Os vários géneros de Visual Novels

Tendo em conta o timing deste artigo já devem imaginar o que levou à criação do mesmo, e tal como correctamente adivinharam foram os recentes eventos com a Valve e as acções que a mesma decidiu tomar contra os jogos do género. Honestamente já não foi a primeira vez que a Valve decidiu agir desta forma contra jogos Japoneses, não neste ano, não desde que os mesmos começaram a ser lançados na plataforma, e de certa forma a culpa não é 100% da Valve em alguns destes casos, cabendo também na má interpretação (ou apenas má vontade) de algumas pessoas.

Enquanto que da outra vez os jogos atacados foram jogos anime, maioritariamente JRPGs, desta vez o “ataque” foi virado para as visual novels e dating sims, que de acordo com a Valve não cumpriam as regras estabelecidas pela mesma. Toda esta situação acabou por ser estranha tendo em conta que algumas das produtoras/publicadoras envolvidas tinham entrado em contacto com a Valve na altura de publicarem o jogo na Steam para garantirem que não havia problemas com o conteúdo dos jogos, e se os jogos foram publicados então é porque foi declarado que estava tudo em condições.

Por agora a situação foi resolvida, mas obviamente que existe uma má comunicação por parte da Valve, ou então algo contra este tipo de jogos tal como é observado por parte da comunidade da Steam (ou internet em geral) que sempre gostam de julgar as coisas sem as experimentarem. Embora a situação tenha acalmado um pouco, na altura tudo o que tinha ar de anime era julgado pelos users da Steam, recebendo até as user tags de “casual” “anime” “memes” ou até “nudity” quando não havia nada do género presente no jogo. É devido a essas atitudes e aos recentes problemas com a Valve que tomei a liberdade de criar este artigo, pois enquanto que a maioria das pessoas podem continuar a não querer experimentar este tipo de jogos, existe uma pequena quantidade que mesmo não estando interessada gosta de se informar sobre o assunto.

Basicamente tudo o que é visual novel não é o equivalente de “vamos levar com mamas na cara”, existem imensos géneros de visual novels e obviamente várias histórias diferentes que abordam diferentes tópicos e aspectos que usam para partilharem as suas personagens e aventuras. O que quero dar a conhecer com este artigo são as diferenças entre os diferentes tipos de visual novels que existem, desde a habitual visual novel romântica aos dating sims.

Quando se ouve falar em visual novel o que normalmente vem à cabeça é um jogo com escolhas e onde o jogador pode decidir entre várias raparigas (heroínas) para terminar a história com o seu final feliz. Não está errado pois a maioria é mesmo isso, mas existe muito mais para além das típicas histórias de amor e com escolhas. Normalmente uma visual novel possui uma história que oferece caminhos que se separam tendo em conta as escolhas do jogador, algumas dessas escolhas são óbvias e outras tomam em conta tudo o que o jogador fez até ao momento, oferecendo então uma aventura diferente e finais independentes uns dos outros.

O género que mais costuma estar de mãos dadas com o típico estilo de visual novel é o romance e drama, sendo um dos melhores exemplos a dar o de Clannad, uma visual novel que muitos conhecem devido à sua adaptação a anime. Clannad é uma história sem conteúdo pornográfico e conta a história de Tomoya, um estudante que decidiu seguir o caminho de delinquente devido a várias circunstâncias da sua vida. Durante a história de Clannad, Tomoya conhece várias heroínas e dependendo das suas acções acaba por seguir a história de uma que por sua vez leva ao mesmo a resolver os problemas que as mesmas tem, incluíndo os de Tomoya, sendo o tema de família uma grande presença durante o jogo todo.

Clannad é um dos melhores exemplos em como visual novels acabam por ser algo mais do que apenas um jogo com conteúdo erótico. E enquanto visual novels com escolhas são bastante conhecidas, existe também umas quantas que não oferecem escolhas, ou tal como são conhecidas, as visual novels cinéticas (kinetic visual novel). Bons exemplos dentro deste género são Narcissu e Steins;Gate, que contam uma história fixa do início ao fim sem apresentarem escolhas aos jogadores nem caminhos diferentes.

Steins;Gate é na sua maioria uma visual novel cinética, onde os jogadores seguem a vida de Okabe Rintaro que acidentalmente inventa uma máquina capaz de enviar mensagens para o passado, o que resulta numa situação na qual o grupo de personagens nunca pensou encontrar-se. Apesar de seguir uma linha fixa do início ao fim, Steins;Gate acaba por contar com uma mecânica que oferece uns finais alternativos para a história, mas continua a ser na sua maioria uma visual novel cinética. Narcissu por outro lado é um conjunto de histórias sobre pessoas que estão para morrer devido a doenças terminais, seguindo a forma em como as mesmas lidam com o seu problema até aos seus dias finais.

Todas estas histórias acabam por ter como um tema comum o romance, drama e comédia, que é algo bastante popular neste tipo de jogos, juntamente com o horror que também tem os seus fãs e jogos bastante populares. Por outro lado, um aspecto também popular é o género “adventure visual novel” e “escape the room“, alguns dos favoritos por partes dos fãs deste género são as séries Danganronpa, Ace Attorney e Zero Escape.

O foco destas histórias é o de (na maioria das vezes) seguir uma história fixa mas com outros elementos adicionados ao jogo que acabam por ser uma das principais atracções dos mesmos. O género “point and click” também é uma boa adição a esta categoria e se queremos destacar ainda mais híbridos, existem visual novels com elementos de acção, e não falo dos JRPGs que apresentam a sua aventura e conversa entre personagens num formato de visual novel, mas sim de visual novels que contam com minijogos de estratégia tal como a série Utawarerumono que oferece secções de RTS.

Eventualmente a conversa teria que virar-se para os “eroges“, que são uma abreviação de “erotic games“, ou “hentai” tal como a maioria das pessoas os chamam no Ocidente. Os eroges são visual novels com conteúdo pornográfico, ou seja, as tão faladas cenas de sexo e mamas que muitos assumem ser a representação total do género. Muitos destes eroges são as simples histórias de romance e drama com cenas de sexo presentes, aliás, muitas vezes esses mesmos eroges recebem uma versão para todas as idades onde essas cenas de sexo são removidas e muito não é perdido, enquanto que em outros casos acaba-se por perder algo.

A série Grisaia seria um bom exemplo onde algumas cenas de sexo acabam por ser importantes para a história do jogo, ou até devido à natureza da série que conta com imensa comédia sexual e estar a cortar nesse tipo de conteúdo acabaria por estragar a experiência. Katawa Shoujo também é um bom exemplo, tendo em conta que cada heroína nessa história possui um problema de saúde como o facto de não terem braços ou serem cegas, e o próprio protagonista não pode acelerar demasiado o seu coração com o risco de ter um ataque cardiáco. Sendo que então as cenas de sexo acabam por ter isso em conta e fazem um bom trabalho ao lidarem com o problema.

Enquanto alguns eroges contam boas histórias com personagens bem trabalhadas, existem jogos especificamente dedicados apenas para oferecerem as cenas de sexo, que são categorizados como “nukige“, onde o objectivo é simplesmente meter o jogador em cenas de sexo com as várias personagens presentes sem ter mais nada em mente. Os nukige são aquilo que a maioria do pessoal acaba por pensar que todas as visual novels são, mas obviamente que esse tipo de jogos nunca chegaria até à Steam por isso não existe realmente motivo para haver discussões sobre o assunto.

Por fim, um género que as pessoas costumam confundir como sendo uma visual novel são os dating sim. Apesar de usarem o mesmo estilo visual, os dating sim não são visual novels pois são bastante diferentes em termos de jogabilidade, mesmo que o conteúdo possa ser o mesmo em termos de resultado. Um desses exemplos é a série LovePlus da Konami (que nunca saiu do Japão), onde o jogador escolhe entre três heroínas e passa o seu tempo a interagir com a mesma, aumentando a relação entre ambos e seguindo a história dessa personagem juntamente com os seus problemas.

Neste tipo de jogo em vez de contarem com minijogos para aumentar o afecto das personagens existem outros eventos que podem escolher como ir num encontro, oferecer presentes ou simplesmente falar com a personagem. O objectivo destes jogos é simplesmente construir uma relação com as personagens e não seguir uma história complexa, com o jogador a trabalhar para fazer essa relação funcionar ao invés de selecionar opções de diálogo que irão mudar o rumo da história.

Por sua vez  HuniePop é um dating sim híbrido com puzzle game que é bastante conhecido e que marca presença na Steam. Pessoalmente apenas descobri este ano que HuniePop conta com conteúdo erótico mas o aspecto do jogo é o que muitos irão encontrar neste tipo de dating sim adultos, minijogos para aumentar a relação com as personagens que depois levam às tais cenas eróticas (no caso da Steam esse conteúdo não está presente). E não estejam a confundir tudo o que é jogo onde as raparigas ficam com menos roupa à medida que vão ganhando em minijogos como dating sim, isso também está incorrecto.

Onde quero chegar com isto é que existem várias diferenças entre o género de visual novel e que as pessoas estão erradas em avaliar os mesmos apenas como “jogos com mamas”. Nem todos os jogos deste género tem conteúdo erótico, e mesmo os que contam com tal apresentam boas narrativas e personagens para as acompanhar, não sendo apenas uma desculpa para as cenas de sexo. Obviamente que tal como tudo o que existe na indústria que alguns desses jogos são feitos com essa ideia em mente, mas não é devido a isso que se deve julgar tanto os fãs nem o género num todo como algo negativo.

Apenas cabe à pessoa em questão informar-se sobre o tipo de jogo para qual está a olhar pois vários deles são algumas das melhores histórias de sempre que capturaram uma enorme legião de fãs. O que quer que tenha acontecido com a Steam deve-se à falta de informação pela Valve e a influência dos jogadores que simplesmente olham para estes jogos como “jogos anime”, bem como pela sociedade dos dias de hoje. Obviamente que existe mais a contar neste história, mas o importante é primeiro eliminar o estigma que está a rodear tanto os jogos anime como as visual novels, pois existe espaço para os fãs de qualquer género nesta indústria.

Mathias Marques

Editor oficial desde Agosto 2014 Para além de videojogos também gosto de anime. Podem ver-me a apregoar sobre ambos os assuntos no site em forma de notícia, artigo ou análise. Tenho a sorte de encontrar momentos parvos enquanto estou a jogar, ou de os criar eu mesmo.

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