Análise – Metal Gear Solid V: The Phantom Pain

metal-gear-solid-v-5-the-phantom-pain-ana-00-pn

Eu conheci a série Metal Gear quando joguei o primeiro Metal Gear Solid da PlayStation original há 5 anos atrás. O jogo supreendeu-me mais do que estava à espera, tornando-se num dos meus jogos favoritos de sempre. Talvez tenha gostado demasiado daquilo, porque os restantes jogos da série nunca me fascinaram da mesma forma. Continuam a ser jogos únicos e de boa qualidade, apenas não estava a gostar do caminho que a série estava a seguir, com conspirações cada vez mais difíceis de acompanhar e situações ridículas sem grande sentido. Verdade seja dita, o primeiro Metal Gear Solid também tinha estes elementos todos, mas sinto que havia um melhor equilíbrio.

É por isso que sempre fiquei com a ideia de que o Hideo Kojima começou a ficar demasiado “criativo” no que estava a fazer a partir daí, nunca havendo ninguém atrás para avisar que algo estava fora de contexto ou que uma cutscenes estava longa demais. No entanto, muita gente adora exactamente isso nele e é o que torna a série tão marcante. Por isso mesmo, Metal Gear Solid V: The Phantom Pain é capaz de me ter feito apreciar um pouco mais o trabalho de Kojima.

metal-gear-solid-v-5-the-phantom-pain-ana-001-pn

Seguindo os eventos de Metal Gear Solid V: Ground Zeroes e a destruição da Mother Base, a história começa com Big Boss a acordar de um coma de 9 anos e a tentar escapar do hospital quando é atacado. A sequência inicial não criou as melhores primeiras impressões, sendo demasiado lenta e prolongada, restringindo o jogador a mover apenas para a frente na maioria das vezes. Após serem salvos por Ocelot, o vosso próximo objectivo é resgatar Kazuhira Miller no Afeganistão e é aqui que o jogo demonstrar o que vale.

Ao contrário dos jogos anteriores, The Phantom Pain optou por um formato de mundo aberto, o que permite mais liberdade na forma como abordamos cada missão. Já não estão limitados a pequenas áreas e a uma forma específica de resolver um problema, o jogo dá a chance de sermos criativos e de jogarmos à nossa maneira. É claro que continua a ser mais vantajoso a abordagem furtiva, uma vez que a nossa personagem pode morrer num instante se não tivermos cuidado.

metal-gear-solid-v-5-the-phantom-pain-ana-002-pn

Para quem jogou Ground Zeroes, já tem uma ideia como é que a jogabilidade funciona e os controlos estão melhores que nunca. Tudo parece mais fácil aqui do que em outros Metal Gear mas não deixa de ser complexo. Uma das minhas mecânicas favoritas é o quick dive que permite deitar-nos imediatamente no chão com apenas um pressionar dum botão. É perfeito para nos ocultarmos rapidamente caso sejamos quase vistos ou para nos desviarmos dum ataque, além de ser uma boa forma de derrubar pessoas para o chão.

Duas das maiores novidades introduzidas em Ground Zeroes são a marcação de inimigos e o reflex mode. Com a ajuda dos binóculos, ou Int-Scope como o jogo prefere chamar, podemos marcar inimigos à distância para ter sempre noção onde é que andam e até ver informações sobre eles após alguns upgrades. No entanto, pode sempre escapar um e serem apanhados de surpresa, e é aqui que o reflex mode entra em ação, dando a chance de neutralizar o inimigo que vos viu antes de alertar toda a gente. Se não gostarem do reflex mode, podem sempre desativar nas opções do jogo. Mas não subestimem os vossos adversários, desta vez eles são mais espertos e conseguem ver melhor ao longe.

metal-gear-solid-v-5-the-phantom-pain-ana-003-pn

Após salvar o Miller, são introduzidos à vossa nova Mother Base onde têm que ajudar Diamond Dogs, um novo grupo de mercenários, a crescer e encontrar os responsáveis pela destruição da vossa antiga base há 9 anos atrás. Para tal, vão precisar de mais pessoas, e como acontecia em Peace Walker, vão ter que capturar soldados inimigos e lançá-los pelos ares com o balão Fultron. Depois de uma pequena terapia com o Ocelot, tornam-se rapidamente em fanboys de Big Boss. E não é só em soldados que podem usar o balão Fultron, podem capturar animais, contentores, veículos, essencialmente tudo o que se mexe.

À medida que ganham mais soldados e recursos, a vossa Mother Base vai crescer, permitindo criar novos itens e usufruir de algumas ajudas enquanto estão em missões. Podia visitar a Mother Base apenas quando é necessário para progredir no jogo, mas eu tinha o hábito de ir para lá cada vez que concluía uma missão e era onde aproveitava para fazer melhoramentos ou para ouvir as cassetes que dão mais informações sobre a história. Tirando as missões secundárias de eliminação de alvos que são bastante simples (excepto uma que é estupidamente difícil), não há muito para fazer na Mother Base. O único incentivo que podem ter em visitar a Mother Base regularmente é para tomar banho que dá certos benefícios temporários, como mais HP e tempo no reflex mode. Se voltarem à Mother Base após muito tempo sem tomar banho, vão ter problemas com o Ocelot.

metal-gear-solid-v-5-the-phantom-pain-ana-004-pn

Apesar de Big Boss preferir trabalhar sozinho, agora tem a hipótese de levar um parceiro nas suas missões, mais uma mecânica nova na série. O primeiro parceiro que obtêm em Metal Gear Solid V: The Phantom Pain é o D-Horse cuja a sua única utilidade é para transporte (a não ser que alguém pensa que mandá-lo defecar à nossa ordem tenha alguma vantagem estratégica). Se encontrarem um pequeno cãozinho perdido no deserto e o capturarem, estão a caminho de ter um dos parceiros mais úteis para quem prefere ser furtivo. Assim que estiver mais crescido, podem levar o D-Dog convosco e ele pode marcar animais, plantas e animais a uma certa distância pelo cheiro, eliminando a necessidade de utilizar tantas vezes os binóculos.

Outra parceira que podem ter é a Quiet, uma sniper que se tornou um pouco infame desde que foi revelada devido aos seus trajes menores, e acreditem ou não, isto tem uma justificação plausível. Após um combate que faz lembrar os confrontos com o The End de Metal Gear Solid 3: Snake Eater, têm a opção de a capturar e mais tarde levar convosco para as missões. Podem enviá-la para um posto inimigo para detectar inimigos e colocá-la em pontos específicos do mapa para atacar. Inicialmente não era a parceira ideal para mim porque não tinha uma arma com supressor, mas à medida que a vossa relação melhora, ganham acesso a novos equipamentos e ordens, permitindo ajustá-la ao meu estilo de jogo. Apesar de muita gente julgá-la injustamente apenas pelo seu aspecto, Quiet revelou ser uma personagem bastante importante para a história e tornou-se numa das minhas personagens favoritas do jogo.

metal-gear-solid-v-5-the-phantom-pain-ana-005-pn

Quando vão iniciar uma missão ou simplesmente explorar uma das duas áreas do jogo, vão para um ecrã de preparação onde escolham o vosso equipamento, parceiro e veículo. Eu nunca mudei drasticamente o meu layout principal, focando mais em armas com supressores, mas existem dezenas de armas e ferramentas à vossa escolha. Apenas têm que ter atenção ao facto de se gastar GMP (a moeda do jogo) cada vez que são transportados, com o valor que é gasto a depender do que levam. Aliás, quase tudo o que fazem gasta GMP, como usar balões Fultron ou chamar um helicóptero para vos buscar. Sempre que concluía uma missão quando deslocava para o mundo aberto, ou realizava várias coisas que davam GMP, acabava sempre por compensar os gastos. O GMP também é usado para criar armas e expandir a Mother Base e têm que tentar ser poupados, porque se o GMP ficar negativo, a moral dos vossos soldados vai baixar e correm o risco deles abandonarem a base

Em vários aspectos, Metal Gear Solid V: The Phantom Pain é semelhante a Peace Walker. Tal como a tagline Tactical Espionage Operations sugere, vão realizar operações de diferentes objectivos. Nem todas vão ter relevância para a história em geral, mas continuam a ajudar no crescimento da Diamond Dogs. Sempre que iniciam uma missão, passam créditos de quem participa e quem preparou o nível, como se cada missão fosse o seu próprio filme. Por adorável que seja este detalhe, acaba por spoilar um pouco da missão. Para além das missões principais, têm mais de 150 missões secundárias para fazer, com variedade suficiente para não se tornarem repetitivas. Metal Gear Solid V: The Phantom Pain tem dezenas de horas de conteúdo e mesmo quando julgam que estão a terminar o jogo após tanto tempo a jogar, são relembrados que estavam apenas no primeiro capítulo do jogo e que há mais ainda para fazer no segundo. Agora se aquilo merecer ser qualificado como segundo capítulo é outra história, mas já falamos mais disso.

metal-gear-solid-v-5-the-phantom-pain-ana-006-pn

Muitos corajosos decidiram iniciarem-se na série Metal Gear por este jogo, e felizmente para eles, a história do não é tão pesada como os anteriores. Quem conhece Metal Gear há mais tempo vai entender melhor certos detalhes, mas a premissa principal de Metal Gear Solid V: The Phantom Pain não depende do conhecimento extenso de acontecimentos da série, uma vez que vão estar mais focados no crescimento da Diamond Dogs. As cutscenes também não são tão agressivas e são mais doseadas, guardando grande parte das explicações nas cassetes de audio. Mesmo que uma cutscene possa durar mais de 15 minutos, vão ter no mínimo uma hora de jogabilidade entre elas, o que não é um mau equilíbrio. Até os elementos sobrenaturais ganham mais destaque neste jogo, que podem ou não ser alucinações causadas pelo estilhaço na cabeça de Big Boss.

No entanto, alguns fãs podem ficar desiludidos com a história. Para quem não sabe, Big Boss era o vilão dos Metal Gear da MSX, e desde Metal Gear Solid 3 que muita gente, incluindo eu, queria ver essa transformação acontecer. Metal Gear Solid V: The Phantom Pain não mostra isso, há pequenos momentos que parecem caminhar para esse lado mas fazem logo inversão de marcha. No geral, a história não parece ter uma grande relevância para a série em si, tirando um plot twist que faz menos sentido cada vez que penso mais nele e que não vai ser do agrado de alguns fãs. Também não ajuda o facto de Big Boss estar quase sempre calado nos momentos mais importantes do jogo, uma característica que já não gostava da personagem desde o Metal Gear Solid 3. Acredito que usar a voz do Kiefer Sutherland não deve ter sido barato e até pode ser propositado que fale tão pouco, apenas gostaria um pouco mais de feedback do protagonista do jogo.

metal-gear-solid-v-5-the-phantom-pain-ana-007-pn

Depois temos o maior pecado de Metal Gear Solid V: The Phantom Pain… a história está incompleta. Como referi antes, após resolver o conflito principal do jogo, chegam ao segundo capítulo, que mais vale ser visto como conteúdo pós-crédito do que outra coisa. Este “capítulo” responde a algumas das pontas soltas deixadas pelo capítulo anterior, nomeadamente o plot twist que referi, e é aqui que o jogo perde-se um bocado. Os eventos de história decorrem em intervalos aleatórios misturados com missões repetidas de dificuldade maior. Algumas das melhores momentos do jogo decorrem aqui e é onde vão assistir ao verdadeiro final, só que tudo parece que foi atirado ao molho e vamos tentando arranjar alguma satisfação numa conclusão aos poucos.

Se querem uma melhor indicação de que o jogo foi terminado antes do tempo, a edição de coleccionador incluí um vídeo de uma suposta última missão que provavelmente teria a melhor boss fight de todo o jogo e ainda esclarece uma ponta solta que continuava sem resposta. Se isto foi causado devido a cumprimento de datas de lançamento, falta de orçamento, “atrofios” entre a Konami e o Hideo Kojima, ou tudo ao mesmo tempo, nunca vamos saber, mas é uma pena que o último Metal Gear Solid criado pelo Kojima tenha um sabor um pouco agridoce.

metal-gear-solid-v-5-the-phantom-pain-ana-008-pn

Apesar de tudo, mesmo reconhecendo as falhas do jogo, eu adorei jogar Metal Gear Solid V: The Phantom Pain. Se não fosse o caso, eu não teria mais de 80 horas registadas no jogo. Acabei por não chegar a falar de muita coisa, como os truques espectaculares que podem fazer com a caixa de cartão, as cassetes de músicas pop dos anos 80 que estão espalhadas pelo jogo e as mil e uma maneiras que existem para “trollar” com um soldado. Ainda existe um pseudo-PvP estilo Dark Souls onde podem ser grandes bestas e invadir as bases doutros jogadores e roubar soldados e recursos. Mesmo a correr nas definições quase mínimos no computador em que joguei, quase sempre entre os 25 e 30 fps, eu não tenho medo em afirmar que é um dos jogos com os gráficos mais bonitos deste ano. Há muito para discutir e esmiuçar, algo que não posso fazer aqui por razões óbvias. Talvez nos comentários ou até mesmo num futuro spoilercast.

Metal Gear Solid V: The Phantom Pain não é o meu favorito da série mas está muito próximo disso. É diferente de todos os outros Metal Gear Solid anteriores, e ao mesmo o tempo, o culminar de tudo o que a série tem vindo a construir, sempre com uma grande atenção aos pormenores. É certo que vai haver outros Metal Gear no futuro sem o envolvimento de Hideo Kojima. Talvez nunca vão ser tão bons como os anteriores, talvez até vão ser muito melhores, mas uma coisa é certa: não vão ser a mesma coisa sem ele.

metal-gear-solid-v-recebe-imagens-em-1080p-pn-n06

 

Opinião extra por:
Daniel Silvestre

Quem o viu e quem o vê. O tempo que passou desde que Metal Gear foi lançado e o quanto evoluiu ao longo de tantos anos.

Com cada lançamento, comecei a gostar mais da saga de Snake e Big Boss, por isso, as expectativas eram enormes para este jogo. Felizmente, correspondidas (especialmente depois do desapontante Ground Zeroes).

metal-gear-solid-v-recebe-imagens-em-1080p-pn-n29

Cada Metal Gear Solid sabe a algo diferente, como se fosse um prato de comida distinto. Metal Gear Solid 5: The Phantom Pain é um daqueles pratos que tem muito para degustar, com vários sabores misturados.

A versão que joguei foi a de PS4, a qual tem uma prestação bastante boa. O visual é óptimo, a fluídez praticamente constante e a jogabilidade bem correspondida.

metal-gear-solid-v-recebe-imagens-em-1080p-pn-n15

Todos sabem que queria David Hayter como Snake e a voz de Keifer Sutherland ainda me mete confusão, mas no geral, é um excelente trabalho vocal e musical.

Onde Metal Gear Solid 5: The Phantom Pain me parece falhar, é na forma como fecha a saga, parecendo faltar peças no puzzle, talvez mais um jogo. Mas agora com Kojima fora da Konami, o rumo irá ser certamente diferente.

metal-gear-solid-v-recebe-imagens-em-1080p-pn-n11

Tantos anos depois, Metal Gear Solid é uma série que prova a mestria do seu criador e a capacidade de se adaptar à mudança dos tempos. Esta saga vai ficar certamente marcada na memória de todos e Metal Gear Solid 5: The Phantom Pain é mais um jogo de génio para finalizar um legado de génio.

Positivo

  • Mundo aberto e as possibilidades que dá à jogabilidadepn-recomendado-ana
  • Mais tolerante para jogadores novos da série
  • Dezenas de horas de conteúdo

Negativo

  • História deixa muito a desejar
  • Não há muito a fazer na Mother Base
  • Notificações irritantes sempre que inicio o jogo

pn-muitobom-ana

Sérgio Batista

Membro do PróximoNível desde 2015. Tira fotos em demasia durante os eventos.

More Posts

Follow Me:
TwitterYouTube

Sérgio Batista

Membro do PróximoNível desde 2015. Tira fotos em demasia durante os eventos.