Análise: Gravity – Gravidade

 

Durante milhares de anos a raça humana olhou para as estrelas e perguntou-se: Qual será o melhor filme de sempre?.. Até ao momento em que Alfonso Cuarón concluiu: Eureca! Talvez seja falacioso considerar de imediato Gravity o melhor filme de sempre, a arte de apreciar um filme implica um processo de degustação (à semelhança do vinho). Devemos evitar ludibriar-nos com efeitos-especiais e factores-surpresa, vários aspectos devem passar pelo escrutínio da experiência cinematográfica (por exemplo: Em que medida Gravity é melhor do que os demais? O que torna esta película especial? Poderia ser melhor?). A única certeza encaixa na sensação vertiginosa de que, efectivamente, estamos na presença de um dos melhores filmes de sempre.

Normalmente, é um péssimo indício quando a produtora decide adiar a estreia de uma produção. A decisão pode estar relacionada com problemas de continuidade, novas filmagens, deficiências estéticas ou, simplesmente, não acreditam no projecto. Com Gravity foi diferente. A estreia foi adiada de facto, porque a Warner Bros. entusiasmou-se com o resultado da pós-produção, e os “homens do dinheiro” engordaram o orçamento para aperfeiçoamento dos efeitos especiais e almejar uma candidatura aos Óscares de 2014.

Gravity narra a história de Ryan Stone (interpretada por Sandra Bullock), uma engenheira brilhante que desempenha a primeira missão espacial. Na companhia de Stone está Matt Kowalski (interpretado por George Clooney), um astronauta experiente, com horas a navegar no espaço sideral, capaz de auxiliar Dr. Stone. Contudo, um desastre compromete a missão e coloca a vida dos astronautas em risco, conduzindo um ambiente controlado para uma situação hostil à condição humana.

É fácil deixar-nos seduzir pelo actor que leva um filme “às costas”, mas Sandra Bullock impressiona com a espontaneidade na interação com o meio envolvente, não só com o “pano verde”, mas no desconfortável ambiente de gravidade zero. Numa história onde o destaque vai para o Universo, e para o significado dos acontecimentos, o elenco não poderia ir além de poucos personagens (George Clooney e Sandra Bullock), mesmo assim há a destacar as participações de Ed Harris, Orto Ignatiussen, Paul Sharma, Amy Warren e Basher Savage.

A realização de Alfonso Cuarón é algo de outro planeta. Na prática, não é muito complicado realizar um filme espacial (não foi necessário levar a equipa lá para cima, nem o realizador precisou de preparar a iluminação e os enquadramentos), contudo, esse trabalho teve de ser executado na pré-produção e na pós-produção, para que a fluidez, entre o que é real e gerado por computador, fosse orgânica. A realização impressiona pelos planos em movimento e continuidade, contudo a beleza da realização transcende-se na dinâmica dos eventos, a evolução dos planos subjectivos para os planos gerias, transmitindo na perfeição o momento vivido pelos personagens.

Visualmente, Gravity é belíssimo. Evidentemente que o fascínio natural pelo espaço sideral potencia o encanto, mas, ao contrário da maioria dos filmes de ficção-cientifica, Gravity tem o paladar da verdade. Os restantes departamentos técnicos também estão de parabéns, com uma banda-sonora a preencher uma realidade silenciosa, e uma edição de vídeo fantástica. Como é que sabemos que é fantástica? Os planos em movimento não foram feitos de empreitada, portanto, a suavidade dos cortes e a montagem orgânica correspondem de forma imaculada à intenção do realizador.

Pontualmente acontecem destas coisas, um filme que desmarca-se do banal, que eleva a bitola da Sétima Arte e intromete-se na elite sagrada do cinema. Mas Gravity não é só um rebuçadinho para os olhos. O primeiro acto emerge o espectador no Espaço e os mais atentos só perceberão que há uma história para contar quando o personagem principal necessita de tomar decisões.

Os “pseudo-intelectualóides do contra” podem argumentar que: em Gravity não existem dinâmicas entre personagens, que a transformação do protagonista e os dilemas resumem-se à sobrevivência ou morte. Contudo a balança pende em favor de Gravity, tendo em conta que contém uma profundidade filosófica descomplicada da condição humana. Gravity abdica da verbalização das emoções, ficando as mensagens à responsabilidade da acção. Talvez seja a tentação de procurar significado onde não há, mas estar à deriva no infinito do universo poderá ser um sinonimo de claustrofobia, constituindo em si, um paradoxo. Outras inferências poderão surgir: o corpo humano está construído de acordo com as leis do Planeta Terra (gravidade, atmosfera, natureza); não estamos fisiologicamente preparados para a era espacial; e explorar o Universo não é pera-doce. Uma epifania para a humanidade, numa história em que a soma das partes é igual à perfeição. 

Positivo

  • Qualidade do elenco
  • Visualmente espetacular
  • Profundidade filosófica
  • Edição
  • Banda-Sonora

 

Negativo

  • Algumas incoerências no capítulo da física
  • Sensação de que o Universo está determinado em aniquilar Sandra Bullock
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