Será que realismo e imersão significa que não pode haver diversão?

Hoje em dia os jogos no Ocidente tem uma ideia apenas na cabeça, “realismo e imersão”. Isto é algo que tem vindo a ficar cada vez mais comum com o salto para a nova geração, e grande parte dos jogos “AAA” ou “first-party” tem apostado mais e mais neste aspecto, mostrando o quão bom as suas cinemáticas são, os imensos detalhes que os jogos possuem e fazendo totalmente com que o jogador diga “estou a jogar um filme”. Mas, mas… grande parte destes jogos acaba por sacrificar uma coisa importante, a diversão.

Sim, jogos sempre foram feitos com o intuito de divertir quem os está a jogar, mas também não é mentira que várias vezes os mesmos foram aclamados como arte devido ao que nos entregam. Quer seja história, banda sonora, ou outro aspecto qualquer, videojogos são mais do que apenas diversão hoje em dia. São outros mundos, são o nosso mundo e são a nossa imaginação que ganhou vida e decidiu saltar para dentro do ecrã.

Não estou contra jogos realistas ou que queiram imergir o jogadores (notem que tive de me conter um pouco para não escrever “espectador”), por exemplo, concordo que Grand Theft Auto V mereceu o seu título de jogo do ano muito devido aos detalhes que o jogo ofereceu na geração anterior, sendo algo que muitos jogos até ao momento ainda não o haviam feito. Também não nos podemos esquecer de jogos como Shenmue que já na sua altura tinha a sua ideia de imersão e realismo, que apesar de ter umas ideias mal usadas (em especial hoje em dia onde os jogadores são ainda mais impacientes), na minha opinião continua a ser algo divertido e uma experiência única.

“Experiência”, é essa a palavra. As produtoras decidem apostar no realismo e imersão apenas para oferecer uma experiência ao jogador e nada mais, esquecendo-se de um dos principais factores que instituem um videojogo. Com isto não estou a dizer que “experiências” são más. Já joguei uns quantos jogos que na realidade eram apenas uma experiência e que o souberam fazer bem (peço desculpa mas não estou a recordar-me dos nomes desses jogos neste momento). Se um jogo tem uma ideia em mente, quer em termos de jogabilidade, visual ou outro método qualquer, se este perseguir essa ideia como deve ser, então consegue oferecer um prato cheio de coisas boas, caso contrário o que nos calha na sopa é um “walking simulator“.

Não é à calha que os jogadores começaram a usar o termo “walking simulator“, porque é isso que metade desses género de jogos são. Estes tentam contar uma história ou oferecer algo qualquer através de mensagens, visuais, estética e etc, mas acabam por ser tão chatos e sem possuirem nada interessante que são categorizados como tal. Porque no fim o jogador não fez nada mais para além de caminhar. Um exemplo perfeito que vai contra a norma é The Stanley Parable. O jogo tem tudo para ser um “walking simulator” mas devido a seguir o tema que estipulou consegue sair dessa categoria e destacar-se como um óptimo jogo, ou neste caso, numa óptima “experiência“.

The Stanley Parable podia ter feito o que muitos outros jogos fizeram. Colocar o jogador à procura de lembretes, diários ou semelhantes, ou então simplesmente atirar o jogador para um cenário e obrigar o mesmo a procurar pela saída e esperar que o mesmo aprende algo a partir daí. Mas não, The Stanley Parable decidiu incluir um narrador que incita o jogador a ir contra o que o mesmo diz, sendo isso parte da experiência e do tema que o jogo explora. No final o jogador é convidado a experimentar novamente o jogo e ver as diferentes variações que existem ao invés de apenas o largar.

Temos jogos que querem ser realistas embora ainda estejam presos aos limites que um videojogo possui, por vezes falhando redondamente naquilo que querem entregar e outras vezes fazendo uma boa combinação entre o real e o imaginário. A série Metal Gear Solid sempre foi aclamada como sendo um videojogo que apresenta elementos baseados na realidade do nosso mundo com uma mistura de ridículo. Existem vários exemplos possíveis de retirar de Metal Gear quer em termos de história, cutscenes, jogabilidade e mais; os fãs adoram o tom sério que os jogos seguem, mas ao mesmo tempo não largariam por nada os momentos ridículos que a mesma oferece, também eles em momentos de história, cutscenes, jogabilidade e muito mais.

Metal Gear Solid consegue fazer uma boa mistura entre os dois mundos, não sendo o único exemplo de uma série que também consegue realizar esse feito. Hitman leva-se a sério, excepto quando não o faz. E aquilo que também seria um jogo de infiltração e momentos sérios acabam por tornar-se ridículo a partir do momento em que o jogador decide usar um disfarce parvo ou outra coisa semelhante. Manter um certo balanceamento entre ambos os lados é algo complicado e que muitos jogos tentam não fazer, seguindo ou algo completamente sério ou apostando forte na comédia e momentos fora de si.

Desde o primeiro dia que estas séries e este tipo de jogos são esperados com algo mais do que o realismo e imersão. Os jogadores podem continuar a jogar de uma forma “real” e “séria”, tentando ser mestres de infiltrações sem serem apanhados, e a eliminar apenas os seus alvos sem ninguém dar por isso com apenas o que lhe foi dado; ou então podem usar tudo ao vosso dispor e criar oportunidades únicas e hilariantes para tratar da saúde do vosso alvo. Metal Gear Solid e Hitman fazem um bom trabalho em ambos os aspectos porque no fundo qualquer forma de jogar continua a ser divertida.

Realismo e imersão possuem um filho que tem o nome de “Simulador”. Este é um verdadeiro género de jogo, ao contrário de “walking simulator“, que apoderou-se da maioria dos jogos de desporto e que conta com outras entradas pelo meio. Se uma pessoa vai jogar “Flight Simulator” ou “Train Simulator” então já sabe o que esperar: uma imersão e realismo como se estivesse a pilotar um avião ou comboio. Mas se por outro lado eu colocar um jogo de futebol ou carros na consola, espero poder divertir-me um pouco, algo que não acontece hoje em dia.

Longe eram os dias onde eu jogava FIFA 2001/FIFA Street 2 ou Burnout 3/Need for Speed Underground 2 e ficava entretido dias a fio. Algo que antes era um jogo onde marcava mais de 10 golos à vontade, agora tornou-se numa dor de cabeça onde existem regras e regras e estatísticas a ter em conta e muito mais. Já não é possível pegar numa cópia de FIFA/PES e simplesmente ter um bom momento sem pensar muito no que está a acontecer. O mesmo se aplica aos jogos de carros; Gran Turismo sempre foi a opção para algo real em termos de conduzir um carro, mas sempre podia contar com outros jogos para poder ter um bom momento sem me preocupar com as regras da estrada, algo que hoje em dia está complicado.

É devido a isso que jogos pequenos, alguns deles indie, conseguem ter tanto sucesso nesta prática. O elemento principal é a simplicidade e diversão que oferecem, focando-se várias vezes nas actividades em grupo, algo que também é esquecido em troca do realismo e imersão. Estes jogos acabam por ter ainda mais sucesso porque custam menos que um jogo AAA. Perguntam-se pela razão a qual vários fãs compram um novo Call of Duty todos os anos, a razão simples é porque é divertido. A série está tão dentro de si com a sua típica ideia Americana sobre a guerra que não se preocupa imenso em ser fiel à realidade e semelhante, simplesmente metendo os jogadores num mapa com alvos para atirar. Se numa opinião pessoal a série necessita de mudar um pouco a sua fórmula? Sim. Mas pelo menos oferece o que os fãs querem neste tipo de jogos, enquanto que agora apenas os fãs de simulação poderão jogar FIFA e tirar algum proveito do mesmo, enquanto que eu não tenho nenhuma alternativa.

Vamos agora falar sobre um caso recente. Red Dead Redemption 2 saiu e a maioria do pessoal decidiu experimentar este jogo. Alguns deles nunca jogaram o primeiro, outros nunca jogaram o verdadeiro primeiro Red Dead, e outros já viveram as aventuras de John Marston. No entanto algumas reclamações começaram a surgir, e estas são obviamente o facto de o jogo focar-se demasiado no realismo e imersão, esquecendo-se por completo daquilo que os fãs mais gostaram do jogo anterior.

Tomem o momento inicial do jogo por exemplo; o jogador está a andar de cavalo pela neve com outras personagens a falarem de algo, e depois existe um tiroteio em frente a uma casa. Tudo isto de forma a tornar o jogo “cinemático” e de oferecer uma experiência ao jogador. Mas e se o mesmo iniciar um novo jogo e quiser avançar logo para o momento em que pode divertir-se? Tem de levar com estes minutos lentos que tem o propósito de “imersão” e ainda mais um par de horas onde a Rockstar decidiu emular a vida de cowboy, quase tornando o jogo numa simulação em vez da vossa própria “cowboyada”.

Existe mesmo uma razão para tudo isto? Qual é a desculpa para um jogador ter que passar meio minuto a tirar a pele a um animal, e já que falamos nisto, em todos os outros jogos, qual é a necessidade de passar tanto tempo em animações para fazer estas acções de recolha de itens ou criação de armas? É verdade que um toque de realismo adiciona muito aos jogos, dependendo do tipo de jogo que é, mas não se pode esquecer que no fundo isto continua a ser um videojogo e que a maioria não quer na realidade estar a olhar durante meia hora para uma “imersão”.

Podem estar a atacar-me devido ao comentário que fiz sobre Red Dead Redemption 2, mas pensem no mais recente jogo de Spider-Man. AAA, first-party, tem um certo realismo em termos de gráficos, mas no fundo o jogo é feito para os fãs do velho aranhiço e que apenas querem estar a passear pelas ruas de Nova Iorque de teia em teia. O jogo é feito com diversão em mente e de oferecer o melhor para os fãs sem os fazer passar pode grandes transtornos. Não existe imersão, não existe simulação, existe somente nós no papel de homem-aranha a combater o crime e a viver a vida de Peter Parker.

Agora imaginem se a Insomniac Games tivesse decidido criar algo realista com o jogo. Por alguma razão era necessário recolher ingredientes para criar as teias, ou noutro exemplo, as secções de “stealth” com Mary Jane. O jogo tenta criar um sentimento de realismo que a personagem pode ser capturada e que ditará o fim da mesma, mas no fundo temos maus momentos de jogabilidade e que ninguém quer repetir porque não é tão interessante e divertido como devia ser.

Existe uma razão pela qual as pessoas pedem um sentimento de realismo em jogos de sobrevivência. E tal como adivinharam, é porque as pessoas querem ver implementadas várias situações neste tipo de jogos. Quer seja cuidados a ter com o jogador, materiais necessários para recolher e construir coisas, entre outros. Alguns jogos conseguem fazer algo interessante com isto, enquanto que outros não são nada em especiais, embora grande parte da culpa seja por estarem em early access há já vários anos.

Pode ser que grande parte de vocês não tenha problemas com a “imersão” pois estão a viver o jogo no momento e a jogar o mesmo pela primeira vez. Mas quando regressarem será que vão continuar a apreciar esses pontos? De vez em quando regresso novamente a Hitman (2016) e passo um bom momento a explorar cada canto do mapa e a criar situações descontroláveis. Se o jogo estivesse a insistir em força com o realismo muito provavelmente não iria pegar nele assim tão frequentemente. Não que a ideia me desagradasse, mas parte do charme é mesmo o jogo de vez em quando não se levar a sério.

Existem dois outros jogos ao qual regressei recentemente e que estou a ter um bom momento pois estou a tirar o maior proveito que posso sem grandes preocupações. Borderlands 2 decide afastar-se das regras criadas pela nossa realidade e basicamente oferece centenas de armas diferentes e com os mais incompreensíveis efeitos. Devil May Cry 4 por outro lado é basicamente um excelente jogo, com uma história que está ciente de si, que sabe utilizar bem as suas personagens, e que apresenta uma jogabilidade que mesmo após 10 anos sem tocar no jogo, continua fresca e fácil de controlar. Imaginando um ou outro jogo com um sentido de realismo, imersão ou até simulação é obra do diabo, pois não me cabe na cabeça isso algum dia acontecer ou funcionar sequer.

No fundo não estou a dizer que estas duas categorias são más ou que nem sequer podem andar de mãos dadas com o divertimento. Mas a verdade é que a maioria das produtoras Ocidentais AAA estão a focar-se em demasia neste aspecto, optando por oferecer uma experiência que calha bem ao olhar (e análises), mas que com o passar do tempo talvez perca a sua força ou nem ofereça o tal entretenimento que o jogador estava à procura. Estas tácticas começam a ficar cada vez mais óbvias ao longo desta geração, e honestamente estou à espera de um ponto de ruptura onde ou a maioria destes jogos irá começar a absorver elementos de simulação tal como anteriormente vários géneros fizeram ao género de RPG, ou irão atirar esta ideia para o canto e começar a criar coisas malucas, que tanto poderá dar mal como bem.

Mathias Marques

Editor oficial desde Agosto 2014 Para além de videojogos também gosto de anime. Podem ver-me a apregoar sobre ambos os assuntos no site em forma de notícia, artigo ou análise. Tenho a sorte de encontrar momentos parvos enquanto estou a jogar, ou de os criar eu mesmo.

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