A fragmentação das franchises poderá ser o futuro da indústria dos videojogos

Ao longo dos  anos são várias as franchises de videojogos que vão e voltam, quer por uma questão de continuidade, quer pela pura nostalgia, apesar de o dinheiro ser sempre a palavra ordem do dia. No entanto, outras retornam de forma completamente renovada à proposta com que se iniciaram, como por exemplo Dragon Quest através de Dragon Quest Builders. E agora mais do que nunca esta tem sido uma forma de (1) manter uma dada franchise viva e (2) torná-la apetecível a novos espectros de jogadores.

Toda esta estratégia por parte dos estúdios é até uma mais-valia, se a compararmos com a criação de uma nova Intellectual Property [Propriedade Intelectual] (IP). Pois tira-se logo da equação os custos vultuosos associados aos riscos que a concepção de um novo IP acarreta, caso este falhe, e ainda se aproveita o reconhecimento que uma dada marca tem com o público.

Por exemplo, quando, em 2010, a Sega decide lançar Sonic And Sega All Stars Racing, estava a apropriar-se da imagem e reconhecimento que a personagem de Sonic e companhia têm nos consumidores, ao mesmo tempo que introduzia um novo estilo de gameplay. Agora se imaginarmos este mesmo jogo, só que sem as personagens da Sega, com outras completamente novas, com certeza que as vendas estariam longe de ser as mesmas.

E este exemplo que dei é apenas um, da crescente tendência que se tem observado nos últimos anos. Peguemos num exemplo, ainda mais discrepante: O lançamento, e posterior popularidade, de Minecraft foi claramente um marco, quer se queira ou não, na cultura do entretenimento, e em especial nos videojogos. Sendo este último, hoje um dos mais reconhecidos títulos à escala mundial, com toneladas de merchandising e até um filme confirmado que irá sair no próximo ano.

Ora a ideia base de Minecraft é de tal forma única, que tornar-se-ia difícil imaginar um cenário em que algo de diferente pudesse ser feito a partir daqui. No entanto, só na década passada já tivemos um jogo da Telltale, onde o foco era a história, e outro, Minecraft Dungeons, com uma proposta do género dungeon crawler, recheado de elementos de um típico RPG.

Como se pode ver até videojogos mais abstractos e muito bem sucedidos, conseguem ver novamente picos de popularidade com a desfragmentação da sua franchise em vários géneros e estilos diferentes, sem que para isso se perda a génese do original. Mas é aqui que, a meu ver, entra uma das principais dúvidas, que devem pairar na cabeça dos executivos, que põe em causa a eficiência desta estratégia – “Mas e se uma franchise for de tal forma fragmentada, ao ponto de perder por completo  a sua personalidade e essência, tornando-se cada vez mais difícil de escolher qual o rumo a escolher para a mesma?”

Esta pergunta, efectivamente, poderá ser até um dos principal entraves à expansão de uma franchise para novos campos. Vejamos o caso de Super Mario. Se nos anos 80 ou até início dos anos 90, perguntássemos a algum jogador como definiria o estilo desta franchise, a sua resposta seria, com certeza, do género 2D. Mas se nos dias que correm, fizessemos a mesma pergunta a outro jogador, provavelmente teríamos uma maior variedade de respostas. Para uns, Super Mario pode estar mais associados aos recentes títulos 3D (Super Mario Odyssey ou Super Mario 3D World), outros responderão ainda a vertente 2D, e outros mais ousados poderão responder Mario Kart.

Ainda assim, e felizmente, na presença deste desmembramento, a franquia de Super Mario tem sido um caso de sucesso. Porém franchises como Castlevania ou Banjo-Kazooie, desde que alteraram completamente a sua fórmula base, não voltaram a ser mesmas de outrora, tendo o público se afastado para outros títulos, à procura de uma experiência semelhante, como Bloodstained Ritual Of The Night ou Yooka Laylee, respectivamente.

Há ainda exemplos, onde o facto de não renovarem a sua fórmula (não se aplicando a estratégia da fragmentação) desde um longo período de tempo, resulta na perda da chama que já tiveram noutros tempos, como é o caso de Kirby ou Medal Of Honor. Outros estúdios apostam, como referi no início, na renovação a partir da nostalgia, traduzindo-se numa longa listagem de remakes e remasters que têm vindo à tona no final da última década, como é o caso de Crash Bandicoot ou Tony Hawk Pro Skater.

Vale sempre ressalvar que quantidade nem sempre [quase nunca] é sinónimo de qualidade. Embora certas franchises como Assassin’s Creed possam ser mais favorecidas que outras, caso se verifique uma maior abertura a novas ideias, não é regra geral. Imagine-se um cenário, ao invés de sair um título deste último todos os anos, saía por exemplo, um título 2D, seguindo-se de outro focado em RPG e outro que pegava na fórmula clássica. Conseguir-se-ia agradar a muito mais jogadores, mantendo-se intacta a comunidade de fãs base.

Indo a outros videojogos mais específicos, como Grand Theft Auto, evidentemente que a diversidade poderá não agradar a grande parte do público consumidor. Pois para além do ciclo de produção do jogo em questão já ser de grande dimensão, imaginando um cenário onde envolvíamos outras ideias dispersas, iria aumentar muito mais o tempo de espera. Portanto convém as empresas saberem, em antemão, identificar se esta tendência será realmente eficaz no seu negócio, e não apenas seguir “a onda do momento”.

Seja como for, o facto de se pegar numa ideia e transpô-la para novos horizontes tem sido uma tendência de êxitos, para inúmeros estúdios, estratégia esta que não parece cessar tão cedo. Mesmo que no caso de jogos que emulam a realidade, como FIFA ou Gran Turismo, seja quase impossível modificar muito para lá da ideia inicial, são várias as franchises que têm potencial para tal.

Veja-se o caso de Far Cry, que já foi da Pré-História (Far Cry Primal), aos dias atuais (Far Cry 5), passando até por uma realidade retro futurística (Far Cry: Blood Dragon). Há ainda que mencionar outro exemplo recente, como Monster Hunter, que apesar de ter uma comunidade sólida de fãs, decidiu alargá-la ao expandir para um conceito mais mainstream, focado na ação, nas consolas da Sony.

Só o tempo dirá o que chegará no futuro, mas se tudo continuar na mesma direção, teremos um mercado gaming, onde haverá espaço tanto para novos IP‘s, como para novas ideias aproveitando universos que todos já conhecemos tão bem.

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