Análise – Ready Player One

Há muitos anos que a indústria dos videojogos e cinema andam de mãos dadas, tentando encontrar a fórmula correcta para um bom filme baseado em videojogos. Curiosamente, alguns dos melhores filmes de videojogos não usam um jogo específico como base, mas sim o conceito.

Wreck-it Ralph é um óptimo exemplo de um filme baseado em videojogos que é bem melhor que a vasta maioria dos filmes que adaptaram uma licença, algo que volta a acontecer agora com Ready Player One, um filme adaptado de um livro que respira a cultura pop das últimas décadas e que acaba por tratar melhor os videojogos que muitas adaptações.

Ao contrário do que muitos ainda teimam em ignorar, os videojogos, cinema, anime e afins, já andam por cá há vários anos, o suficiente para quase toda a geração jovem adulta que trabalha, anda a construir família e a criar filhos, já tenha sido exposta a uma ou várias destas categorias de forma recorrente. Ver um realizador de renome como Steven Spielberg a realizar um filme onde um jogo está no centro das atenções, só prova que a cultura pop já deixou de ser uma coisa de nicho.

Tal como fiz para os filmes mais recentes que me interessavam, evitei ver trailers de Ready Player One, mas também deixei o livro de lado. Não estava muito entusiasmado para ver o resultado e tenho de confessar que os primeiros vinte minutos ainda me deixaram mais desconfortável. A apresentação do universo do filme e a forma como o faz tenta ser linear e “cool”, mas só me parecia forçado.

Ready Player One fica melhor quando a exposição passa e se começa a dar espaço às personagens e à história em si. O herói é o típico zé ninguém que consegue encontrar aliados poderosos que o ajudam a ter vontade de ser o melhor. As personagens são interessantes o suficiente para chamar a atenção, mas não existe muito trabalho feito no que toca ao explicar realmente a sua origem e como vão ali parar. Até os próprios vilões parecem mais surpreendidos com a sua própria maldade do que nos levam a pensar a início.

O encadeamento do filme está bem feito e os saltos entre o mundo de jogo (Oásis) e o mundo real começam a fazer sentido bastante cedo, o que até acaba por ajudar a demarcar os dois universos. Tudo o que acontece no Oásis é computorizado e fora dele, tudo foi gravado de forma a parecer o mais real possível (embora tenha muito de digital à mesma). O mundo real parece apenas uma evolução do nosso em termos de estruturas, mas tudo o que toca aos humanos parece pertencer à nossa era, o que é um pouco estranho.

Como seria de esperar, tudo o que é feito digitalmente tem muito bom aspecto, mesmo que nem todas as personagens estejam a beneficiar do mesmo tratamento. O filme também consegue distrair com facilidade, atirando sempre muita confusão para o ecrã. Existe em especial uma batalha na parte final onde é fácil olhar para algo no ecrã que não o pretendido. Por outro lado, fiquei com vontade de rever o filme para tentar ver tudo aquilo que não vi, ou percebi à primeira.

A necessidade de rever o filme surge essencialmente associada a todas as dezenas de referências que surgem ou são feitas a outros jogos, filmes, animes e até música. Felizmente não existe demasiado tempo de antena para personagens que não fazem parte directa da trama, o que é um ponto altamente positivo. As referências estão bem doseadas e servem quase sempre como pano de fundo, que vai ser aproveitado por quem gosta deste estilo de oferta (como é o meu caso).

Embora seja previsível ver para onde a história caminha, a entrega está feita de forma competente. Nem tudo faz sentido, é verdade, mas também consegui perdoar alguns problemas e escolhas duvidosas que vão surgindo. Uma das mais estranhas (vamos evitar mencionar por ser algo spoiler), ainda ficou por responder e ainda me deixou a pulga atrás da orelha, não pelos melhores motivos.

Depois de ver o filme e digerir bem o conceito, a nota final ficou presa entre o Bom e o Muito Bom durante algum tempo, no entanto, depois de tantos dias, tenho de reconhecer que é um filme que me ficou na cabeça e me conquistou ao longo das mais de duas horas de duração. As referências constantes são um dos maiores aliados do filme e ajudam bastante, por isso, quem não for fã destes temas, vai ter apenas uma experiência diferente e “mais ou menos”. Se foram um dos que leram o livro, então podem contar com coisas bastante alteradas (tendo em conta as conversas que tive com quem o leu).

É bom ver um filme como Ready Player One chegar ao cinema e puxar sem vergonha para o grande ecrã, muitas das suas inspirações. Não nos podemos esquecer que quem consome este estilo de conteúdo já não é a minoria, mas sim a maioria e Ready Player One vai ser apenas um de muitos que vão homenagear a cultura pop no futuro, afinal, muitos dos adultos de agora cresceram com ela.

Ready Player One não é um filme que vai agradar a toda a gente, mas se gostam de jogos, cinema, anime e afins, então vão ver que até é um filme que vale a pena ver. Se possível, evitem qualquer trailer e posters até que estejam dentro da sala de cinema. A experiência vai ser melhor.

Positivo:

  • Visualmente impressionante
  • Referências bem doseadas
  • Personagens interessantes
  • Vários momentos que ficam na memória

Negativo:

  • Elementos distractivos
  • Coisas sem grande explicação
  • 3D não adicionou nada de especial
  • Um filme sobre Easter Eggs sem final secreto? Blasfémia!

Daniel Silvestre

Fã de jogos, filmes, anime e coisas do género. Jogo desde que me lembro e adoro RPG. Tenho uma grande colecção deles que tenciono acabar. Talvez um dia no lar da 3ª idade.

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