Análise: La Cage Dorée – A Gaiola Dourada

Que fenómeno é este?! Destrona o impacto da Soraia Chaves desnudada e ombreia com a multimilionária Velocidade Furiosa 6 pelo topo do box-office português no ano de 2013. Que longa-metragem é esta? Suficientemente cativante para que amigos, comunidade e curiosos “exijam” uma análise PróximoNível, mesmo tendo em conta que tenham passado algumas semanas desde a estreia do filme.

Gaiola Dourada é um daqueles acontecimentos que surge uma vez em cada geração, capaz de apelar à curiosidade do público e com qualidade suficiente para que a recomendação seja feita de boca em boca. Posto isto, será que o filme é assim tão bom? Ou andam todos enganados? A resposta surgirá imediatamente a seguir a estas reticências…

Gaiola Dourada conta a história de Maria (Rita Blanco) e José (Joaquim de Almeida), dois emigrantes portugueses que vivem há 30 anos em França. Como todo o bom emigrante, sonham regressar um dia a Portugal, e essa oportunidade irá chegar com uma herança fantástica, caída do céu, suficientemente tentadora para que José abdique da vida em França e cumpra o desejo de “regressar à terra”. No entanto há raízes em França. A filha mais velha está comprometida e o filho adolescente tenta encontrar o espaço na sociedade. Além disso, a comunidade portuguesa, em redor de José Maria, consideram-nos importantes, e no local onde trabalham encaram-nos como imprescindíveis.

Raramente uma mixórdia de nacionalidades funciona em cinema, mas A Gaiola Dourada defende-se com o melhor que há em Portugal na arte da representação. Joaquim de Almeida é o melhor actor português de sempre, seja a interpretar um mafioso terrível ou o genuíno português. Se o papel disse alguma coisa a Joaquim de Almeida, só o actor pode esclarecer. Maria é o pilar da história. A personagem é cómica, emotiva, credível, sólida, que contorna as dificuldades com gentileza e verdade. Um papel difícil que Rita Blanco interpretou com mestria. Quando o enquadramento “exigia” Maria de MedeirosRita Blanco demonstra ser mais portuguesa, versátil e talentosa. Curiosamente, o último trabalho dos dois actores em conjunto foi em Gru – O Maldisposto 2. Quem diria?

Para enriquecer o elenco português, A Gaiola Dourada conta ainda com Maria Viera (Rosa), que faz basicamente de Maria Viera… mas é indiscutivelmente a personagem mais divertida. O restante elenco é francês, apesar de não existir nenhuma interpretação digna de destaque, há a realçar as presenças de Roland Giraud, Chantal Lauby, Barbara Cabrita, Lannick Gautry, Jacqueline Corado, Jean-Pierre Martins e um cameo do realizador Ruben Alves.

Em relação à realização, é incrível como Ruben Alves já joga na Liga dos Campões Europeus, com uma estratégia segura e coerente na abordagem ao filme. As cenas emocionalmente intensas são defendidas com camera ao ombro e as cenas cómicas em plano aberto. No entanto, o realizador não abdica de alguns enquadramentos artísticos, tendo sempre em consideração que a acção é mais importante do que a pseudo-generalidade de um realizador.

Do ponto de vista técnico, a direcção de fotografia está fantástica – a lembrar (500) Days of Summer – em tons quentes e pouco contrastados. Eventualmente a banda-sonora e o guarda-roupa sublinham, e colocam a negrito, a “portuguesice” dos personagens, mas a decisão escapa pela intenção da comicidade.

A Gaiola Dourada está superiormente bem escrito, com running jokesset-ups, momentos embaraçosos, punch-lines anti climáticas e paradoxos. Eventualmente o vernáculo é utilizado em excesso, mas essa impressão dilui-se no domínio perfeito do aportuguesamento dos diálogos em francês.

Do ponto de vista do modelo narrativo, A Gaiola Dourada surpreende com a capacidade de contrariar o modelo clássico. Sem estragar a experiência de quem ainda não viu o filme, é necessário um talento tremendo para adiar a decisão (ou ponto de não retorno) do protagonista para o clímax, sem perder o interesse e explorando eventos que cimentam a decisão.

A Gaiola Dourada é uma comédia dramática, na qual os protagonistas (família Ribeiro) exercem um arco de transformação social e psicológica, atingindo a epifania que os coloca no espaço e no mundo. Eventualmente teria sido preferível explorar mais a interação familiar (há sub-plots prescindíveis), mas vamos acreditar que é esta a realidade familiar em França.

A Gaiola Dourada é obrigatória. Além de ser um filme muito bem escrito e superiormente realizado, apela ao orgulho português e à genética de um povo. Evidentemente que o filme existiria se os personagens tivessem outra nacionalidade, mas a portugalidade acrescenta valor à história.

É um filme francês, não poderia ser de outra forma, mas é mais português do que a maioria dos filmes na língua de Camões (até o título faz sentido após alguma reflexão). Eventualmente é um ponto determinante em favor do sucesso (apelo nacional), mas para a herança cinematográfica, fica uma longa-metragem bem contada, com profundidade humana e construção emocional. Espero que seja desta que “nós” estejamos nos Óscares.

 

Positivo

  • Realização
  • Direcção de Fotografia
  • Rita Blanco e Joaquim de Almeida
  • Mensagem positiva que contagia o público
  • Únicos momentos falados em português assumem peso transcendente
  • Segundo Celine Pereira é “rir em bom português e francês”

 

Negativo

  • Estereótipos caricaturados
  • Insuficiente relação familiar
  • Filhos com sub-plots parecidos
  • Pauleta?!

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