Análise: Além da Escuridão – Star Trek Into Darkness

 

A mente na origem de êxitos recentes (Lost, Cloverfield, Alias), assumiu uma das franchises mais populares do mundo. Star Trek é o derradeiro produto de ficção-cientifica, com profundidade filosófica e o desenvolvimento analítico astrofísico. Durante gerações, Star Trek adoçou o paladar de milhões de espectadores e cimentou uma legião de fãs (acérrimos defensores do material original e desconfiados de quaisquer novas abordagens).

Eventualmente, o espetáculo e a acção frenética não são prioritários na franchise original, privilegiando o apetite pela descoberta e a unidade entre facções. Sob as ordens de J.J. Abrams, o conceito de aventura aparece numa latitude diferente, mais afoito, impossível de desdenhar, mesmo para o fã mais conservador. Em relação à história, já lá vamos.

Star Trek Into Darkness é a sequela de Star Trek (2009), um filme que atingiu um registo interessante nas bilheteiras, com uma história a estabelecer os carismáticos personagens num novo universo (a interpretação de J.J. Abrams), uma realidade tecnológica, politica e social diferente da saga original, com o desafio que apresentou Nero (Eric Bana), um poderoso vilão cujo plano colocava o espaço sideral em perigo.

J.J. Abrams admitiu ser mais um “Star Wars Guy” do que fã de Star Trek – está geneticamente preparado para compreender o potencial de mercado, da valia do produto, da importância em chegar ao público mainstream (sedento de acção e momentos visualmente espectaculares), e de rentabilização do investimento – mas o reboot de Star Trek vale ao público uma abordagem que alcança o melhor de dois mundos. O convite da Disney a Abrams, com a finalidade de realizar o Sétimo Episódio da Guerra das Estrelas, não foi mais do que “somente lógico”. Star Trek ou Star Wars? Eis uma pergunta que atormenta os neurónios dos nerds há 30 anos. J.J. Abrams foi mais além, escolheu os dois.

Star Trek Into Darkness vale de caras pelos primeiros minutos, um evento fantástico que respeita a genética das séries televisivas. Existe um enquadramento reminiscente de outro clássico do cinema (um like na caixa de comentários para quem souber do que estou a falar), onde, não obstante a espectacularidade, são lançadas bases fundamentais para a aventura de Into Darkness, nomeadamente: amizade, confiança, responsabilidade, e dicotomia entre moral e ética.

O enredo de Star Trek Into Darkness evolui para uma panóplia de perguntas, importantes no universo Star Trek, como: qual é o estatuto da Federação? O que pode ser considerado terrorismo? Que caminho deve ser percorrido para fazer justiça?

O elenco de Star Trek Into Darkness não é uma constelação de estrelas, mas cada escolha foi tomada em consciência e reflecte uma preocupação minuciosa pela perfeição: Chris Pine (Kirk), talvez a escolha mais discutível, proporciona o paradigma da humanidade, com escolhas assentes na emoção e no processo de aprendizagem; Zachary Quinto (Spock) equilibra o limiar do Vulcan e do Humano (razão versus emoção); Simon Pegg (Scotty) e Zoe Saldana (Uhura) são mais-valias tremendas para a qualidade das cenas; e Benedict Cumberbatch (interpreta John Harrison) encarna o vilão da história. John Harrison é intimidante (mais um like na caixa de comentários para quem identificar o inuendo cinematográfico), forte, intelectualmente superior e com objectivos semelhantes a Kirk, criando uma dinâmica fantástica entre vilão e héroi. Provavelmente, estamos na presença do melhor vilão desde o Joker de Heath Ledger.

J.J. Abrams desempenha um trabalho notável na realização, apesar de ser conhecido por “jogar pelo seguro”, Abrams é um Beckenbauer da realização. Cada decisão é orquestrada com um talento incrível e a sinfonia está afinadíssima em cada corte, cena, evento, acto. Existem momentos com proporções épicas, dotados de uma visão, e imaginação, arrebatadora. A edição está imaculada, os efeitos visuais fantásticos, a cenografia genuína e a banda-sonora remonta a Star Wars… mas que surpresa.

Mas nem tudo são rosas em Star Trek, da mesma maneira que a tridimensionalidade dos personagens obriga a dilemas morais no próprio espectador, a decisão em relação ao clímax provoca tumulto nos fãs. Se a nova corrente de fãs Star Trek (quem chegou à franchise pelas mãos de Abrams) pode considerar o desfecho de Into Darkness fantástico, os fãs da velha guarda podem nutrir um ódio visceral pelo filme.

Into Darkness absorve elementos já trabalhados em filmes anteriores, elementos incondicionalmente amados pelos fãs. Apesar da tentativa de Abrams em fazer justiça à saga, percorreu terrenos minados que colocaram em causa todo o trabalho desenvolvido. Contudo, sinceramente, a realização não está simplesmente melhor do que o material original, como faz total sentido, tendo em conta o enquadramento da narrativa.

O clímax até pode não reunir consenso – há momentos que não estão em concordância com as regras estabelecidas (no que respeita ao poder do vilão); pode ser considerado pouco épico, tendo em conta os gigantescos eventos precedentes; previsível pela pouca subtileza dos set ups – mas devem ser lamentados (sobretudo) a fugacidade do epílogo e a sensação de que o balanço da aventura não proporcionou uma aprendizagem indiscutível nos personagens. Mas são detalhes que “apenas” afastam Star Trek da perfeição.

Star Trek Into Darkness é um dos melhores filmes do ano e um dos melhores filmes de ficção-cientifica de sempre. É mais do que um blockbuster de Verão. Os diálogos são soberbos, as interpretações notáveis, o enredo é cativante e as temáticas exigem um esforço suplementar da massa cinzenta. Quem não desfrutar do filme, por conservadorismo e amor obstinado pelo material original, não está a ser diplomático e ignora a mensagem original da franchise. Explorar o que está além das estrelas.

Podem ver a vídeo-análise PróximoNível do filme Além da EscuridãoStar Trek Into Darkness aqui:

 

Positivo

  • Vilão
  • Efeitos Visuais
  • Realização
  • Momentos visualmente arrebatadores
  • Qualidade do elenco
  • Relação Spock/Kirk
  • Enterprise como “personagem”

 

Negativo

  • Caminho assumido, que não agrada a gregos e troianos
  • Inconsistência do poder do vilão
  • Epílogo
  • Afinal, o que aprendeu o herói?

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mart88

Eu gostei, embora achei que os momentos chaves fossem muito previsíveis. No caso do vilão acho que tem muito mais impacto que o Eric bana no star trek de 2009.
Em termos de efeitos especiais estão over the top, embora não aprecie muito os uso de filtros que ele usa causando reflexões de luz.

Edgar Silvestre

os filtros são o fetiche do Abrams, não há nada que se possa fazer

Leonsuper

Gostei bastante do 1º filme e sou fã da série original. Tenho-a em DVD e não vi os episódios todos, mas vi os suficientes para achar que é realmente uma série que vale a pena ver. Estou com altas expectativas para este filme, especialmente tendo em conta que o Benedict Cumberbatch é o vilão.

E boa review, só não posso dizer se concordo ou discordo com a opinião até daqui a umas horas.

Edgar Silvestre

fico à espera do teu feedback. vale mesmo a pena o Into Darkness

Leonsuper

Bastante bom, ficou ao nível do anterior. Só achei que a história podia estar melhor, fiquei um bocado chateado com algumas coisas e também a achei um bocado previsível…De qualquer das maneiras este filme não é supostamente do mesmo universo ou timeline da série original, por isso nem nesse aspecto está assim tão mau… 8/10

EDIT: E desta vez teve muito menos lens flares gostei disso.

Edgar Silvestre

ahahaha, bom reparo das flares (eu até gosto). O reboot não respeita a timeline da saga original. é umma nova abordagem proporcionada pelo Abrams e pela a equipa

Tiago Ferreira

O filme foi muito bom mesmo.
Ultrapassou as minhas espectativas, que já eram bastante altas!
Os actores são ideais para os papéis e o novo vilão é excelente. O seu tom e diálogo estão realmente espectaculares.
Pensaste exactamente o mesmo que eu ao dizer que desde o filme de Nolan, que não via um vilão tão forte como este. Este é sem dúvida um dos melhores vilões desta década.
Penso que o primeiro filme foi mais um introdução à personalidade de cada personagem e este sim é que foi um verdadeiro Star Trek.
A banda-sonora era a esperada, que continua bastante boa.
Mas para mim o ponto alto foi mesmo a escolha de Benedict Cumberbatch para o papel de vilão.

Já estou mais confortável com a realização de J.J. Abrams em Star Wars e espero que continue com a saga Star Trek por uns bons aninhos!

Edgar Silvestre

Quando disse que os fãs da saga Star Trek original são torcidos, não estava a exagerar. O filme Star Trek: The Wrath of Khan, o segundo da franchise que remonta a 1982, é um dos filmes mais amados pelos fãs. Há elementos do Into Darkness que o Abrams absorveu do Wrath of Khan, logo, atiçou a fúria dos fãs. Sinceramente, eu vi os dois e acho que a abordagem do Abrams é mais rica. Sem contar que está muito melhor do ponto de vista da realização. Agora, é incrivel o que já li sobre o Into Darkness ( fúria dos fãs da velha guarda ressabiados).

Alistair

O J.J. Abrams foi “matreirinho”, principalmente, naquela cedo quase ao final, em que troca o Spock e o Kirk, em relação ao material de origem. The Wrath of Khan é um ótimo filme, não é um prodígio técnico, mas tem uma alma muito própria. E note-se que, das sagas originais, só vi dois filmes, mais nada. Posto isto, estou adorar esta nova saga. E o Benedict Cumberbatch é cada vez mais dos meus actores favoritos.

Edgar Silvestre

o Comberbatch é um talento natural. Em relação às duas abordagens, apesar de serem iguais, são distintas, sobretudo pelo perfil dos personagens. não vou no barco do ódio da blasfémia, porque permitiu aprender algo sobre o Spock

Alistair

Claro que o Abrams não fez blasfémia. Isto é um reboot, o que, por definição, implica uma nova abordagem, das personagens e dos contextos. Deixa-me que te diga: dificilmente, podia ser melhor. O J.J. é, de facto, brilhante e abençoado com um grande talento. E, enquanto houver fãs, haverá sempre fanáticos (que, mesmo não tendo razão, na minha ótica, irão berrar até à exaustão, e conquanto seja só isso, estão no direito deles).

Silver4000

Então isto é reboot aos antigos filmes?
Não sabia. Nunca vi nenhum mas terei de os arranjar e tirar um dia para os ver (parece que são 11, e que tem uma série) so para me manter informado 😛

Leonsuper

É basicamente um reboot da série original de Star Trek com as mesmas personagens, mas mais novas, e uma timeline diferente.

Silver4000

Haa, eu tinha ouvido que era prequela.
Hum… a ver, num dia em que me apetecer arranjar os filmes XD

Edgar Silvestre

uma saga de culto, com séries televisivas e filmes.Diferente de Star Wars mas na genética das odisseis espaciais, como Espaço 1999, BatleStar Galactica, Babylon 5, Stargate…

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