Análise – NANA (por Ana Beatriz Varela)

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Episódios: T1 – 47
Temporada: Primavera 2006
Estúdios: Madhouse
Adaptação: Manga
Géneros: Comédia, Drama, Música, Romance, Shoujo, Slice of Life
Classificação: R+ (+18)

“Nee Nana, atashitachi no deai wo oboeteru?”
“Hey Nana, lembras-te de quando nos conhecemos?”

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É quase inexequível falar de NANA sem mencionar as relações babilónicas que a história nos ensina a acarinhar com enternecimento. Desde a mera conversa com um estranho, até a relacionamentos muito fervorosos entre dois apaixonados, NANA ensinou-me que, tanto no amor como na vida, é inevitável lidar com as consequências das decisões, conscientes ou não, que cada um faz. Não é fácil ser-se adulto, tomar decisões importantes com pouca experiência, saber lidar maduramente com relacionamentos, dar prioridade ao que é realmente importante, saber sofrer sozinha quando não há ninguém por perto, entender que muitas decisões não têm volta a dar e por aí fora. Simplesmente, não é fácil.

Mas quem é NANA? Duas jovens de 20 anos – Osaki Nana e Komatsu Nana -, naturais da região campestre nipónica, que se conheceram no comboio para Tóquio e acabaram por viverem juntas. O enredo de NANA não seria possível se este encontro tão trapalhão não tivesse acontecido. Osaki Nana, ou Nana, é a vocalista de uma banda de punk rock. Komatsu Nana, ou Hachi, é uma moça muito impulsiva que faz tudo pelo seu parceiro. Com uma única frase descritiva para cada uma, é possível tirar conclusões, assertivas ou não, sobre a maneira como cada uma lida com as questões mais fáceis ou mais difíceis da vida.

De uma forma ou de outra, Nana e Hachi ensinaram-me muita coisa a nível pessoal; Hachi ensinou-me a ser carinhosa e a dar oportunidades às pessoas; Nana ensinou-me a ser independente e que inocência a mais é fatal.

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Nana, vocalista dos Black Stones, ou BLAST, é filha única de uma mulher que a abandonou em criança, e de pai incógnito. Cresceu com uma avó muito dura, que não lhe dava liberdade. Foi expulsa da escola secundária por acusações falsas de prostituição, deixando-a com poucos estudos. Após a morte da sua única familiar, Nana decidiu comprar o casaco vermelho de Vivienne Westwood que andava a “namorar” há tanto tempo. Este momento representa a emancipação da personagem, pelo facto de ela poder comprar, com o dinheiro que tanto lhe custou ganhar, um casaco, ainda por cima, vermelho, cor proibida pela avó. É como se se libertasse dos grilhões que lhe tinham sido impostos.

Orgulhosa da sua libertação, e sentindo-se razoavelmente bem, conheceu o amor da sua vida – Honjo Ren, também músico. Pouco mais de um ano depois, este muda-se para Tóquio para começar um projeto numa banda rival, os Trapnest, deixando Nana destroçada e sem perceber se o namoro iria prosseguir ou não, uma vez que não quis ir com ele. Nana não queria que a sua vida girasse à volta do namorado; também ela queria ser uma cantora famosa e conseguir o sucesso por ela mesma e não porque ser a “namorada do Ren“.

Juntamente com Nobu e Yasu, os outros membros de BLAST, Nana continuou a dar espetáculos, a cantar cada vez melhor, a esforçar-se ao máximo para ser a número um naquele pequeno meio, até se cansar completamente. Aí, fez exatamente como Ren – pegou num maço de tabaco e na guitarra, comprou um bilhete de ida para a capital, e lá foi, sozinha, para ganhar terreno aos BLAST face aos Trapnest. O relacionamento entre Ren e Nana tem por base o de Sid e Nancy, cuja banda favorita são os Sex Pistols.

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Hachi é a filha do meio de um casal com três meninas, uma família bastante feliz e algo barulhenta. Acredita profundamente que está assombrada pelo Daimao-sama (ou Demon Lord) por ter pouca sorte no amor e na vida. Embora se chame Nana, foi-lhe dada a alcunha de Hachi, derivada de Hachiko (o fiel cão japonês), pela sua personalidade leal e alegre. Na escola secundária, conheceu a sua melhor amiga, Saotome Junko, mais madura e menos impulsiva, ajudando-a a assentar um pouco mais. Após o secundário, inscreveram-se numa escola de artes local, e aí conheceram Kyosuke e Shouji.

Até então, Hachi nunca tinha tido sorte no amor, pois tinha tendência para se apaixonar facilmente por qualquer homem que lhe desse um pouco mais de atenção. Traída pelas próprias escolhas, e ainda na escola secundária, perdeu a virgindade com um homem casado, Asano. Apesar de saber que este romance não tinha futuro, avançou. Contudo, e apesar de não se sentir usada, caiu na depressão, quando Asano lhe disse que ia para Tóquio, por causa de uma transferência no emprego.

A entrada para a escola de artes seria um novo começo, refrescante, para Hachi, se não fosse a sua viciante tendência de se apaixonar com demasiada facilidade. Shouji conquistou o coração dela, mas o romance não podia durar muito tempo, pois Shouji optou por ir para a faculdade de artes na capital. Sem meios para viver com Hachi e sustentá-la, planeou ir um ano mais cedo, antes de entrar na faculdade, para procurar emprego e casa, e assim fazer um pé de meia. Logo que entrasse na faculdade, avisava Hachi para ela ir ter com ele.

Durante esse ano de espera, Hachi também trabalhou para juntar algum dinheiro para a viagem e a estadia, enquanto não conseguia trabalho ou casa. E foi nessa viagem de comboio para Tóquio que ambas as Nanas se conheceram.

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É maravilhosa a maneira como Yazawa Ai escreveu e ilustrou esta narrativa dramática, mas ainda assim cómica. Conferiu-lhe um nível intelectual e cultural riquíssimo, com referências a marcas e nomes reais, principalmente da moda e do dia-a-dia, e adicionando muitos pontos a uma das melhores histórias de amor que a cultura pop japonesa criou. Mesmo que faça lembrar um pouco o enredo das novelas.

Tanto o anime como o manga têm uma história muito semelhante, embora o final seja diferente. A serialização da banda desenhada ainda não terminou, por doença prolongada da artista, mas do pouco que se avançou, parece-me que o fim do manga acaba por ser exponencialmente mais trágico do que o do anime. Assim, aconselho vivamente a verem o anime e a lerem o manga; num, temos um final hipotético, no outro, temos um cheirinho do que não se viu no anime.

A relação de Nana e Hachi não é amorosa, mas conseguem encontrar, uma na outra, a alma gémea que não obtêm no amor, apesar de serem o oposto uma da outra. É como imaginar uma bolinha cor-de-rosa, muito fofinha e com brilhantes, e outra, preta, com picos de aço e pesada, um caos cromático e de formas organizado, bastando para tal cruzarem os olhares. É uma amizade que pode ser considerada estranha, mas certamente verdadeira em todos os aspetos. Uma amizade que, possivelmente, muitos gostariam de ter.

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A história, contudo, não está adaptada para todas as faixas etárias. O consumo de álcool, droga e tabaco, o nudismo parcial, a prostituição e as cenas sugeridas de sexo, tornam, tanto o anime como o manga, pouco propícios para serem vistos em família. A narrativa crua mostra o quanto se sofre por causa de péssimas decisões e o quão injusta é a vida de um dia para o outro, sem qualquer aviso. Mas, ao mesmo tempo, mostra quão maravilhoso é ter amigos verdadeiros e as surpresas agradáveis que a vida traz, mesmo sem aviso.

A voz de Osaki Nana é dada pela magnífica Romi Park (Hitsugaya em Bleach, Tanaka Yoshitake em Danshi Koukousei no Nichijou, Edward Elric em Fullmetal Alchemist, Kiryuuin Ragyou em Kill la Kill, Temari em Naruto, Naoto em Persona 4 the Animation, Noboru em Rainbow: Nisha Rokubou no Shichinin, Hange Zoë em Shingeki no Kyojin, e podia continuar, porque ela é um espetáculo) e Komatsu Nana é interpretada por Kawana Midori (May em Pokemon Advanced Generation e Marin em Brigadoon: Marin to Melan).

Uma história romântica em modo cru, com mentiras, traições, alegrias e amizades para uma vida inteira. Não é por acaso que o manga é o mais popular do género Shoujo na História, tendo vendido mais de 22 milhões de cópias. O traço esboçado e esguio de Yazawa Ai combina ridiculamente bem com os acessórios de marca, que a mesma escolheu, para ficarem imortalizados neste conto que não é de fadas, mas sim de guerreiras.

Positivo

  • Estilo artístico diferente, mas bem conseguidopn-recomendado-2016
  • Ótima história
  • Transmite bons conhecimentos a nível cultural
  • Diferentes pontos de vista dos problemas apresentados
  • Música excelente
  • Bom leque diversificado de personagens e respetivas personalidades
  • Consegue facilmente mexer com as emoções do visualizador/leitor

Negativo

  • Ocasionais diálogos aborrecidos que não levam a lado nenhum
  • A história precisa URGENTEMENTE de ser terminada. Yazawa-senpai, quando puderes, ’tá?

“Nee Nana, atashitachi no deai wo oboeteru?”
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Sérgio Batista

Escolhido da ‘pug life’ que gosta sempre de arranjar jogos novos para a PS2.
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