Análise – Greedfall

Ora cá estamos nós outra vez, a minha relação de amor ódio com a Spiders continua. Se há coisa que posso dizer constantemente é que a Spiders tem sempre grandes ideias, a sua execução deixa a desejar e o resultado final é um jogo que até é divertido mas fica um pouco abaixo do esperado. Até agora este tem sido o desfecho de praticamente todos os jogos que joguei da Spiders e ainda assim continuo a querer jogar os novos jogos da Spiders sempre que estes são lançados. Desde que comecei a escrever para o PróximoNível já passei pelo Bound by Flame e pelo Technomancer, dois jogos distintos na sua temática mas igualmente ambiciosos. Quando vi Greedfall pela primeira vez fiquei muito contente, um jogo que vai beber a uma era de colonização onde um inevitável choque de culturas está prestes a acontecer. A civilização e a tecnologia vão debater-se contra o sobrenatural? É claro que fiquei interessado, tal como aconteceu nos últimos jogos da produtora, e eu quero acreditar que é desta.

A melhor maneira de descrever os jogos da Spiders é com o termo AA, não estou a falar de pilhas mas sim da forma como catalogamos os valores de produção dos videojogos. Quero com isto dizer que Greedfall não escapa a esta denominação. Assim que começamos a jogar é perceptível que o aspecto está datado, as animações básicas como caminhar não são nada de espectacular mas existe uma atmosfera bem trabalhada.

Em Greedfall somos o representante de uma associação de comerciantes e vamos embarcar numa viagem que nos vai levar a uma ilha repleta de segredos. Esta ilha conta com vários indícios do sobrenatural e um povo que aprendeu a viver com o mesmo. Sentindo que as suas terras estão a ser invadidas pelos “homens do mar” este povo tenta defender-se de várias formas, desde a negociação ao combate. Se isto parece familiar é porque o jogo se baseia na era do colonialismo do novo mundo numa época pós-descobrimentos e é esta atmosfera que irá ser o factor definitivo no captar da atenção do jogador. Para aqueles que gostem da temática espera-vos um RPG de acção bastante agradável, caso contrário este não será um jogo para vocês.

Em termos de jogabilidade existe uma mistura entre jogos que punem os erros ao estilo Dark Souls mas também podem utilizar um menu táctico que faz parar o tempo como em Dragon Age, entre muitas outras mecânicas que tenho a certeza já ter visto anteriormente, a verdade é que funciona. Os combates acabam por ser desafiantes e existem inúmeras hipóteses de abordar as situações dependendo das classes que escolham e das habilidades que tenham desbloqueado.

Todo o sistema de combate assenta também na variedade de armaduras e armas disponíveis. Desde espadas, sabres, pistolas, armaduras ou até mesmo chapéus, tanto a vossa personagem como os membros da vossa equipa poderão equipar variados itens. Especialmente no que diz respeito a armas, será importante aprender a combater com o que queremos utilizar.

Durante o combate os inimigos apresentam-se geralmente com duas barras distintas, uma de defesa e outra de vida. Só quando a barra de defesa se esgota é que conseguirão causar dano significativo, e para destruir essa barra terão que fazer uso de ataques fortes, podendo posteriormente utilizar ataques básicos que irão então causar dano significativo. Para nós, o jogador, aplicam-se as mesmas regras.

Greedfall conta com um mapa bastante grande para explorar que está dividido em diversas áreas. Cada área isolada conta com vários pontos de interesse e atalhos. Um dos pontos mais estranhos de Greedfall está nas suas paredes invisíveis, é normal que os extremos do mapa as tenham, é estranho quando estas existem para forçar o jogador a utilizar as escadas e perder 10 segundos quando a simples subida de uma rampa seria bem mais rápido. Claro está que algumas destas paredes não estão bem implementadas, o que resulta na inevitável quebra das mesmas e subsequentemente o nosso personagem fica preso e mesmo quando tentamos carregar o último ponto de gravação automático este gravou exactamente onde estamos e somos obrigados a perder o progresso desde a última gravação manual que provavelmente ocorreu há um par de horas.

O meu maior problema com Greedfall está na sua estrutura. Grande parte das missões seguem o clássico jogo do carteiro: Aceitar a missão, falar com alguém, recolher pistas e/ou matar um grupo de inimigos, recuperar algo e voltar ao ponto de partida. O pouco que muda é o pretexto o que nos pode levar a dar voltas pela cidade a falar com vários npc de uma forma extremamente repetitiva. As primeiras horas de Greedfall foram muito fracas, para além de parecer um tutorial exaustivo, nada realmente se passou para além da introdução da existência de criaturas “mágicas”.

Pela altura em que o jogo realmente começou já estava a exasperar, felizmente assim que chegamos ao nosso destino temos uma área imensa para explorar e várias missões disponíveis. A partir deste ponto Greedfall torna-se interessante para quem gostar da história e está repleto de segredos e alusões ao passado daquela ilha. Os combates dão-se como nos outros jogos da Spiders com grupos de inimigos posicionados em certos sítios e alguns deles servem como aviso de áreas que requerem mais experiência para ser transpostas por nós.

A linha de missões principais tem uma fio narrativo interessante mas a sua estrutura não é a melhor, já o conteúdo secundário consegue ser bastante repetitivo. Uma das opções mais ambiciosas de Greedfall está nos seus diálogos e efeitos. É possível abordar algumas missões de diferentes formas e normalmente tudo começa com um diálogo. Infelizmente não achei que todas as opções fossem realmente válidas. Um dos exemplos que posso dar está nas mecânicas de stealth. O jogo não foi desenhado com estas em mente, o que acaba por causar situações praticamente impossíveis, que requerem na sua maioria que o jogador se aproveite das falhas da IA. Como consequência algumas missões que têm essa opção acabam por ser muito mais complicadas do que se espera ou simplesmente acabamos por ter um desfecho diferente.

Em termos dos diálogos e dos impactos existe um pouco de tudo. Algumas opções reflectem apenas diferentes formas de olhar para a mesma situação enquanto outras acarretam algumas consequências. A nível sonoro é um jogo que cumpre os requisitos mínimos quer nos diálogos quer na música ambiente mas não passa daí. Os diálogos têm qualidades variáveis desde a sua escrita à entoação dos personagens, no que diz respeito a personagens secundárias fica mesmo muito aquém.

Como já referi, Greedfall fica uns pontos abaixo do esperado para um jogo da actual geração. O aspecto do jogo conta com uma mistura de cores bastante garridas nas suas florestas, como se se tratasse do Outono, as paisagens estão repletas de verdes e amarelos. As cidades por sua vez transmitem uma atmosfera imunda, quer seja pelas lamas, lixos ou fumo; o que por sua vez, ajuda a cimentar a ideia da doença. Quero com isto dizer que a atmosfera está muito bem conseguida e a performance do jogo até é bastante boa.

Greedfall não é para todos, é um produto ambicioso que irá certamente agradar a quem dá primazia a um bom ambiente e uma história interessante. O facto de não estar ao nível dos melhores jogos da actual geração é certamente um ponto a ter em conta mas não impede que se divirtam com o mesmo e se surgir a hipótese experimentem, podem acabar por encontrar aqui um daqueles jogos que lembrarão mais tarde como um tempo bem passado.

 

Positivo

  • Atmosfera bem construída
  • História interessante
  • Personalização dos vários personagens
  • Combate desafiante
  • É bastante ambicioso…

Negativo

  • … e acaba por ficar aquém em muitas das suas apostas
  • Estrutura repetitiva
  • Conteúdo secundário sem grande interesse
  • Paredes invisíveis

 

 

Alexandre Barbosa

Videojogos e séries de TV são o seu meio de entretenimento favorito. Desde jogos de plataformas a RPGs todos os jogos são um hipotético interesse. Ganhou também alguns traumas com certos videojogos mas isso já era de esperar. Agora já posso parar de falar sobre mim na 3ª pessoa?

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