Análise – Marvel’s Spider-Man

Quando Marvel’s Spider-Man foi apresentado com jogabilidade durante a conferência da Sony na E3 2017, fiquei um pouco de pé atrás. Tudo parecia demasiado familiar e nada do que vi me pareceu inovador, mas como diz o ditado: “As aparências enganam.”

No início de Agosto fomos convidados a assistir à apresentação de Marvel’s Spider-Man. Foi a primeira vez que o jogo realmente me mostrou algo que não me tinha apercebido até então, jogar como Spider-Man é demasiado divertido para estar preocupado com inovação. Por vezes não é preciso reinventar a roda para conseguir algo espectacular. No caso de Marvel’s Spider-Man, o jogo faz aquilo que outros fizeram e tentaram fazer, mas melhor.

Como felizmente não vamos ter que ser expostos a mais uma história de origem de Spider-Man, o jogo perde pouco tempo com apresentações. Aliás, o jogo parte imediatamente do principio que sabemos quem são os personagens, e quem não souber também não se irá sentir à parte uma vez que existem tácticas utilizadas pela Insomniac Games para dar a entender quem é quem. Uma outra parte bastante importante deste jogo é que a história se passa num universo original. Quer isto dizer que muitas das personagens que conhecemos e que estão aqui presentes, têm papeis diferentes dos que possam esperar.

O primeiro impacto que Marvel’s Spider-Man tem connosco mostra de imediato o principal conflicto do jogo: a colisão entre o mundo de Peter Parker e Spider-Man. A vida destas duas entidades está a colidir constantemente e durante todo o jogo são tomadas decisões difíceis mas necessárias aos ideais destas personagens. Como já é sabido, o vilão que nos começa a importunar bastante cedo é Mr. Negative, uma personagem com um conjunto de poderes bastante interessante e que serve como fio condutor por entre um leque de personagens imenso, muitos dos quais nem sequer vou referir.

A história acaba por ser, e de forma surpreendente, um dos aspectos mais fortes do jogo. Ver estas personagens a interagirem entre si e o desenrolar de uma narrativa épica que vai além dos básicos “do bem e do mal” é refrescante para uma história de super-heróis. Foram muitas as vezes em que quase ficava satisfeito se o jogo acabasse ali, mas a Insomniac fez um excelente trabalho ao desenvolver a narrativa com todos os seus revés.

O outro pilar essencial de Marvel’s Spider-Man é a jogabilidade, que é fantástica. Fantástica ao ponto de não querer utilizar os sistemas de Fast-Travel porque andar de teia em teia é demasiado divertido e proporciona sempre alguns momentos inesperados. Quando a própria forma de locomoção do jogo é divertida e se mantém assim durante dezenas de horas, acho que se pode dizer que foi um trabalho bem feito. O detalhe nas teias e a forma como estas interagem com o ambiente é bastante satisfatório, quer seja durante as nossas travessias pela cidade ou durante o combate.

As mecânicas de combate são versáteis e desafiantes, apesar de não conseguirem acompanhar a progressão do jogo da melhor forma. A certa altura do jogo deixamos de ver novos tipos de inimigos e todos os confrontos começam a ser extremamente repetitivos. Podemos atirar com um inimigo contra uma parede e prendê-lo com teias mais para a esquerda ou mais para a direita, mas no fundo estamos sempre a repetir o mesmo.

A base do combate de Spider-Man acaba por ser um misto entre desvios, ataques e atirar teias ou aparelhos contra os inimigos. A partir de um certo momento a minha preocupação era sempre a mesma: quantos inimigos consigo derrotar antes de ter que me desviar de um míssil e devolvê-lo ao remetente. Não é que seja um mau sistema de combate, porque não o é, mas chega a um ponto que se torna bastante repetitivo, ainda que divertido. Pessoalmente achei que a dificuldade “espectacular” é a forma ideal de aproveitar o jogo, uma vez que coloca um bom desafio, e mesmo nas secções mais complicadas, nunca se tornou frustrante.

Uma das mecânicas durante as lutas que ajuda a dar um impacto especial às mesmas são os finishers. Estas animações que podem ser activadas pelo jogador entregam um espectáculo visual cheio de energia e mostram algumas das artimanhas do aranhiço, apesar de consumirem uma barra de focus valem a pena, quer seja para acabar de imediato com um inimigo mais chato ou simplesmente aproveitar o espectáculo. As barras de focus podem também ser parcialmente utilizadas para nos curar-mos e é uma forma dinâmica de interagirmos sob pressão durante os combates, escolhendo a acção mais apropriada ao nosso estilo de jogo. A tudo isto juntam-se as habilidades dos diversos fatos assim como as várias engenhocas que podem desenvolver.

As lutas contra os vários Boss que encontramos no jogo também não são assim tão diferentes quanto isso. Depois de percebermos os padrões, resta-nos desviar dos ataques e disparar teias até ser a altura ideal para uns murros e pontapés. Aquilo que dá cor a estas lutas são os diálogos que existem entre as personagens envolvidas e o ambiente que nos rodeia que muitas vezes pode ser utilizado de maneiras criativas contra estes inimigos.

Um dos pontos altos destas lutas são as transições entre jogabilidade e sequências cinemáticas com QTE. Eu nunca pensei dizer isto, mas a verdade é que é durante estes momentos com QTE que as acções acrobáticas do Spider-Man ocorrem e nunca fiquei desapontado. É quase como que uma recompensa, uma vez que não é fácil chegar até esses momentos. Acertar neste equilíbrio entre acção e QTE é uma tarefa complicada e é um dos poucos jogos em que posso dizer que os QTE foram bem implementados.

Tendo em conta o tema de Marvel’s Spider-Man, não será surpresa se disser que jogar com Peter Parker, o outro lado da vida de Spider-Man, é igualmente importante, apesar de menos intenso. Durante estas secções que são notoriamente mais curtas, existe uma mistura de investigação, diálogos e mini-jogos em abundância. Estas secções não são propriamente divertidas mas contêm alguns elementos essenciais à narrativa e àquilo que é Marvel’s Spider-Man.

De certa forma ligadas a estas secções onde não jogamos como Spider-Man, existem também momentos onde reina o stealth e o jogo transforma-se em curtas secções onde temos que nos mover pacientemente por entre vários perigos para obter certas informações. Estas secções estão largamente espaçadas para servirem como uma pausa da acção, mas também estão presentes quando jogamos como Spider-Man e é sempre divertido deixar inimigos agarrados ao poste enquanto perseguimos a nossa próxima vítima sorrateiramente.

A cidade de Nova Iorque que exploramos como Spider-Man não é muito grande, mas está construída de forma a que conseguimos utilizar as habilidades do aranhiço da melhor forma e a proporcionar-nos um bom desafio. Dependendo da altura do dia, a cidade brilha de forma diferente e está também densamente povoada, com imensas coisas para fazer.

Um dos primeiros coleccionáveis que vão encontrar são mochilas da altura em que Peter ainda estava na escola. Estas mochilas contêm vários itens que podem utilizar em adição a mais alguns para criar fatos e engenhos. Uma vez que quis explorar o mapa assim que me deram liberdade – e foi possível explorar a totalidade da cidade logo no início do jogo – decidi apanhar todas as mochilas e fui recompensado com um fato especial. No fundo. os coleccionáveis dão várias recompensas e foi uma forma divertida de conhecer a cidade.

Quando pensava que estava praticamente despachado de coleccionáveis, eis que apareceram outros, e mais actividades, e mais coleccionáveis, e mais actividades, e por aí adiante. O que quero dizer é que existem mesmo muitas coisas para fazer em Nova Iorque e são parte da razão pela qual vale sempre a pena ir a “pé” em vez de utilizar o sistema de Fast Travel.

Para complementar a experiência existem ainda várias referências espalhadas pelo jogo. Algumas delas são bastante directas, outras estão reservadas para os fãs, e quer seja através de objectos ou falas, o jogo está repleto de bons momentos.

Graficamente Marvel’s Spider-Man não espanta. Aliás, quando estamos parados parece um jogo bastante normal para a era em que estamos. O que acaba por ser impressionante é a fluidez tendo em conta a velocidade a que podemos viajar. Nem uma única vez vi o cenário a fazer Pop Up de forma dramática, e o mesmo aplica-se a objectos e npc’s. Existem poças de água e até é possível levar o aranhiço ao banho que ele não se afoga. Apesar de não espantar pelos visuais, é um jogo que consegue entregar uma experiência bastante sólida, ainda que os reflexos das janelas e os interiores vastamente multiplicados pelos vários edifícios deixem um pouco a desejar.

No que ao som diz respeito, estamos perante um caso interessante onde a banda sonora do jogo se adapta ao que estamos a fazer. Se estivermos a viajar pela cidade de teia em teia começamos a ouvir músicas bastante características da série que ajudam a dar um maior ênfase no movimento. Se estivermos parados podemos ouvir a cidade de forma clara. E sendo um jogo com um tom cómico bastante forte, até podem ouvir podcasts do vosso arqui-inimigo John Jonah Jameson ao nível da comunicação social.

Quanto ao trabalho de voz, as vozes originais estão bastante boas, ainda que algumas personagens que vos dão missões secundárias por vezes se esqueçam de mexer a boca enquanto falam. As vozes portuguesas desta vez deixam a desejar, em especial a voz do próprio Spider-Man que destoa bastante da que está normalmente associada ao personagem. No entanto, grande parte dos diálogos foram bem adaptados à realidade da nossa língua pelo que acaba por ser uma questão de gosto/habituação.

Como um todo, Marvel’s Spider-Man é o melhor jogo do Homem-Aranha alguma vez feito e um jogo excepcional que se junta ao catálogo de exclusivos da Playstation com a sua própria marca e provas dadas. Apesar de não ser um jogo inovador na sua área também não precisa de o ser, pois é um dos jogos mais divertidos que está actualmente disponível. É sem sombra de dúvidas o jogo que o Spider-Man merece.

Positivo

  • História bem desenvolvida
  • Personagens
  • Encontros com vilões
  • Exploração da cidade aprazível
  • Extremamente divertido
  • Imenso conteúdo para desbloquear
  • Bastante fluído

Negativo

  • Combate fica um pouco repetitivo com o tempo
  • Existem algumas coisas secundárias por limar

Alexandre Barbosa

Videojogos e séries de TV são o seu meio de entretenimento favorito. Desde jogos de plataformas a RPGs todos os jogos são um hipotético interesse. Ganhou também alguns traumas com certos videojogos mas isso já era de esperar. Agora já posso parar de falar sobre mim na 3ª pessoa?

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