Análise – The Shape of Water (por Rui Santos)

Nomeado para 13 óscares e já vencedor de inúmeros prémios, The Shape of the Water é o filme mais aclamado de Guillermo del Toro desde Pan’s Labyrinth, de 2006. Este leva-nos ao início dos anos 60, em Baltimore. A Guerra Fria e a rivalidade entre americanos e russos servem de pano de fundo a uma história que junta características de um conto de fadas a um contexto histórico real.

No seu centro está Elisa (Sally Hawkins), uma empregada de limpeza muda que trabalha num laboratório do governo. É lá que esta encontra uma criatura, interpretada por Doug Jones e certamente inspirada pelo monstro que dá o nome ao filme Creature from the Black Lagoon, com a qual vai formando uma relação. No resto do elenco encontram-se Zelda (Octavia Spencer) e Giles (Richard Jenkins), amigos de Elisa, o cientista Robert Hoffstetler (Michael Stuhlbarg) e Richard Strickland, o vilão encarnado por Michael Shannon.

O elenco do filme é excecional e todos os atores correspondem às expetativas. Michael Shannon faz o melhor possível com um vilão típico, um papel a que já está habituado, Octavia Spencer origina alguns dos melhores momentos de humor do filme, e Sally Hawkins e Richard Jenkins também fazem um bom trabalho e contribuem para a personalidade das suas personagens. Hawkins destaca-se pelo papel diferente que tem e pela maneira como usa expressões faciais e gestuais para se exprimir.

É por isso uma pena que estas sejam, no geral, tão genéricas e banais. Senti a falta de mais complexidade ou de desenvolvimento de algumas delas, de maneira a torná-las mais interessantes. Isto também porque a narrativa em si não é nada de novo e, apesar de o filme começar bastante bem, a certa altura é difícil estar imerso e preso ao que está a acontecer. Há aspetos demasiado previsíveis e uma falta de tensão onde esta deveria existir.

Não ajuda também a pouca subtileza existente no filme. Certos momentos iriam funcionar muito melhor se não fossem tão diretos, se não esfregassem na cara do espetador o comentário que estão a fazer. Há uma cena que envolve uma personagem bastante secundária, com a qual se encontra Giles, que dá uma volta de 180º ao rumo que leva tão rapidamente que é difícil levá-la a sério.

No entanto, não é só o elenco e o humor que se destacam. A banda sonora de Alexandre Desplat tem composições muito bonitas e as músicas antigas que são usadas ao longo do filme criam um ambiente interessante e agradável que encaixa bem nos cenários onde a ação decorre. Estes são excelentes, tanto a recriar os anos 60 como a contribuir para a atmosfera que é criada e a fazer-nos acreditar na história que vemos.

The Shape of the Water é um filme visualmente agradável, com algumas cenas especialmente bonitas. Estas avançam a um ritmo adequado e fluído, mesmo quando contrastam com as outras, como uma certa homenagem aos musicais antigos de Hollywood que não é executada perfeitamente, mas que se apresenta como um momento diferente e curioso sem ser discordante.

The Shape of the Water não surpreende e, tendo em conta todo o furor à sua volta e o seu potencial, a verdade é que me desapontou. Porém, não deixa de ser um bom filme. É bem conseguido em diversos aspetos e deverá agradar especialmente aos maiores fãs de Guillermo del Toro.

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