Análise – Kubo e as Duas Cordas / Kubo and the Two Strings (por Ana Beatriz Varela)

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Realizador: Travis Knight
Elenco: Charlize Theron, Art Parkinson, Ralph Fiennes, Rooney Mara, George Takei, Matthew McConaughey
Género: Animação, Aventura, Fantasia, Ação
Duração: 1h 41min

Kubo e as Duas Cordas é um épico de ação sobre a viagem emancipadora de um jovem contador de histórias que precisa de encontrar as peças de uma armadura perdida do seu pai para que não caiam nas mãos de Moon King. Com cenários místicos dominados pela magia, pela natureza, pela morte, pela identidade e por armas e monstros, este filme já fez soar o sino do Livro do Guinness por ser o stop-motion mais longo até à data, e também por incluir a maior marioneta construída para um filme stop-motion (cerca de 4,9 metros de altura).

Kubo e as Duas Cordas é uma conquista na realização artística cinematográfica e merece ter a devida atenção e créditos. Apesar da ideia generalizada de que os filmes de animação são para miúdos, sobretudo se forem stop-motion, este não é certamente indicado para eles, devido aos ambientes assustadores de batalhas e lutas de espadas, com exposição crua de sangue, feridas e até da morte. A sua carga psicológica é tão forte e violenta que bem podia ser um filme com atores, mas como é uma animação stop-motion com uma mistura poética de origamis, passa automaticamente a obra de arte inquestionável.

A narrativa parece localizar-se entre 250 e 538 d.C., no período Kofun, do Japão Antigo. Por essa altura, o conceito Samurai já tinha sido criado, os Torii já tinham sido erguidos, algum folclore já estava enraizado e estava-se na transição do Xintoísmo para o Budismo.

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No início do filme (e várias vezes durante o mesmo), Kubo diz: “If you must blink, do it now. Pay careful attention to everything you see no matter how unusual it may seem. If you look away, even for an instant, then our hero will surely perish.” Não sendo a tradução oficial, significa “Se precisam de pestanejar, façam-no agora. Prestem muita atenção a tudo o que vêem mesmo que pareça estranho. Se desviarem o olhar, mesmo só por um instante, o nosso herói irá morrer.” Estas palavras soam como introdução a algo que Kubo tem para nos mostrar. Todo o visual mágico, os efeitos crus do stop-motion, o conceito fantasioso, as lutas que nos prendem ao ecrã, os cenários misteriosos e os debates ético-psicológicos deixam realmente o espectador sem qualquer vontade de pestanejar.

É neste cenário que encontramos uma jovem mulher, Sariatu, a navegar numa pequena embarcação, durante uma noite de tempestade, por entre ondas gigantescas. Leva com ela o seu bebé, Kubo, a quem lhe tinha sido retirado um olho. Apesar de conseguir sobreviver à tempestade e salvar o bebé, Sariatu acaba por ficar com marcas físicas e psicológicas para o resto da vida.

Com a mãe doente, o nosso herói Kubo dedica-se a cuidar dela, e vai ganhando algum dinheiro para trazer comida para casa, a contar histórias com ajuda do seu Shamisen e do seu papel de Origami. Como que por magia, cada vez que ele toca no seu instrumento de cordas, os papéis ganham vida e transformam-se nas personagens dos seus contos fantásticos, atraindo assim as pessoas entusiasmadas. Estes poderes mágicos, transmitidos pela mãe Sariatu, através do Shamisen, são importantes para a jornada épica do rapaz.

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Mas nem tudo é fácil. Kubo tem de se esconder de Moon King e das Tias e não pode ficar fora do abrigo à noite. Perigos para os quais Sariatu o alerta constantemente. No entanto, apesar das suas dúvidas (até que ponto é que o que a mãe diz é verdade ou fruto das suas alucinações), Kubo precisa de encontrar a armadura que pertencera ao pai, Hanzo, um grande guerreiro Samurai. Para tal, conta com a ajuda de Monkey, uma macaca com pouco sentido de humor e muito pertinente nas suas palavras, e de Beetle, cuja própria identidade desconhece, sabendo apenas que foi amaldiçoado com falta de memória e aparência de escaravelho antropomórfico, e que tem de proteger o rapaz.

As suas personalidades vão chocando ao longo do filme, pois Monkey é muito focada nos seus objetivos, não se lhe aplicando a expressão “monkey business” (o macaco, nas religiões Xintoísta e Budista, tem conotações divinas), e Beetle é mais relaxado, inconsciente e dá comicidade à narrativa. Pessoalmente, tinha receio de que o estilo de humor usado fosse destoar da carga dramática do filme, mas fiquei surpreendida pela positiva, pois as piadas são ligeiras e nas alturas certas. Ainda assim, ambos têm um historial tão intrínseco na narrativa, que, sem eles, não seria possível contar a história da mesma forma. Monkey e Beetle são os pilares sobre os quais Kubo se apoia no decorrer da sua jornada, e que mostram que a lealdade é um dos princípios mais importantes.

Para um jovem de 10-12 anos, Kubo tem atitudes muito maduras – astuto, proativo e corajoso –fruto de um crescimento forçado por ter de cuidar da mãe desde muito cedo. A infância e as brincadeiras tiveram de passar-lhe ao lado, e a inversão dos papeis deu material para a formação de um herói que, sozinho, parte em busca da armadura de Hanzo.

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Esta é composta por 3 partes – a espada (Sword Unbreakable), a vestimenta (Breastplate Impenetrable) e o capacete (Helmet Invulnerable) -, as quais estão escondidas em locais diferentes, obrigando Kubo a expôr-se ao perigo para as reunir e derrotar as Tias e Moon King, as personagens anti-herói que o perseguem. A perda de um dos olhos do nosso herói, quando era pequeno, foi o resultado da pretensão de Moon King em querer que o rapaz não veja nem sinta a humanidade, e que seja uma divindade ao lado dele. Mas Kubo é verdadeiro e leal aos seus princípios e reage com os seus poderes mágicos.

Sinto que Moon King devia ter sido melhor desenvolvido, como personagem maléfica, com mais tempo de ecrã e mais detalhes sobre o seu passado, pois ele é carismático, enigmático e persuasivo. Mesmo perante a desconstrução da sua ideologia divina, ele continua a ser convincente, partindo para a batalha e defendendo a sua visão de quem merece ter uma vida com qualidade e felicidade.

As Tias, suas filhas, e irmãs de Sariatu são suas adjuvantes na intenção de matar Kubo, e o seu design lembra os fantasmas da mitologia japonesa – manto comprido e largo, máscaras iguais e chapéus muito largos para ajudar a esconder a sua identidade, capacidade de flutuar e de surgir sempre no nevoeiro da noite. A sua forma mecanizada de falar e agir sugere algum tipo de lavagem cerebral para as convencer que Kubo é o alvo a abater.

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Kubo e as Duas Cordas tem inspiração, voluntária ou não, nas obras de Hayao Miyazaki e Rurouni Kenshin. Um conto fantástico que foi beber muito ao folclore do Japão Antigo, sem medo de arriscar, e onde demonstra o respeito e a admiração dos artistas do estúdio LAIKA (Coraline, ParaNorman e The Boxtrolls) pela cultura e história do Japão. O cenário nipónico – as paisagens, a arquitetura, o ambiente festivo -, é deixado propositadamente vago, sem qualquer indicação da localidade, ou se é inspirado em paisagens reais.

A banda sonora, de cortar a respiração, em conjunto com a animação, cria a harmonia perfeita entre a imagem e o som, resultando em ambientes credíveis. Dario Marianelli (V for Vendetta, Pride and Prejudice e The Brothers Grimm) é o compositor das músicas originais, havendo rumores não confirmados da presença dos Coldplay, e a reinterpretação de “While My Guitar Gently Weeps” dos The Beatles pela Regina Spektor nos créditos finais, que… deixem-me que vos diga: são uma delícia!

O primeiro exemplo de stop-motion pode ser creditado a Albert E. Smith e J. Stuart Blackton em The Humpty Dumpty Circus, de 1898 – embora se acredite que tenha sido usado bem antes – e mostra acrobatas e animais a ganhar vida num circo. Sendo uma técnica com quase 120 anos, e tendo em conta que estamos numa época em que 99% dos filmes quotidianos levam tratamentos a nível gráfico, com ajuda de modelos 3D ou apenas uma simples edição de imagem, tenho a dizer que o casamento entre o analógico e o digital neste filme é magistral; a nudez das texturas utilizadas no stop-motion, o tratamento para suavizar, emendar e criar cenas que quase seriam impossíveis de criar apenas com a técnica analógica.

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Kubo e as Duas Cordas é um filme sério, mas recheado de ação, aventura, fantasia e humor, pelo que acho que pode ser apreciado tanto pelo público adulto como pelo jovem. As batalhas psicológicas, as crises de identidade, a melancolia e o sentimento de perda irão seduzir os espectadores mais velhos, ao passo que os jovens irão identificar-se mais com as emoções de felicidade, realização e inocência. O filme é emocionante desde o início ao fim e consegue captar diversos sentimentos da parte do espectador: é amoroso e lindo, engraçado e comovente, divertido e sensato, novo e velho, familiar e surpreendente, assustador e positivo.

Acontece que o Media Action Network for Asian Americans não achou muita piada a mais um filme sobre a cultura e a história japonesas com atores ocidentais. A verdade é que são poucos os atores de ascendência asiática que recebem papéis importantes ou principais em filmes americanos, o que acaba por ser injusto.

Embora o idioma original seja o inglês, adoraria ter visto o filme em japonês, com toda a carga cultural transmitida na sua língua original. Vou ficar à espera de rever esta obra em japonês. Quem sabe …

Quanto ao final, … é segredo!
O melhor mesmo, é irem ver esta obra-prima e perceberem qual a relação entre o título e o enredo.

Positivo

  • Animação de qualidade com a quantidade certa de melancoliapn-recomendado-2016
  • As memórias são mais poderosas do que pensamos
  • George Takei tem uma fala com o seu lendário “Oh myyy!”
  • Filme que não é “de pastilha”
  • Momentos de amor familiar superam os momentos assustadores
  • Mistura belíssima de animação analógica e digital
  • Design bem conseguido de personagens, no que toca a nuances heróicas e vilãs
  • Banda sonora
  • Créditos finais

Negativo

  • Sendo um filme americano sobre o folclore e a cultura do Japão, deveria ter sido dada a oportunidade a atores nipo-americanos de entrarem

 

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Sérgio Batista

Membro do PróximoNível desde 2015. Tira fotos em demasia durante os eventos.

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