PróximoNível – Balanço Cinematográfico de 2014

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Bem-vindos ao balanço cinematográfico de 2014. Durante o ano, o PróximoNível procurou acompanhar as estreias mais importantes em solo nacional, disponibilizando análises regulares e tudo o que é importante noticiar sobre o mundo da 7ª Arte. Visto que uma eleição dos melhores é imprescindível por estas alturas, a rubrica de cinema no site não abre mão dessa oportunidade, aprumando, desde já, alguns parâmetros para um top lógico e inequívoco.

Teria sido útil ver todos os filmes, mas face a essa impossibilidade, os concorrentes são os filmes analisados ao longo do ano civil (é importante balizar uma janela temporal). Os requisitos para a avaliação implicam que tenham estreado em solo lusitano durante o ano de 2014 (inclui filmes estreados mo estrangeiro em 2013), longas-metragens e não considera filmes que estão em exibição no estrageiro, mas só chegam a Portugal em 2015 (não apoiamos a pirataria).

Há uma ressalva a ter em consideração, os filmes funcionam como o vinho, o processo de degustação é sempre diferente da prova. A analogia não implica que se iniciem “nos copos”, mas ajuda a entender que há elementos na obra cinematográfica que pioram, ou melhoram, quando são analisados a frio. Lamento também não ter vistos alguns filmes que poderiam alcançar um lugar na lista, nomeadamente, Fury e Boyhood.

 

O Bom 

1º Lugar Nebraska – Nebrasca

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Uma obra-prima do cinema. O concorrente aos Óscares de 2014 é uma ode à vida, colocando em cheque a sociedade moderna. Para quem não viu, Nebraska conta a história de Woody Grant (interpretado por Bruce Dern), um homem com idade avançada, socialmente inadaptado, que envelheceu sem quaisquer objectivos de vida. Devido à idade, Woody perdeu algumas competências, tais como a atenção e o discernimento do certo e do errado, mas adquiriu a teimosia e a rezinga. David Grant (interpretado por Will Forte) é filho de Woody e embarca numa viagem de Montana até Nebrasca para desembaraçar o pai de uma ilusão.

Nebrasca escamoteia a fatalidade da velhice e a avareza do “Homem Moderno”, simplificada numa realidade pequenina. A sensação de “macrolição” é sufocante, num projecto inteligente, extremamente bem interpretado e realizado na perfeição.  Com um clímax simples mas recompensador, a história em Nebrasca poderia sofrer copy/paste para qualquer realidade (país ou dimensão financeira) que a mensagem seria transversal. Brilhante.

 

2º Lugar The Grand Budapeste Hotel

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Isto sim, é Sétima Arte no seu esplendor absoluto. Se a arte exige experimentação, ousadia e inovação, Grand Budapeste Hotel assume a dimensão paradigmática da reconstrução do meio na difícil tarefa de narrar uma história. Embora existam “totós armados em artistas” por aí, que despejam “coisas e cenas” para dentro de uma película na má-fé que o público engula o que lhes estão a servir, só porque sim, Wes Anderson enquadra-se na restrita elite de quem sabe efectivamente o que está a fazer.

Se calhar Wes Anderson não é o protótipo da humildade, mas é um génio cinematográfico. Desde a narrativa desconcertante, à representação desgarrada, passando por uma forma original de enquadrar os planos, Grand Budapeste Hotel é mais um projecto soberbo de um dos maiores cineastas do nosso tempo. A pergunta que se impõe a seguir é: será que mantém o registo de trabalhos notáveis, ou irá meter o pé na argola num projecto futuro? (indireta ao outro Anderson)

 

3º Lugar The Wolf of Wall Street – O Lobo de Wall Street

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Embora seja o maior derrotado dos Óscares deste ano, O Lobo de Wall Street é uma enxurrada de informação, talento e momentos desconcertantes. Embora seja mais fácil chocar do que comover, Martin Scorsese regressou à boa forma em O Lobo, assinando a melhor obra desde Os Gangs de Nova Iorque.

Um manual para a cadeira de “Realização Megalómana”, que ofereceu ao mundo do cinema Margot Robbie, a nova Harley Quinn.

 

4º Lugar Gone Girl – Em Parte Incerta

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Não é, nem de perto nem de longe, o melhor filme da carreira de David Fincher, mas Gone Girl ostenta a melhor e mais surpreendente interpretação do ano: mas que trabalho fantástico Rosamund Pike!

A história é suculenta, com sucessivos twists e curvas, com as quais flutuamos por quem devemos torcer. O desfecho arrebatador levanta questões que obrigam a uma reflexão complexa e exigente. Corrosivo e cruel, Gone Girl eleva ao quadrado o pior que o amor tem para oferecer, num filme realizado “à Fincher“. Embora esteja a léguas dos Óscares, Bem Affleck até faz um trabalho positivo no capítulo da representação.

 

5º Lugar Capitão América: O Soldado do Inverno – Captain America: The Winter Soldier

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O melhor filme com super-heróis desde The Dark Knight. Embora haja um lote de filmes que mereçam mais o top5 deste ano, o Capitão América demonstrou que os filmes Marvel (maior máquina de fazer dinheiro legal no planeta) também podem ser levados a sério.

Embrenhado numa trama política, que levanta problemas bem reais (questão da vigilância do Estado sobre os cidadãos), Capitão América 2 oferece as melhores sequências de acção de 2014, colocando no mapa os irmãos Russo. O maior desapontamento do filme advém das ferramentas obrigatórias de um filme com super-heróis (construído a pensar também num público mais novo e nos fãs mais fervorosos). Embora seja um paradoxo, menos elementos do universo da fantasia dos super-heróis tornariam o Capitão América 2 ainda melhor (que luxo seria um final mais negro). Guardiões da Galáxia também é um bom filme, mas o desfecho é pouco sério.

 

O Vilão

The Amazing Spider-Man 2 – O Fantástico Homem-Aranha 2

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O exemplo perfeito de que uma reflexão a frio de um filme pode alterar por completo a opinião já estabelecida. Passada a histeria da primeira visualização, O Fantástico Homem-Aranha 2 é o maior vilão de 2014. Talvez o Homem-Aranha seja o menos culpado da salganhada que é o segundo capítulo do reboot, mas é com enorme frustração que se identifica tamanho desperdício de talento e potencial. Marc Webb é um realizador promissor, Andrew Garfield o melhor Peter Parker de carne e osso, cuja química com Emma Stone torna o casal no melhor par romântico de todos os filmes com super-heróis, mas o insucesso deste filme obrigou a produtora a reconsiderar todo o projecto.

A responsabilidade da implosão da franchise deve-se à Sony Pictures e à nefasta necessidade das pessoas com cargos bem remunerados em meter o bedelho nas áreas que não dominam. Na Marvel Studios, Kevin Feige confia nos realizadores que contrata.

Para vocês, senhores com poder de decisão, o que torna o aracnídeo num super-herói especial é a humanidade no caracter altruísta do personagem. Sugiro este exercício, quantos super-heróis fariam o derradeiro sacrifício, nomeadamente, morrer por uma causa? Quantos nunca o fariam? O Homem-Aranha faria o derradeiro sacrifício, mas sê-lo-ia com o desgosto de ficar longe das pessoas que ama. Quantos super-heróis podem gabar-se disto? Agora meditem sobre o assunto.

Interstellar, safaste de boa…

 

O Mau

Transformers: Age of Extinction – Transformers: Era da Extinção

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Não tenho perfil para “bater no ceguinho”, mas o quarto filme dos Transformers é um atentado à inteligência e à Sétima Arte. Há uma ou outra coisa gira, aqui e acolá, mas no modo geral, o filme mais lucrativo de 2014 é horrível. É positiva a intenção de dar outra roupagem à franchise, mas a forma como o filme está construído denigre um dos desenhos-animados com mais testosterona do princípio dos anos 90.

Talvez não haja uma receita para resolver o problema (talvez deixar os Transformers sossegados durante uns tempos), mas os ingredientes não são com certeza os que Michael Bay insiste em usar (explosões desmedidas, acção desinteressante e personagens ocas). Talvez esteja a ser injusto, e o filme teve um twist brilhante no final, mas não posso auferir essa verdade porque adormeci no clímax do filme… repito, adormeci numa sala de cinema durante um filme com robots alienígenas gigantes à tareia, com alguma coisa a explodir de 3 em 3 segundos. Isto nunca deveria acontecer, mais que não fosse, pela chinfrineira da acção.

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