Análise – Mafia III

Mafia III é um jogo que carrega algum peso com o seu nome. Se perguntarem a qualquer pessoa que tenha jogado um dos antecessores qual a melhor parte do jogo, a resposta será a história. Pelo menos foi o que apurei das várias conversas que tive. Quando Mafia III foi anunciado fiquei bastante contente pois Mafia II é um dos meus jogos favoritos da geração passada. Para mim um Mafia III perfeito seria um Mafia II com missões originais, uma história igualmente interessante assim como um mundo mais vivo e com mais coisas para fazer. O que foi entregue com Mafia III foi apenas fogo de vista.

Mafia III começa bastante mal e bastante bem em simultâneo. Enquanto que a história das primeiras horas do jogo é interessante, não deixam de ser 3 horas, o que é um início bastante lento uma vez que andamos ali para trás e para a frente entre cinemáticas e saltos temporais. A equipa do Hangar 13 optou por contar a história com uma mistura de documentário feito nos anos 2000 sobre os eventos de 1968, tudo isto é muito engraçado, a ideia parece excelente no papel mas a realidade é uma enxurrada de spoilers que me proporcionou momentos em que tive que resistir a passar a cinemática à frente para não saber o fim da próxima missão antes de a realizar. Mafia III trata imensos assuntos sensíveis desde racismo, xenofobia, recriação de certos eventos e cultos e não tem medo de utilizar sotaques e linguagem forte. Enquanto que a inserção destes elementos ajudam a criar um ambiente opressivo para a nossa personagem e faz com que nos sintamos a lutar por algo maior durante as chacinas que Mafia III nos proporciona, existe algum exagero em certas situações, nomeadamente a polícia que assim que nos vê demora cerca de 5 segundos a disparar tiros, mesmo que estejam a passear.

Após a primeira missão seguem-se mais algumas horas introdutórias onde vamos formar a nossa família. Cassandra, Vito e Burk são os responsáveis por alguns distritos que de uma forma ou de outra estão de más relações com Sal Marcano o grande antagonista do jogo. Qualquer fã de Mafia II sabe exactamente o que fazer, recrutar Vito, afinal de contas não é todos os dias que podemos interagir com a personagem principal do jogo anterior. Aqui Mafia III presta de certa forma uma homenagem aos fãs do segundo jogo ao entregar alguns diálogos que explicam alguns momentos da vida de Vito após o fim de Mafia II e na minha opinião valem bastante a pena. Cassandra tem uma história bastante interessante a início, mas para ser honesto após as primeiras missões perdi todo e qualquer interesse na personagem. Já agora todas as cinemáticas e trailers que foram publicados antes do lançamento do jogo não fazem parte do produto final, por isso não esperem ver Cassandra a deitar um homem amarrado a uma cadeira para um pântano cheio de crocodilos. Este é um dos pontos que mais me chateou em Mafia III, estas personagens têm muito mais garra nos trailers do que no jogo final… Parece Overwatch tirando a parte em que Mafia III não é um MOBA e vive da sua história, é quase ridículo não trabalhar as personagens com que mais interagimos, é uma oportunidade perdida. Finalmente Burk é um Irlandês que leva a taça de personagem mais chata do jogo mas por bons motivos. De todas as personagens do jogo Burk é aquele que deixa uma maior marca e parece ter sido aquele que foi desenvolvido com mais cuidado, ainda que fique muito abaixo do desejado.

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No entanto podem explorar estas 3 personagens um pouco mais através das suas missões secundárias/ lealdade. Cada personagem desbloqueia algumas missões que permitem ganhar alguns “pontos” para com a mesma e enquanto repetem as mesmas missões infinitamente, estas personagens vão-se descosendo sobre aquilo que lhes vai na alma.

Antes de voltarmos à história temos que passar pela estrutura do jogo uma vez que está muito ligada à forma como a história nos é passada e é aquilo que eu mais abomino neste jogo, se existe razão para Mafia III não ser um melhor jogo, em grande parte pode agradecer à sua estrutura. Após uma missão introdutória que actua como catalisador para a vingança de Lincoln Clay, começa um dos jogos Open Wold mais aborrecidos que alguma vez foi criado. Uma das queixas sobre Mafia II era a falta de conteúdo opcional e secundário para fazer durante a campanha, Empire Bay era uma cidade bastante vazia de conteúdo mas repleta de missões principais originais e que valem bem a pena. A originalidade das missões de Mafia II é o seu melhor aspecto e aquilo que me vendeu o jogo na altura,juntamente com a história como é óbvio. Mafia III por outro lado quase não tem missões originais e obriga-nos a viajar quilómetros entre objectivos só para ouvirmos a banda sonora do jogo que é composta por clássicos da época, como é óbvio eu nem me importaria muito com isso, não fosse o destino uma variação de uma missão que já andamos a repetir desde o início do jogo.

New Bordeux é uma cidade que está dividida em áreas interligadas entre si, cada área é governada por um membro da Mafia e cabe-nos a nós eliminar esse chefe. Em cada uma destas áreas existem também dois negócios que geram o lucro desse chefe e antes de conseguirmos chegar até ele temos que nos apoderar desses negócios. Até aqui tudo me parece bem, o problema vem com o facto de existirem apenas 3 tipos de missões que são repetidas para cada um destes negócios. Para tomar conta destes negócios temos que: interrogar alguém, matar alguém ou destruir mercadorias; não quero ser injusto por isso também tenho que referir que ocasionalmente vamos ser abordados por veículos com inimigos que nos tentam matar. A início estas missões toleram-se mas rapidamente se tornam numa trabalheira e estas são obrigatórias. Felizmente o confronto com o chefe local é sempre uma missão original e é este tipo de missões que acabam por salvar Mafia III, que em Mafia II eram o prato do dia.

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Alguns aspectos que eu gostei de Mafia III estão em alguns detalhes como interferências no rádio quando atravessamos um túnel, no entanto outros detalhes que são na verdade ausências quase inadmissíveis são a falta de lojas para modificar carros e variar o guarda-roupa da nossa personagem. Outro aspecto que é bastante insatisfatório é o céu, sim estou a referir-me ao fundo azul com nuvens durante o dia que está bastante bom, mas apenas nestas condições. Assim que o sol se começa a por o céu ganha um tom laranja e parece que estamos a ver um quadro em movimento, e estou a referir-me a um estilo abstracto que em nada combina com o aspecto de New Bordeux.

Voltando então à história, o fio narrativo está dividido entre o documentário no futuro e o “presente”. O desenrolar da história é bastante interessante se olharmos para ela como um todo, mas enquanto estamos a jogar, a história é nos contada de forma péssima. Por outras palavras, demoramos imenso tempo a ter acesso às cinemáticas que avançam a história uma vez que entre cada cinemática está um monte de missões repetitivas e quilómetros infindáveis a percorrer e na sua grande maioria as cinemáticas terminam com um spoiler sobre o resultado da próxima missão. Em vários momentos a maneira de “acabar” com o nosso alvo é bastante criativa e eu mal podia esperar pelo momento em que antes sequer de começar a missão me diziam como é que o fiz. Gostam de spoilers? Sim? Então vão adorar Mafia III.

De qualquer forma, senti-me satisfeito com a história depois de terminar o jogo, mas apenas depois de a terminar, enquanto jogava tive momentos bastante irritantes em que o próprio jogo me spoilou. Ainda assim tenho que referir que podem tomar várias decisões durante o jogo e o resultado pode ser bastante diferente entre os jogadores. Cada jogador pode tomar várias decisões que vão afectar alguns aspectos e existem repercussões com cada escolha.

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Como devem calcular um jogo sobre Mafia tem que ter armas e aqui Mafia 3 fica um pouco aquém daquilo que esperava ainda que goste das mecânicas base do combate. Para começar não existe nenhuma loja de armas no jogo, em vez disso podem chamar uma carrinha a qualquer ponto do mapa para comprar armas ou equipar armas que já tenham comprado, assim como granadas, coletes e kits de primeiros socorros. Depressa irão perceber onde gastar o dinheiro e vão aperceber-se de algo ridículo, devido às mecânicas do jogo a arma mais poderosa é mesmo a pistola. O jogo tenta incentivar-nos a utilizar stealth fazendo com que sempre que estamos em campo aberto contra vários inimigos termos poucas hipóteses de sobreviver. Daí a pistola ser uma arma bastante eficaz, até porque todas elas têm um bom rácio de mira para rapidez, facilmente conseguem efectuar headshots.

A inteligência artificial é atroz, se tentarem manter-se fora de vista agachando Lincoln a maioria dos inimigos irá ignorar Lincoln durante o tempo suficiente para levarem uma facada, mesmo que passem à frente dos inimigos. Outras vezes para chamar os inimigos até ao nosso local assobiamos e 1 a 1 lá vêm os inimigos para serem degolados em cenas com planos de câmara claramente exagerados para dizer que Lincoln Clay é um tipo “bué cool”.

Falta-me ainda falar do aspecto gráfico do jogo que é medíocre em tudo menos nas expressões faciais. Mafia III tem realmente animações faciais bastante boas mas tudo o resto fica imensamente medíocre. Felizmente no meio disto tudo é de notar que o jogo não sofre de quebras de fps, o que hoje em dia tem que ser aplaudido. No entanto tenho que falar dos bugs que… enfim, eu presenciei 3 bugs durante a minha aventura mas basta olharem para a internet para terem uma ideia dos diferentes erros que acontecem. No meu caso foi uma porta que não parava de girar, carros que flutuavam e corpos de inimigos que foram disparados contra o céu que nem foguetões.

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No fundo Mafia III é um jogo que fica aquém daquilo que prometeu, sendo incapaz de entregar uma experiência positiva como os seus antecessores. Embora não faça nada terrivelmente mal, o que faz muito bem não é suficiente para suplantar o aborrecimento a que nos obriga para ser terminado. Embora goste da história tenho que referir que fui spoilado pelo próprio jogo; adorei as missões únicas, mas fui obrigado a fazer missões bastante repetitivas para lá chegar. Por cada ponto positivo existe sempre algo que não corre muito bem. O resultado final é um clone de GTA que precisava de mais polimento e de melhores escolhas durante o seu desenvolvimento, os pequenos detalhes como interferências no rádio quando entramos num túnel são engraçados mas não são suficientes para fazer de Mafia III um jogo que vá ser lembrado pelas melhores razões.

Positivo

  • Animações faciais
  • Vozes
  • Bons temas
  • Missões finais de cada distrito
  • História como um todo

Negativo

  • Bugs
  • Céu tem um aspecto terrível
  • Inteligência Artificial é má
  • Desenvolvimento lento, repetitivo e aborrecido
  • Somos constantemente ” Spoilados” pelo jogo

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