Análise – Kingdom Come Deliverance

No que diz respeito ao estilo RPG, a maioria dos jogos gostam de utilizar a fantasia como o seu porta-estandarte, seja por feitiçaria, dragões ou raças míticas. Por vezes esses mesmos jogos implementam alguns sistemas mais realistas, outros optam por mecânicas que se adequam a um certo tipo de jogo e o resultado, acaba por ser uma aventura que nos transporta para um outro mundo. Cada vez menos, no que diz respeito ao estilo RPG, vemos jogos que tentem ser realistas e que tratem assuntos históricos sem recurso a fantasia. Na era em que vivemos, jogadas dessas podem ser extremamente perigosas.

Kingdom Come Deliverance teve um nascimento atribulado e passou por investidores que acreditaram no produto, a título individual ou através de todo o estilo de plataformas e quando o jogo começou a ganhar forma, até a DeepSilver se juntou à festa. O conceito inicial era bastante simples e arriscado, criar um RPG o mais fiel e próximo possível dos registos existentes do nosso período histórico da Idade Média. Assim nasce a WarHorse Studios, com a missão de trazer esta visão aos consumidores. Como já referi, neste momento existe uma certa escassez de alguns géneros de videojogos, não porque não exista mercado para eles, mas porque implica alguns riscos e apostar naquilo que sempre funcionou é um pouco mais seguro. Assim Kingdom Come Deliverance veio como uma lufada de ar fresco dentro do conceito RPG, já perdi a conta aos anos que passaram desde que joguei algo próximo deste conceito.

Pessoalmente, sempre fui um aficionado pela nossa história e acredito que o registo de todos acontecimentos é bastante importante para evitar, ou pelo menos, ajudar a que os erros do passado não se repitam. É interessante ter uma perspectiva das actividades mundanas da população de cada era, não nos podemos esquecer que não foi assim há tento tempo quanto isso que apareceram as rádios e televisões, modificando por completo os serões de milhares de famílias. O facto de sermos transportados para Bohemia no início do sec. XV, uma região que hoje em dia conhecemos como República Checa, implica toda uma nova realidade e a WarHorse Studios prometeu um jogo tão fiel quanto possível a esse mesmo período.

A nossa aventura começa após uma introdução histórica aos acontecimentos mais recentes, desde a morte de um rei venerado como um líder à ascensão do seu filho ao trono, que acaba por despoletar uma guerra e nós somos apanhados no meio desta grande confusão, como o simples filho do ferreiro da aldeia de Skalitz. É importante destacar que nós somos mesmo o filho de um ferreiro, não somos nenhum herói e não esperem ser importantes, vocês são apenas mais um aldeão no meio de tantos ou pelo menos é assim que começa a nossa história na pele de Henry.

Henry é um jovem adulto que como qualquer rapaz da sua idade tem as suas intrigas amorosas, amigos, ambições e o dever de ajudar o pai nos afazeres da forja e subsequentemente, é com um pedido de ajuda do pai de Henry que começamos a explorar Skalitz, que por esta altura é o nosso mundo. Enquanto percorremos as ruas de Skalitz torna-se claro que todos nos conhecem, à medida que vamos andando pela cidade somos confrontado com várias situações e algumas escolhas que mostram desde logo a existência de alguma liberdade no que toca a completar as várias missões. Logo nos primeiros minutos trocamos uns murros com o bêbado da aldeia, praticamos com uma espada de madeira, temos uma conversa “charmosa” com o nosso interesse amoroso e percebemos que isto é a vida de Henry. Claro que também podem optar por ser uns arruaceiros, podendo acabar na cadeia se preferirem, mas vou acreditar que são uns jogadores com juízo.

Esta primeira hora de jogo é passada a transmitir a informação básica sobre a nossa personagem, que sem sombra de dúvidas está muito bem escrita e executada, tal como a maioria das personagens que vamos encontrar no decorrer da aventura. Daqui nasce um dever, entregar uma espada feita pelo pai de Henry ao Lorde Radzig, só que as coisas não correm como o esperado e Skalitz é atacada por um exército que acaba por matar e queimar quase toda a população, incluindo os pais de Henry. Henry acaba por conseguir fugir e a partir daqui têm mais um par de horas de um tutorial muito bem disfarçado e é então que começamos a verdadeira aventura.

Quando o reino de Bohemia se começa a abrir à exploração, temos desde logo algumas escolhas a fazer e todas elas afectam a nossa reputação. Mas não é só de escolhas que se faz a reputação e aqui entram as mais diferentes variáveis que o jogo tem para oferecer. Que a armadura pode ser reparada já todos estávamos à espera, mas que a roupa também precisa de ser remendada, que se suja e eventualmente precisa de ser lavada, assim como Henry, eu já não estava à espera. E antes que se perguntem, sim o nosso aspecto tem influência na forma como as personagens nos vêm e nas nossas possibilidades quando interagimos com elas, afinal de contas a nobreza não acha grande piada a um membro do povo se aproximar deles com as roupas sujas e rasgadas.

Praticamente todas as missões têm várias maneiras de ser concluídas e mesmo aquelas que têm um ponto fixo na história podem ser concluídas com abordagens totalmente diferentes e por vezes inesperadas. Kingdom Come Deliverance tem um grande ênfase na história, ao contrário de outros RPG em mundo aberto que nos deixam ir para onde queremos sem grandes preocupações, aqui o mundo avança com ou sem Henry. Têm uma patrulha para fazer mas não apareceram a tempo? Os guardas fazem-na sem vocês, mas não se preocupem, tal como disse Henry não é assim tão importante. O mesmo se aplica ao resto do jogo, é importante encontrar um equilíbrio entre a história principal e as pequenas missões secundárias e fazer uma gestão óptima do vosso tempo.

A narrativa está muito bem construída e faz um trabalho excelente ao guiar Henry e absorver a atenção do jogador. Desde os eventos às personagens com quem vamos interagir, existe sempre algo que me prende a atenção. Mesmo personagens que parecem ser detestáveis têm direito ao seu tempo de antena e a possibilidade de expor a sua personalidade, o que resulta numa melhor percepção da mesma e por consequência um bom desenvolvimento que nos pode fazer mudar de opinião.

Chega de falar sobre a história que penso já ter deixado claro ser uma história muito bem executada, vamos então passar à jogabilidade. Kingdome Come Deliverance é um RPG na primeira pessoa e a primeira coisa que me surpreendeu foi o recolher de uma maçã, foi literalmente a minha primeira acção no jogo e fiquei espantado por ver o braço a esticar-se para a agarrar. Em seguida sentei-me e fiquei espantado pelo facto de a câmara acompanhar o movimento da cabeça de Henry enquanto este se senta. É como estar com um capacete de realidade virtual mas na televisão, se é que isto faz algum sentido, mas é a melhor forma de explicar a sensação que transmite. Mesmo no combate, lembram-se de ter referido uma luta com o bêbado da cidade? Pois eu ainda fiquei espantado com a forma como este me deu uma joelhada e a câmara se aproximava rapidamente do seu joelho. Sem sombra de dúvidas que ajuda na imersão e é um sistema que funciona muito bem. Já durante a grande maioria das conversas temos uma vista na terceira pessoa de Henry o que acaba por nos dar uma ideia concreta sobre a percepção do mesmo, e se estiverem sob o efeito do álcool acreditem que vão ver os seus efeitos nos movimentos e gestos.

O combate com armas é onde o jogo realmente vai dividir multidões. O combate é um sistema avassalador e que realmente nos transporta para a realidade onde os números interessam e por mais que se achem os melhores cavaleiros da Idade Média, há sempre alguém que sabe um truque a mais ou que tem um amigo pronto a ajudá-lo em combate. O sistema em si é simples de utilizar mas coloca-nos numa posição de fragilidade enorme. Lembram-se quando referi que éramos o filho de um ferreiro e não tínhamos um bom treino de combate? Bem, aqui vão poder viver toda a realidade arrebatadora de que afinal dar golpes uma espada tem mais do que aparenta. Desde o ângulo, força do golpe, a altura em que o executamos e as oportunidades pelas quais temos que esperar e conjugar tudo isto com a stamina e possíveis feridas, faz com que seja um sistema de combate bastante completo e que em simultâneo faça de Henry exactamente aquilo que ele é: um grande nabo.

Henry não sabe fazer nada em condições. Nada, cabe-vos a vocês ensinarem Henry a lutar, ler, adquirir capacidades linguísticas, charme, a roubar se assim o desejarem, enfim, a única coisa que posso dar ao rapaz é mesmo o sentido de dever que é aquilo que impulsiona a história. Vai ser completamente normal fugirem dos primeiros encontros com soldados, vai ser normal serem ridicularizados pelos vossos vários falhanços até será normal falharem redondamente a negociar preços, que já agora é um sistema bastante engraçado e que deveria estar em mais jogos, afinal de contas quem é que não quer pagar menos? Todos os produtos e serviços podem ser negociados em termos de preço e métodos de obtenção dos produtos, algumas menos legais do que outras. O mundo em constante desenvolvimento misturado com as necessidades básicas de dormir e comer fazem com que seja uma experiência bastante absorvente, mas também afastará alguns jogadores que não achem grande piada a todas estas preocupações.

Em Kingdom Come Deliverance há um sistema em particular que é capaz de deixar os jogadores bastante divididos, o sistema de gravação. Este é um daqueles jogos que só grava automaticamente em certas situações. O jogo grava quando completam ou dão início a uma missão, quando dormem ou quando quiserem com o custo de uma poção muito específica. Esta poção é cara mas também pode ser criada por vocês se conseguirem recolher ou comprar as ervas necessárias e aprender a ler minimamente. Isto para dizer que este é um daqueles  jogos que tem que ser jogado com tempo, mesmo em termos de cinemáticas estas podem ser longas, apesar de serem bastante imersivas na sua maioria e de até nos proporcionarem escolhas durante as mesmas.

Outra mecânica que não está boa é o sistema de arrombar fechaduras. É muito difícil de conseguir as fechaduras, mesmo as que estão marcadas como fáceis. É necessário utilizar os dois analógicos em simultâneo, enquanto um roda a fechadura o outro tem que acompanhar o movimento mantendo-se sempre no mesmo sítio em relação à imagem que vai rodando. Se é complicado de explicar, acreditem que é ainda mais complicado de executar e eu preferia poder utilizar uma marreta para arrombar portas.

O aspecto do jogo é bastante bom, mesmo na PS4 o jogo corre normalmente de forma estável com um bom campo de visão. O maior problema são mesmo as texturas que vão carregando conforme andam pelos vários locais. Os únicos momentos em que notei uma má performance foi mesmo durante algumas batalhas numerosas onde claramente o grande número de NPC presente faz com que existam quebras na fluídez. Aquilo que ainda assim mais me incomoda é o loading inicial que demora imenso tempo e está disfarçado de cinemática introdutória. O jogo é bastante garrido no que toca aos tons verdes das várias florestas e nas plantas que podem apanhar para posteriormente utilizar em alquimia. As cidades são facilmente identificadas e podem contar com uma dimensão bastante apropriada, não sendo grandes núcleos de população mas sim, pequenas comunidades que claramente vivem dos seus pequenos negócios. No fundo é um mundo bastante credível em toda a sua construção, das florestas às clareiras passando pelas vilas e pelos castelos, tudo parece ter sido feito a uma escala real.

Um dos toques artísticos que está muito bem pensado está na apresentação do mapa. Quando puxamos do mapa vamos encontrar uma ilustração feita à mão dos vários locais que podemos explorar, a início estão cobertos por nuvens mas conforme exploram estas vão desaparecendo. Onde realmente estas ilustrações brilham é quando fazemos zoom nas cidades e de um momento para o outro, estamos a ver um desenho bastante pitoresco e detalhado do mapa, com as várias casas e a adornar os cantos destes desenhos isolados, temos ilustrações da era com camponeses a lavrar a terra ou outros desenhos bastante pitorescos da época. É aqui também que vamos poder dar início ao fast-travel que neste jogo mais se pode chamar semi-fast-travel. Henry é representado por um boneco no mapa e quando fazemos fast-travel, vemos o percurso que ele está a fazer e somos obrigados a ver a progressão do boneco enquanto o tempo passa. Agora podem perguntar-se sobre o “porquê” e a resposta é mais uma mecânica bem pensada. Enquanto percorremos os longos caminhos podemos ser abordados por bandidos ou outras personagens e por vezes obrigam-nos a parar para lidar com a situação.

A banda sonora acompanha o jogo de forma sublime, durante a maioria do tempo nem vão dar por ela, mas nos tempos e locais certos esta intensifica-se e fortalece o momento em questão. Existem algumas músicas bastante boas, mas no geral a ideia foi criar um ambiente sonoro que nos auxilia a entrar na época. No que diz respeito a vozes e gestos, as personagens na sua maioria estão muito bem representadas, com algumas excepções que são mesmo más, normalmente aquelas personagens que só encontramos uma vez e mesmo assim apenas algumas. Já no que diz respeito aos gestos e falas mais comuns estas começam a repetir-se depressa e começam a cansar em pouco tempo.

Já aqui referi o combate e o facto de a início mais valer fugir da maioria das batalhas, mas ao certo porquê? Para além das armas variarem em termos de atributos, o mesmo acontece com as armaduras e como devem calcular, a início se tiverem uns trapos, já vão com sorte. A adicionar a isto está o facto de não existir propriamente uma forma de evoluir o combate, existe sim um conjunto de técnicas que devem ser aprendidas pelo jogador e são elas que vos podem colocar em vantagem. O que acontece aqui é que só conseguimos aprender técnicas mais avançadas depois de evoluir a nossa habilidade. O problema é que o tipo de inimigos que podemos encontrar é aleatório, tanto podem ser bandidos de pé descalço a atacar com varas de madeira, que também fazem doer só para que conste, ou podem ser cavaleiros com armaduras brilhantes e técnicas fantásticas, que fazem de nós autênticas marionetas num teatro mortal.

Infelizmente e tal como as estradas que ligam as várias aldeias de Bohemia, existem algumas fezes de cavalo espalhadas pelo jogo. Encontrei momentos extremamente frustrantes enquanto joguei algo maravilhoso. Desde levantar voo quando tentei fazer alquimia, arbustos que teimam em ser pedras, saltos que por alguma razão me empurravam para trás como se tivesse levado um tiro num filme de cowboys e acabava com o pé partido, e o pior de todos os bugs… o meu rico cavalo desapareceu. Não foi um desaparecer porque morreu, foi um desaparecer porque ele está vivo, continua de boa saúde, continuo a poder transferir itens para as bolsas da sela do cavalo, mas ele simplesmente não está em lado nenhum. Deixem-me que voz diga, explorar Bohemia a pé, é como fazer uma maratona 4 vezes por dia.

Enquanto explorei o reino de Bohemia fiz um pouco de tudo, fui o corajoso soldado que salvou a donzela; fui o velhaco que roubou as moedas ao senhor que não quis pagar; fui alquimista e soldado. No fundo fui um dos muitos possíveis Henry e as hipóteses são imensas, por isso recomendo vivamente a que experimentem ser o Henry pelo menos uma vez.

Positivo

  • História
  • Todas as mecânicas que envolvem o realismo
  • Combate, depois de bem desenvolvido
  • Personagens interessantes
  • Movimentação da personagem
  • Sistema de fast-travel
  • Representação de um mundo credível

Negativo

  • Pop-ups de texturas
  • Mini-jogo de arrombamento de fechaduras
  • Loading inicial extremamente longo, disfarçado de cinemática
  • Bugs intragáveis
  • Um cavalo chamado Pedrinhas que desapareceu e nunca mais foi visto

Alexandre Barbosa

Videojogos e séries de TV são o seu meio de entretenimento favorito. Desde jogos de plataformas a RPGs todos os jogos são um hipotético interesse. Ganhou também alguns traumas com certos videojogos mas isso já era de esperar. Agora já posso parar de falar sobre mim na 3ª pessoa?

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