Análise – Mass Effect: Andromeda

Mass Effect: Andromeda é um jogo muito esperado pelos fãs da trilogia original e também um dos jogos mais polémicos dos últimos tempos. A polémica instalou-se com o aparecimento de alguns segmentos de jogabilidade em que algumas animações no mínimo desastrosas causaram uma revolta e infinitas comparações que ridicularizaram o produto final da BioWare. Da minha parte mantive-me afastado da ideia que isso iria arruinar a minha experiência e estava certo, a versão que está aqui em análise é a versão PS4 e posso afirmar que pelo menos esta não me proporcionou nenhum desses infames momentos.

As animações faciais e o resultado final das vozes das personagens é outro factor que tem sido alvo da várias críticas e aqui tenho que concordar. Consigo pensar apenas numa mão cheia de personagens que efectivamente estão bem trabalhados no que diz respeito às vozes e numa mão mais pequenas das que até nem estão más quanto a expressões faciais, nomeadamente os Krogan que estão tal e qual como os originais ou até os Turian que têm a cara coberta por metal. As personagens humanas parecem ter pontos da cara fixos e na maioria dos momentos acusam animações estranhas ao momento ou até estranhas de todo, existem outros momentos, que são uma minoria, em que realmente tudo corre como o esperado. De um modo geral diria mesmo que era necessário um maior polimento das animações de forma geral, não só no que toca a caras. Afinal de contas BioWare não é uma estranha ao motor Frostbite, Dragon Age Inquisition correu bem a meu ver, daí eu estar admirado com este resultado.

Falando então de Dragon Age: Inquisition e do motor Frostbite é notório que Mass Effect Adnromeda veio beber bastante a este jogo. Desde os menus que funcionam de forma idêntica, com as óbvias diferenças gráficas e que se estendem às conversas que decorrem da mesma forma que decorriam em Dragon Age Inquisition, Mass Effect Andromeda reciclou estes sistemas sem ter atenção a alguns resultados. É que até a recolha de minerais é igual. Em suma, estando a trabalhar pela segunda vez com este motor e sendo mais do que óbvias as parecenças, penso que consegui resolver o mistério por de trás do porquê de Mass Effect Andromeda ser o melhor exemplo de más decisões.

Ora bem, Dragon Age Inquisition tem um sistema de mundo semi-aberto que consiste em grandes áreas para explorar com pontos de interesse espalhados nessa área e uma distribuição de inimigos em algumas fortalezas, vida selvagem dócil ou nem por isso e como um todo existe uma região bem construída e repleta de segredos que agarra os jogadores do início ao fim. Com um sistema tão gabado é óbvio que deverá funcionar em Mass Effect. Duas palavras: Não funciona. Esta ideia de mundo aberto não é nova a Mass Effect, o original tentou e as suas duas sequelas retiraram essa porção do jogo porque era algo que não se enquadrava, mas decidiram tentar outra vez e apesar de não ser uma má experiência, aliás os primeiros planetas transmitem uma sensação de exploração que vai de encontro ao propósito do jogo, é com o passar do tempo que este se torna um mau sistema. Depois de explorar o primeiro, os subsequentes planetas a explorar parecem ser mais do mesmo com um novo pano de fundo. Ainda assim estas áreas para explorar representam apenas um tipo de ambiente e o jogo gosta de deixar de forma implícita que todo o planeta tem esse ambiente, torna-se um pouco ridículo ver vários planetas desta forma, planeta do deserto, planeta da selva, planeta do gelo… Algo que também contribui de certa forma para que tudo pareça igual é a pouca diversidade de vida selvagem espalhada pelos vários planetas, o nosso scanner é capaz de identificar praticamente tudo mas depois do primeiro planeta em que tudo é novo, os seguintes acrescentam poucas novidades em todas as frentes.

Em todos os planetas passa-se a mesma coisa, activar 3 monólitos, activar os vários pontos de fast travel, investigar pontos pertencentes aos Remnant, activar o Vault de cada planeta, concluir a missão principal de cada planeta que é a única variante de local e finalmente criar uma colónia. Isto é o que fazemos em todos os planetas, como devem imaginar são áreas bastante grandes e requerem o uso do Nomad o novo meio de transporte e a versão melhorada do Mako que curiosamente não tem um canhão, mas tem tracção às 6 rodas para subir pedregulhos. O Nomad é sem dúvida uma melhoria em relação ao seu antecessor mas não deixa de ser uma desculpa reles para ir de ponto A a ponto B que se torna cansativa, porque mais uma vez, Mass Effect Andromeda não precisa das mecânicas Open World. As melhores missões não decorrem sequer nestes segmentos. É óbvio que as secções Open World são fulcrais para o tema da exploração de novos mundos, mas deviam ter sido utilizadas de forma a fortalecer a experiência, de modo a recompensar o jogador, o foco deveria ter permanecido nas missões mais lineares com mais acção e pequenos segmentos de exploração, em vez disso temos o inverso. São segmentos obrigatórios de exploração daquilo que já vimos no primeiro planeta, a única coisa que conseguem é estender o tempo de jogo de forma aborrecida depois de uma primeira experiência em que tudo é novo.

Mass Effect Andromeda sofre de um problema de ego exagerado em alguns momentos, mais especificamente no que diz respeito às viagens entre planetas. Sempre que seleccionamos um destino vemos um vórtice a formar-se em nosso redor, sim porque estamos numa perspectiva de 1ª pessoa, e lá vamos nós em viagem até ao planeta de destino apenas para fazer um close-up e 3 segundos depois voltar atrás e ver o planeta inteiro. É uma cinemática que perde o impacto com o tempo e repetição tornado-se incrivelmente aborrecida, sobretudo quando temos várias dezenas de planetas para explorar constantemente.

Como é óbvio sempre que encontramos algum ponto de interesse, é provável encontrarmos inimigos, e aqui entra o sistema de combate. Apesar de parecer igual aos anteriores existem aqui alterações, para começar a hipótese de utilizar os especiais dos outros dois membros da nossa equipa foi removida, estão a ver aquele momento em que um Concussive Shot poderia salvar-vos a pele mas o vosso parceiro não se apercebe e tudo poderia ser resolvido se pudessem utilizar esse poder? Agora podem perecer sabendo que poderiam ter evitado isso caso esta opção se tivesse mantido. Aquele momento em que podiam curar a vossa vida? Foi substituído por outro melhor com um sistema mais vasto e que permite o uso de items com um espectro de utilizações mais variado desde modificar a vossa munição para munição congelante ou flamejante, recuperar o escudo imediatamente, etc. Finalmente passamos a ter apenas 3 poderes activos em simultâneo mas com a possibilidade de trocar de perfis a meio da batalha, podendo criar até 4 perfis. Cada perfil contém 3 espaços para poderes diferentes e dá bónus diferentes consoante a especialização activa em cada um, sempre que trocarem de perfil a meio de uma batalha saibam que tudo entra em cooldown. Em suma o sistema de batalha está diferente e na minha opinião para melhor, exceptuando o detalhe de não podermos controlar os especiais dos outros membros da equipa.

No entanto ainda dentro do que diz respeito a lutas, podemos carregar até 4 armas para a batalha, inicialmente são duas mas podem evoluir essa capacidade. As armas são uma agradável surpresa existindo bastante variedade dentro de cada tipo de arma. Para conseguirem aceder à maioria das armas vão ter que criar os planos da arma e depois construir a arma em si, isso custará recursos que podem ser comprados ou reunidos enquanto exploram. Para adicionar ainda mais personalização a cada arma ou mesmo armadura que funciona com o mesmo sistema, podem adicionar módulos que adicionam efeitos secundários. As várias personagens, e apesar de achar que a nossa equipa não cobre todas as necessidades podendo ser feita apenas de entre 6 possíveis recrutas, podem ser evoluídas. As personagens da nossa equipa têm uma Skill Tree bastante simples, já a nossa personagem pode literalmente transformar-se naquilo que quisermos tendo tudo em aberto, podem criar as combinações que vos apetecer. Isto é bom e mau uma vez que um jogador experiente pode tirar partido do sistema para criar uma personagem com combinações excelente e um jogador menos experiente pode acabar com uma personagem que não faz nada que se aproveite. No entanto para esses jogadores existe a hipótese de melhorar a personagem automaticamente.

Já que estamos dentro do assunto de personalização da personagem, tal como nos anteriores podem personalizar padrões e cores nas vossas armaduras mas aquilo que realmente se quer é criar a nossa personagem à nossa medida e aqui voltamos a ficar desanimados. Estamos em 2017 e o sistema de criação da nossa personagem continua a ser arcaico, acho que nunca senti tanta dificuldade a criar uma personagem como aqui. Tudo é feito tendo por base modelos pré feitos que são alterados posteriormente, devo dizer que até chegar a este belo focinho (podem ver a imagem abaixo) existiram verdadeiras aberrações pelo meio, e sim, não o considero perfeito mas de entre as minhas hipóteses e relutância em escolher o modelo base diria que é uma obra prima. Certamente melhor que um certo busto, num certo aeroporto. É verdadeiramente complicado de criar uma personagem a que chamemos nossa com escolhas tão limitadas.

A história deste Mass Effect é complicada de explicar, a início parece que estamos a reviver a trilogia anterior tendo em conta os objectivos das raças envolvidas, mas pela altura em que a história tem a sua conclusão essa ideia já estará desfeita; embora demore imenso tempo até que tal aconteça. A história principal pode ser terminada em cerca de 20 horas, e se a vossa ideia passa apenas por jogar Mass Effect pela mesma, recomendo que joguem outra coisa, não pela falta de bons momentos, que existem, especialmente perto do fim, mas porque a experiência que vão ter irá estar extremamente incompleta. Mass Effect Andromeda só atinge os seus pontos altos com a exploração acérrima das várias relações que são desenvolvidas durante o decorrer da aventura principal, é um daqueles casos em que sair do nosso caminho para explorar as missões secundárias vale a pena. Tudo isto é complementado com um vilão que representa os Kett, a nova raça que nos quer fazer a folha, e infelizmente acaba por estar ausente durante grande parte da história. Algo que era esperado era vermos novas raças na nova galáxia no entanto quando falamos de raças inteligentes encontramos muito menos do que o esperado, apesar de ser algo que poderá ser rectificado numa possível sequela.

Se há algo que Mass Effect Andromeda faz realmente bem são as suas missões secundárias que envolvem temáticas diversas desde missões para descobrir novas bebidas, missões de traição, assassinatos, desconfianças, objectivos pessoais e de relação. Existe um leque imensamente vasto de missões para concluir e muitas delas com resoluções distintas que ficam a nosso cargo. Até existem missões em que nos tentam enganar. Estas missões são também concluídas de várias formas, existem missões que requerem falar com outras personagens sem sequer apontar a arma, outras requerem exploração ou conhecimento sobre algo e claro missões que requerem combate. No entanto aquilo que retiramos destas é muitas das vezes o relacionamento com outras personagens, e os créditos. Algumas personagens estão claramente relegadas para segundo plano e estão lá para nos dar uma dada missão, outras parecem ser personagens de segundo plano mas é provável que a sua evolução dê para algo mais do que um olá. Já outras personagens como as que integram a nossa tripulação são personagens mais recorrentes e que têm claramente mais a dizer do que aparentam. De entre todas estas personagens certamente conseguirão construir uma relação especial e até espacial se estiverem virados para esse lado. O que é interessante é que o vosso envolvimento amoroso irá interagir convosco em certos momentos e acaba por dar um impacto maior à história como um todo.

Como já disse as conversas têm sempre várias interações escolhidas por nós mas aquele sistema de Renegade/Paragon dos anteriores ficou na Via Láctea. Agora somos nós que temos que reter a informação do nosso comportamento assim como a forma como os outros interagem connosco, é sem dúvida um sistema mais aberto. No entanto os diálogos nem sempre estão ao nível que esperamos, especialmente nas vozes. Existem aqui personagens com vozes que não encaixam, o exemplo mais notório é uma Krogan logo no início do jogo que tem uma voz quase doce e todos nós, fãs de Mass Effect, sabemos perfeitamente que um Krogan é uma máquina de guerra e fúria que nunca teria uma voz como essa. A história que nos é contada como um todo, ou seja, quer pelo avançar da história quer pelas relações que vamos criando. No entanto a maioria das cinemáticas acaba por ser assombrada por animações estranhas, tanto faciais como corporais.

Mass Effect Andromeda utiliza uma técnica para suavizar a nossa experiência que não me agradou nada. Para começar existe um círculo em nosso redor que tem cerca de 5 metros de raio onde as texturas são carregadas na máxima definição e até a vegetação decide dar o ar da sua graça, depois existem um outro maior onde obejctos secundários não aparecem e as texturas estão mais fracas; finalmente uma terceira área onde até os inimigos fazem pop up e parecem movimentar-se a 5 fps. Como um todo é um aspecto consistente que só mostra as manhas quando o vimos de perto.

Outro problema que acontece com alguma frequência é o ponto de spawn de inimigos que muitas vezes faz com que existam 2 ou 3 inimigos a pairar no ar à espera de serem atingidos. Quando saímos do Nomad os nossos companheiros de equipa também podem acabar por aparecer a algumas dezenas de metros de distância em vez de estarem ao nosso lado.

Mass Effect Andromeda conta com um modo multijogador online onde 4 jogadores enfrentam hordas de inimigos. Este modo é bastante parecido ao que vimos em Mass Effect 3 e até está inserido de certa forma na história principal. Neste modo nós somos soldados da APEX a defender vários postos que albergam os nossos residentes em Andromeda. É uma distracção engraçada apesar de não ter potêncial para se manter divertido por muito tempo.

A banda sonora tem momentos fantásticos capazes de nos deixarem com arrepios, durante a minha experiência especialmente no início e na recta final do jogo senti-me completamente absorvido pelo jogo e em parte atribuo a culpa à fantástica banda sonora. Desde os efeitos sonoros no espaço ao som ambiente dos vários planetas é uma experiência positiva e coesa.

Do meu ponto de vista pessoal mal posso esperar para voltar a Mass Effect Andromeda e explorar outras opções de conversação e até algumas missões que acabei por deixar de lado, como fã desta série fiquei satisfeito com a grande maioria do que encontrei e penso que esta é uma boa fundação para uma sequela. Ainda assim essa é a minha opinião pessoal, pois tecnicamente e de um ponto de vista em que esqueço que sou fã do jogo, aquilo que fica é um produto que tinha muito potencial mas acaba por não o conseguir alcançar na sua totalidade. Vários problemas e bugs são recorrentes durante a experiência, os diálogos conseguem ser uma estranha mistura entre algumas falas forçadas como piadas e por vazes até utilizadas em exagero durante certas situações e em simultâneo entregar algumas conversas bem idealizadas e executadas. Para os fãs como eu existem também imensos documentos para encontrar repletos de histórias e informações suculentas do universo do jogo que muitas vezes me fizeram passar horas a ler ou ouvir as VI. Este consegue ser um ponto de início para novos jogadores não sendo de todo necessário jogar a trilogia original e penso que quem goste de RPG’s e do tema do jogo irá certamente apreciar tudo aquilo que Mass Effect Andromeda tem para oferecer.

Enquanto exploramos acabamos por dar de caras com um pouco de tudo, infelizmente sinto que como um todo a exploração dos vários mundos se torna enfadonha para todos. Mesmo para mim que estava bastante investido em fazer todas as missões secundárias e por isso tinha motivo para explorar todas as zonas, comecei a cansar-me  rapidamente depois do primeiro planeta. Tudo parece igual mas com um tema diferente por planeta. Se não forem grandes fãs de completar vários objectivos secundários e com uma história principal que só se torna verdadeiramente interessante nos seus momentos finais, este é um jogo que é claramente destinado a fãs da série e a quem goste realmente de RPG’s. Como um todo penso que a experiência fala mais alto do que os problemas, mas ainda assim eles existem e são eles que fazem com que Mass Effect Andromeda não consiga ser um jogo tão bom como poderia.

Positivo

  • Sistema de evolução
  • Relações entre as várias personagens
  • Banda sonora
  • Lore
  • História como um todo funciona bastante bem
  • Exploração dos planetas…

Negativo

  • …apesar de se tornar repetitivo nos seguintes planetas
  • O vilão é uma desgraça
  • Vários problemas de animações e vozes
  • Bugs recorrentes

Alexandre Barbosa

Videojogos e séries de TV são o seu meio de entretenimento favorito. Desde jogos de plataformas a RPGs todos os jogos são um hipotético interesse. Ganhou também alguns traumas com certos videojogos mas isso já era de esperar. Agora já posso parar de falar sobre mim na 3ª pessoa?

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