Análise – 007 No Time To Die

(Podem clicar aqui para ver os três artigos especiais dedicados à franquia 007)

A estreia de um filme de 007 é sempre um momento especial, sobretudo para os fãs, até porque estas produções não costumam ser lançados com tanta frequência. Mas desta vez o sentimento é a dobrar. Não só é o 25º título da saga, como também é quinto e último filme de Daniel Craig, enquanto o lendário James Bond, fechando-se por isso um ciclo de quinze anos. Sendo distribuído pela Universal Pictures e produzido pela Eon Productions (Barbara Broccoli e Michael Wilson) juntamente com a Metro-Goldwyn-Mayer (MGM).

No Time To Die foi adiado várias vezes no passado, só conseguindo chegar às salas de cinema agora em 2021. Com efeito, as expectativas foram-se acumulando. Somando a isto a confirmação do próprio Daniel Craig, que aqui seria de facto a sua última interpretação no manto de Bond. Ao contrário do aconteceu em Skyfall (2012) e SPECTRE (2015), Sam Mendes sai de cena, e abre espaço para Cary Joji Fukunaga, realizador pouco estabelecido na indústria, assumir a direção desta longa-metragem.

O filme começa. As luzes apagam-se. E surge a icónica cena de Gunbarrel. Só que pela primeira vez não aparece sangue a escorrer, após o tiro. Para os espectadores casuais isto irá passar em branco, mas é algo que os fãs mais assíduos irão logo estranhar. Esta escolha não foi ao acaso. Fukunaga logo nos primeiros segundos, consegue com isto transmitir algo bastante claro – de que este não vai ser o típico filme que a franquia nos habituou. Claro, temos as Bondgirls, as cenas de ação, a cena pré-créditos inicias, os gadgets, a música tema e o vilão. Está tudo aqui.

A questão é que No Time To Die é o ‘menos 007‘ que tivemos até ao momento, foi possivelmente aquele assumiu o maior número de riscos na saga. Quanto à narrativa esta inicia-se a partir do gancho do título anterior, SPECTRE (2015), onde Bond ao ter capturado o antagonista principal da franquia, o Blofled (Christoph Waltz) agora sob a custódia do MI6, decide sair de cena (como é tradição da personagem) para entrar numa espécie de reforma da sua vida de agente secreto. Sendo acompanhado por Madeleine Swann (Léa Seydoux), enquanto se refugiam numa zona pacata em Itália.

Como era expectável, a sua ausência durou pouco tempo, sendo apanhado numa armadilha que leva James Bond (uma vez mais) a ficar preso nos tentáculos obscuros  da organização SPECTRE. Este acontecimento traduz-se numa das cenas pré-créditos iniciais mais marcantes e incríveis da série, que irão colocar os espectadores e os fãs, presos ao ecrã. Também aqui, o próprio Aston Martin DB5 foi extremamente bem utilizado, sendo manuseado de formas e em situações nunca antes vistas, fazendo bom uso dos efeitos especiais atuais.

Feitas as (re)introduções segue-se a cena que encaixa os créditos iniciais, acompanhados pela música tema do filme. Aqui, a escolha foi pouco usual, sendo Billie Eilish quem assume esse papel. É das entradas temáticas mais fracas da série. Não é das piores, mas está longe ter a pujança que figuras como Tina Turner (GoldenEye) ou Adele (Skyfall) tiveram em seu turno.

Ainda ao nível sonoro não posso deixar de mencionar outra magnífica participação de Hans Zimmer à frente da banda sonora. Embora recicle uma boa fatia das faixas remixadas dos outros dois filmes anteriores, em especial Skyfall (2012), as novas adições são mais que bem-vindas. Conseguindo encaixar a música tema, sob a forma de leitmotif, como puro fan service, em variados momentos chave de No Time To Die. Até porque Zimmer é também ele, outro fã incontornável de James Bond.

Indo já ao encontro de outro facto curioso que diz respeito à longevidade. Este é o maior filme, em termos de duração, da franquia, são praticamente três horas de filme. Em grande parte do tempo, a experiência flui com naturalidade, contudo, nas extremidades é quando o filme peca. O início demora, sendo tardio a entrar no trilho de forma atempada, e o terceiro ato consegue descarrilar um segundo ato quase perfeito.

Visto como um tudo, este problema ao nível da estrutura e encadeamento da história pode passar em branco, todavia, certas secções não deveriam ter passado da sala de edição para o corte final.Faz lembrar uma versão estendida, em bruto, do que propriamente a theatrical edition. Seja como for, o reencontro com o passado é uma temática que está fortemente pautada no decorrer do filme.

Sendo uma jogada interessante, que acaba por sair a favor da estrutura da produção, uma vez que, sendo o último filme deste Bond, serve igualmente para amarrar possíveis pontas soltas dos outros quatro filmes anteriores. Há espaço para romance, despedidas e várias revelações. 007 nunca esteve tão ligado intimamente a tantas personagens como aqui. Algo que me levará a um dos outros pontos positivos, a seguir.

Algumas caras conhecidas da era de Daniel Craig, retomam. Como Felix Leiter (Jeffrey Wright) depois de Quantum Solace (2008). E ainda os habituais Q (Ben Whishaw), Moneypenny (Naomie Harris) e M (Ralph Fiennes). A isto acresce possivelmente a entrada da série com o maior número de novas personagens. Tais como uma nova agente 007 (Lashana Lynch) que assumiu o manto deixado livre por Bond no MI6, sendo a primeira mulher a segurar este estatuto.

Indo buscar um elemento que tinha sido muito pouco explorado desde Casino Royale (2006), que é a existência dos tais agentes 00 que foram introduzidos em Thunderball (1965). O elenco é ainda reforçado com as personagens de Logan Ash (Billy Magnussen) e Paloma (Ana de Armas), ambos contactos de Leiter na CIA.

No Time To Die tem assim um elenco recheado de talentos, e mesmo que muitas destas personagens não tenham o devido tempo de tela, repartido entre si, todas deixam um impacto, por serem tão carismáticas e únicas. A ajuda recorrente do elenco secundário para com James Bond, prova que os velhos tempos, em que agia independentemente, ficaram há muito para atrás. São personagens com personalidade, não sendo descartadas facilmente, muitas das quais provam que sem a sua presença, Bond seria um alvo fácil abater.

Mas voltando à história. Agora que Bond regressou, parcialmente, ao ativo, cabe-lhe a tarefa de resgatar, Valdo Obruchev (David Dencik), um cientista russo, cujo o rapto se deve ao desenvolvimento um projeto secreto de nome Heracles. E se caso for parar às mãos erradas, pode resultar na propagação de um vírus letal capaz de dizimar a população na Terra. É o mais longe que vou em detalhes, para reservar as surpresas e não dar muitos spoilers, pois a Eon Productions conseguiu, felizmente, despistar grande parte dos pontos essenciais do roteiro, dos trailers.

E se temos um plano destas proporções é porque temos um grande vilão por detrás. No entanto, este é um dos pontos mais baixos da experiência de No Time To Die. Depois de termos antagonistas tão poderosos, carismáticos e intimidantes, nos últimos quatro filmes, como Le Chiffre e Raoul, o último filme não consegue ser colocado lado a lado, com estes últimos. Embora Rami Malek se tenha mostrado um ator competente em anos mais recentes, era previsível que não iria conseguir entregar algo digno do que lhe era pedido.

Por isso, Lyutsifer Safin cai na categoria, infelizmente, dos vilões mais fracos da série, com motivações fracamente descabidas, e pouco justificáveis. Mesmo o plano, na teoria, faz lembrar uma espécie de sucessor daquilo que se viu em Moonraker (1979) com Hugo Drax, o que é um péssimo sinal. De qualquer forma, mesmo com as várias tentativas por parte do argumento em enfatizar a suposta “presença intimidadora” de Safin, a partir do uso de planos mais próximos, nunca chega a ser algo que resulte, e que deixe uma marca.

E o mesmo se aplica ao já habitual henchmen, cuja revelação foi deixada em segredo, mas que de qualquer forma, fica muito aquém. Preferiria que tivessem seguido mais à letra com o gancho da SPECTRE, na longa-metragem de 2015, apoiando-se em Christoph Waltz, do aquilo que foi o resultado final neste filme. Depois temos as cenas de ação. Para além daquelas que envolvem o clássico DB5, há muitas outras de cortar a respiração, que se conseguem alcançar no pódio das melhores já vistas na série.

Estes momentos não são reservados só para o agente secreto mais conhecido do mundo, pois mesmo a personagem de Nomi, consegue demonstrar o porquê de ter sido escolhida como uma agente 00. Caso não façam um reboot nos próximos tempos (o que é praticamente certo, se olharmos no passado), com certeza Lashana Lynch tem margem para carregar, pelo menos, um spin-off às costas. Mas recuando um pouco atrás, a direção das cenas de ação optada por Fukunaga, foi outra boa surpresa, em particular, na última sequência durante o climax.

Houve, novamente, um reforço no que toca às coreografias corpo a corpo, embora, haja um maior investimento em relação aos tiroteios, perseguições com ou sem veículos e na ação furtiva. Consegue equilibrar todo o leque de competências de 007 bastante bem. Não há como esquecer, que apesar de toda a ação e explosões, No Time To Die prioriza uma faceta mais humana da personagem, uma que apenas foi vista em On Her Majesty’s Secret Service (1969).  Desde a sua relação com os agentes do MI6 às Bongirls, que James Bond traz ao de cima um lado condolente, e sobretudo, emotivo.

E isto leva-me ao final. Ok, No Time To Die tem tudo como referi. Não lhe escapou nenhum dos ingredientes. Mesmo assim, e embora concorde que era a altura de tomar riscos, determinados elementos basilares da essência de toda a saga de 007 são aqui colocados em causa. Certamente será um divisor de águas, claro, não ao nível de um The Last Jedi (2017) ou Prometheus (2012), mas um que deixará o seu impacto, para bem ou para mal. Sendo a entrada que mais puxou ao limite a corda. Muitos fãs poderão até concordar que a rompeu.

Pessoalmente, fiquei satisfeito. Já estava na altura. Sendo consumado durante o final e em algumas das revelações durante o segundo ato, que levaram as mãos à cabeça de muitos fãs. Mesmo que haja uma tentativa forçada de estampar Nomi como uma sucessora do seu manto, que em certos momentos, é demasiado desnecessário, até inconsistente com a proposta do filme.

Em todo o caso, levando em consideração que James Bond é uma personagem do seu tempo, sendo a sua caracterização base, datada para os dias de hoje (e tudo o que isso implica do ponto de vista social). É natural esperar que o James Bond que vimos durante quase 60 anos, nunca mais volte a ser o mesmo, daí que No Time To Die seja igualmente uma despedida de toda a série até aqui.

Até isso acontecer, Daniel Craig consegue marcar pela positiva um filme necessário para a personagem, que tenta transmitir uma mensagem renovada, a um público moderno. Muitos riscos foram aqui assumidos. Por isso, No Time To Die ficará para a história como a produção mais ousada da série. De tal forma que fez com que se tornasse numa daquelas análises difíceis, e com um forte cunho pessoal, um pouco como aconteceu, recentemente, com Cry Macho.

Precisei de algum tempo para digerir a experiência, e para No Time To Die assentar em mim, para conseguir publicar a análise com uma opinião mais consolidada. Por isso agora, consigo dizer com grande certeza, que este está praticamente ao nível dos melhores (Casino Royale/Skyfall) da era de Daniel Craig. Acima de tudo foi uma despedida justa com tudo aquilo que foi iniciado em 2006, confesso que já não me lembrava de tanta emoção à mistura numa sala de cinema, mas foi um sentimento unanime na minha sessão.

No Time To Die recebe, à visto disto, uma forte recomendação da minha parte. Craig mostrou para o que veio, e Bond, James Bond, só teve a ganhar com a sua passagem pela personagem e franquia 007.

Positivo:

  • Atuação de Daniel Craig;
  • Personagens secundárias;
  • Cena pré-créditos iniciais;
  • Banda sonora;
  • Elenco;
  • Final emotivo e recompensante;
  • Cenas de ação bem trabalhadas e editadas;
  • Melhor uso do Aston Martin DB5 na franquia;
  • Várias referências e fan service a toda a mitologia de 007;
  • Despedida digna de Daniel Craig da personagem;
  • No Time To Die ousado em assumir riscos nunca antes vistos;

Negativo:

  • Safin é excessivamente estereotipado e com escasso desenvolvimento de fundo;
  • Duração do filme poderia ser, facilmente, encurtada;
  • No Time To Die será um divisor de águas entre os fãs;
  • Estrutura e ritmo do filme pecam no primeiro e no último ato;

João Luzio
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