Análise – Monster Hunter: World

Monster Hunter: World coloca-nos na pele de um caçador que está a viajar em direcção a um novo mundo, esse significado é mesmo muito especial pois simboliza também a primeira vez em vários anos que um jogo da série assenta numa consola caseira, sem ter raízes numa portátil. Como devem imaginar um jogo que pode ir beber a uma fonte com mais poder, é também ele capaz de evoluir e utilizar um maior leque de recursos para elevar o que já era bom a um novo patamar de qualidade para a série.

Durante os últimos anos, Monster Hunter parecia ter assentado de vez na plataforma portátil da Nintendo. Nesta ele conseguiu espremer o sistema de uma forma positiva e foi também nessa consola que introduziu algumas das minhas mecânicas e armas favoritas, sem sombra de dúvidas que é um regalo para os jogadores que acompanharam a série ver que Monster Hunter: World é uma evolução do que existia de melhor nestas últimas entradas na série.

O novo mundo de Monster Hunter: World convida-nos a explorar novas dimensões deste mundo. A nossa aventura é complementada por cinemáticas que transbordam de essência da série, e pela primeira vez existem vozes, e em várias línguas, incluindo a própria língua do jogo que é bastante satisfatória para fãs de longa data. Para quem é um fã da série sabe que a mistura entre a seriedade dos eventos que enfrentamos em conjunto com as tropelias dos Palico e as personalidades garridas das várias personagens criam momentos únicos e em World estas são uma constante que fortalecem imenso a experiência. Apesar de não ser uma história inédita, é uma história que cumpre um propósito e que nos dá a conhecer um vasto mundo de perigos que os caçadores vão adorar explorar, sem nunca ser algo totalmente incrível, pois o destaque vai todo para a jogabilidade.

Talvez seja melhor deixar algo claro desde já, Monster Hunter não é o típico JRPG de acção. Não esperem evoluir a vossa personagem com níveis, não esperem transformações do dia para a noite e acima de tudo não esperem que tudo vos seja entregue numa bandeja. Este é um jogo que só dá recompensas aos que trabalharam para as ganhar. As mecânicas base de Monster Hunter são simples de entender, a vossa personagem é tão poderosa quanto a vossa habilidade, e as primeiras horas são muito penosas. Começamos com uma personagem com equipamento básico, desde logo podem escolher uma de entre 14 tipos de arma e cada uma delas coloca-vos uma curva de aprendizagem pela frente.

Desde a dupla básica de espada e escudo, passando pelos machados, mocas, lanças e até às armas mais imaginativas, cada uma requer que o jogador se adapte à arma e saiba utilizar da melhor forma o terreno que o rodeia com os meios que tem. As primeiras horas como já disse, são muito complicadas, começamos de forma lenta mas a partir de um certo ponto começamos a caçar os nossos primeiros monstros e a perceber que os materiais que recolhemos podem ser utilizados para fazer uma armadura melhor, que a nossa arma pode ser melhorada e o frenesim instala-se. De um momento para o outro queremos caçar monstros poderosos para conseguir um melhor equipamento para caçarmos monstros ainda mais poderosos; se chegaram até aqui, então sejam bem-vindos a Monster Hunter.

Como já devem ter percebido, este não é um jogo para todos, é um jogo que exige imensa dedicação e tempo. Cada caçada pode demorar meia-hora ou mais, aliás as missões têm um tempo limite e nem sempre vamos obter os recursos que necessitamos para fazer as armaduras e melhoramentos que pretendemos. É então nesta fase que entra o elemento que convence a maioria dos jogadores, o co-op. Podem juntar-se em grupos de até 4 jogadores e caçar em conjunto. O factor cooperativo ajuda a atenuar o efeito da repetição e existem várias formas de se juntarem em grupo.

Cada sessão de jogo pode ser composta por até 16 jogadores que estão albergados na mesma área comum, podendo ou não estar em missão. Esta área tem as várias instalações que são necessárias para os jogadores, desde as personagens que nos dão as missões passando pelo ferreiro, lojas, equipa de pesquisas e botânica etc. O que interessa aqui é que é com estes 16 jogadores que vão estar a realizar missões. Se tiverem amigos na vossa lista podem juntar-se automaticamente à sessão deles ou criarem a vossa e convidá-los, existem mais alguns sistemas que facilitam o encontro entre jogadores mas não é um sistema que funcione a 100%.

Outra alternativa, e aquela que eu mais utilizei para formar uma equipa foi entrar numa missão e disparar um sinal de SOS. Isto cria uma chamada que qualquer caçador pode responder. Basta que no quadro de missões escolha responder a SOS e em pouco tempo entrará na sessão de um jogador que tenha pedido auxilio. Se se decidirem juntar a uma missão que já esteja a decorrer por meios de pesquisa podem também ganhar os mesmos prémios e recompensas se entrarem numa fase inicial, normalmente nos primeiros 10 minutos. Caberá ao jogador que criou a missão colocar ou não uma password. Todos os envolvidos nessa missão irão tê-la como concluída aquando do término bem sucedida da mesma.

No entanto não podia ser tudo bom e eu já fui vítima daquilo a que chamo “aselhice alheia”. As missões têm condições para serem bem sucedidos ou mal sucedidos. Uma das mais comuns para o insucesso é morrerem mais do que X vezes, normalmente são 3, mas não são 3 por jogador, são 3 por equipa o que isto quer dizer é que podem falhar a missão sem terem culpa absolutamente nenhuma e não levam nem uma pedra como recordação, talvez uns trocos.

No que à jogabilidade diz respeito, este é o Monster Hunter mais apurado até à data. Para além de todo um conjunto de ferramentas e instrumentos com vários fins, como camuflagem e caça de espécimes para soltarem no vosso quarto, vão também poder assistir aos comportamentos dos vários monstros que habitam as zonas que vão explorar. Sem sombra de dúvidas que algumas das melhores cenas decorrem quando a meio de uma caçada dois monstros se encontram e decidem ter um combate ali mesmo à vossa frente, e quem diz dois também diz três. Oura mudança é que agora as várias zonas de cada área estão interligadas sem qualquer tipo de loading entre as mesmas, pelo que se torna uma experiência muito mais orgânica. Para nos guiar nas nossas demandas temos acesso a um enxame de pirilampos que nos vão mostrando e destacando os vários objectos com que podemos interagir e até guiar-nos até aos monstros que perseguimos depois de obtermos informações suficientes, é um sistema que funciona como as antigas “paintball“.

Dependendo da vossa destreza e percepção das mecânicas, o jogo pode ser um desafio mais justo ou injusto. Ao contrário dos seus antecessores Monster Hunter: World recompensa o estudo dos monstros que vão encontrando e conforme vão reunindo dados sobre os mesmos vão poder consultar um livro com todos os detalhes sobre os vários monstros, desde os espólios que podem obter, pontos fracos e resistências etc. Uma outra mudança é a aparição de números que indicam o dano feito com cada ataque. Dependendo da cor e do número vão poder perceber de imediato se estão a atingir as partes fracas do monstro ou não, esta mecânica pode ser desligada se preferirem uma experiência mais próxima dos jogos anteriores.

Durante os combates não vão apenas ter que atacar, defender e desviar, vão também ter que afiar a vossa arma, utilizar vários itens de cura e restauração e de preferência fazê-lo em segurança. Esta mistura entre momentos de acção e fuga acabam por ser frenéticos e algumas batalhas que duram 30 minutos parecem passar-se em pouco mais de 5 minutos. Se estiverem sozinhos ou apenas com um outro jogador vão ter a ajuda do vosso Palico, este pode ser personalizado por vocês e torna-se bastante útil e por vezes um salva-vidas. Existem várias vertentes a ter em conta durante os combates, desde o terreno à possibilidade de montar os monstros e procurar os seus pontos fracos etc. Estas batalhas vão ficando mais fáceis conforme vão tendo acesso a melhores armas e armaduras e também com o reconhecimento dos padrões de cada monstro. Ainda assim é um processo moroso.

Antes das lutas vão também poder fortalecer o vosso caçador através de refeições que conferem diferentes bónus. Estas vão melhorando também desde que vão fazendo algumas missões secundárias. Durante o jogo vão encontrar várias missões secundárias que têm objectivos diferentes das habituais caçadas e que normalmente têm como objectivo melhorar alguma loja da vossa base.

Ainda dentro dos vários modos existentes temos as arenas, onde vão encontrar vários desafios, caçadas secundárias que propõem objectivos extra em cada zona e têm ainda algumas missões com objectivos especiais e recompensas, também elas especiais. Temos também os eventos temporários e algumas missões que aparecem apenas de tempos a tempos.

A partir de um certo ponto do jogo vão começar a ver alguma repetição no que diz respeito a monstros, mas estes não são de todo pêra doce. Estes aparecem como sendo versões mais poderosas de monstros que já encontraram e para além de estenderem um pouco a história dão aso a uma nova vaga de armaduras e armas mais poderosas assim como desafios brutais. A partir deste ponto do jogo podemos dizer que acabou a fase de aprendizagem e os verdadeiros desafios têm início.

Felizmente Monster Hunter: World é um jogo que se esforça por dar a conhecer as suas mecânicas a uma nova audiência e se para mim não é novidade nenhuma que tenho que colocar uma armadilha no chão, atrair o monstro e descarregar umas quantas bombas soporíferas para o enjaular, para os novatos este processo parece demasiado complexo, assim sendo antes de cada uma destas missões existe um pequeno tutorial que explica exactamente o que têm de fazer.

Esta foi mesmo a sensação com que fiquei de Monster Hunter: World, é um jogo que respeita o seu legado e agrada tanto aos fãs da série como a novos jogadores. A simplificação de algumas mecânicas é muito bem-vinda e no geral é um jogo que exige menos grind do que os seus antecessores, ainda que seja igualmente desafiante. Monster Hunter: World é um excelente ponto de entrada na série para os interessados e um regressar em grande às consolas caseiras, aliás é o melhor jogo de Monster Hunter já feito. É um jogo extremamente divertido e que nos leva a colocar objectivos pessoais em cima daqueles que nos são propostos pelo jogo, afinal de contas uma armadura de Rathalos não se faz sozinha…

Positivo

  • Apresentação
  • Jogabilidade afinada
  • Combates épicos
  • Diversidade de mecânicas e várias abordagens possíveis a uma mesma situação
  • Desafiante na medida certa para obrigar o jogador a melhorar
  • Jogar em sessões cooperativas é uma experiência imensamente divertida
  • Várias horas de conteúdo
  • Um belo esforço para contar uma história…

Negativo

  • …que não surpreende
  • “Aselhice alheia” é e será sempre um castigo injusto

Alexandre Barbosa

Videojogos e séries de TV são o seu meio de entretenimento favorito. Desde jogos de plataformas a RPGs todos os jogos são um hipotético interesse. Ganhou também alguns traumas com certos videojogos mas isso já era de esperar. Agora já posso parar de falar sobre mim na 3ª pessoa?

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Alexandre Barbosa

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