sucedida no seu objetivo. Ao seu dispor, Madeline pode saltar, escalar, ao se agarrar a uma saliência ou parede sólida, e pode também fazer um dash aéreo ou no chão, que lhe ajudará a alcançar as plataformas mais difíceis.

Apesar desta simplicidade de movimentos, Celeste consegue por até o jogador mais habilidoso à prova, com os sucessivos obstáculos que irá ter de lidar. Não apenas pela precisão dos saltos ou pelo timing certo das nossas ações, mas sobretudo pela mestria das nossas decisões, em qualquer situação. É daqueles jogos que segue o lema “easy to play, hard to master” e isso reflecte-se na curva de dificuldade bem nivelada ao longo dos diversos mundos, que vão puxar pela adaptabilidade do jogador.

Existem apenas sete capítulos principais, somando outros dois bónus, sendo um deles a propósito do DLC (Chapter 8: Core e Chapter 9: Farewell). Contudo, determinados capítulos, especialmente o número cinco, podem demorar mais tempo do aquele que seria necessário para terminá-lo, e não me refiro apenas há dificuldade, mas também à sua longevidade. A equipa da Matt Makes Games Inc poderia ter desviado menos tempo a estes capítulos, para criar outros igualmente apelativos e desafiadores.

Para além de passarem de secção em secção até ao fim do capítulo, poderão, opcionalmente, colecionar as diferentes frutas que se encontram espalhadas pelos cenários. Reforço a palavra opcional, porque além de não acrescentarem nada de novo (além de uma artwork), aquando de serem colecionadas, são também um desafio extra, e isto deve-se à sua colocação, que torna difícil alcançarem-nas.

Tirando isto existem apenas as cassettes, ainda mais escondidas no cenário, que desbloqueiam uma versão mais difícil dos níveis dos capítulos regulares. Contudo ao contrário das frutas, caso queriam desbloquear o Chapter 8: Core terão de as colecionarem obrigatoriamente, mas se apenas querem chegar ao final da experiência base, podem deixá-las de parte.

Graficamente, Celeste acaba por seguir os moldes tradicionais de uma porção grande de jogos indie, o que não é de todo um ponto negativo, mas para um título que traz uma lufada de ar fresco para este género, poderia ter investido mais neste requisito. No entanto, as diferentes interações com as personagens que Madeline se vai cruzando na sua viagem têm direito a uma caixa de diálogo bem animada, que demonstram a expressividade e personalidade destes intervenientes.

Para um jogo que requer muita precisão e atenção da nossa parte, a banda sonora consegue, surpreendentemente, se destacar e ser um dos grandes feitos de Celeste. Para além de ser uma boa homenagem ao jogos retro é também uma peça artística única, capaz de ser aproveitada, fora do contexto de Celeste, tal como aconteceu (comigo) com Shadow Of The Colossus.

Por fim, e não menos importante, faço questão de frisar a importância dos controlos, que respondem positivamente às nossas ações, o que para um jogo de plataformas deste género, é um dos pontos mais cruciais a ter em conta no gameplay. Contudo, recomendo vivamente, caso joguem na versão PC, a utilizarem um comando externo, pois o teclado atrapalha mais do que ajuda, e dificultará a precisão dos saltos em momentos mais tensos.

A nomeação de Celeste como um dos jogos do ano de 2018, foi sem sombra dúvida, mais que justa. Infelizmente por muito tempo passou por baixo do meu radar, e só recentemente pude experienciar um dos grandes jogos indie de todos os tempos. Celeste conquistou-me, desde a sua história emocional, até aos seus desafios constantes com um nível de dificuldade que puxam pelo jogador mais experiente, imersos numa banda sonora de extrema qualidade.

Positivo:

  • História emocional e cativante;
  • Madeline é uma personagem complexa e convincente;
  • Aperfeiçoou a fórmula de Super Meat Boy;
  • Desafios puxam o jogador mais experiente ao limite;
  • Curva de dificuldade bem nivelada;
  • Controlos responsáveis;
  • Gameplay divertido;
  • Banda sonora;

Negativo:

  • Determinadas zonas estendem demasiado a sua presença;

João Luzio
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