Análise – God of War

Jogo analisado numa PS4 e testado numa PS4 Pro

Descrever algo praticamente perfeito é bastante complicado mas é aquilo a que me proponho com esta análise, sem estragar nada sobre a sua história ou envolvente para que também vocês possam ter a experiência que eu tive. Segundo a ordem cronológica, a última vez que vimos Kratos estávamos perante um precipício, tanto literalmente como metaforicamente falando; para onde é que vamos depois do Olimpo? A essa pergunta a Santa Monica Studio resolveu responder com God of War para a PS4, uma nova aventura que leva o conhecido “guerreiro perfeito” a novos horizontes, onde as batalhas que o esperam o vão levar a transcender-se enquanto Homem, Deus e pai.

O jogo não perde muito tempo com explicações e coloca-nos de imediato no controlo de Kratos, a partir deste momento a câmara está fixa na história, não há cortes, não há ecrãs de loading (a não ser quando iniciam o jogo), é uma narrativa contínua sem quebras e que nos vai levar numa montanha russa de emoções. Durante as primeiras horas de jogo vamos ser confrontados com a realidade da vida de Kratos, longe vão os dias de matar deuses. Neste momento, ele é um homem assombrado pelos fantasmas do passado, foca-se nos dilemas do presente para os manter bem longe da realidade que está a construir e por uma boa razão, afinal de contas tem aqui uma segunda hipótese de ser pai. A outra grande parte desta aventura épica é Atreus. Atreus é um rapaz jovem que por sua vez foi confrontado com a morte da mãe e tem um pai ausente da sua vida, apesar de este estar presente. É uma relação complicada a destes dois. Esse acaba mesmo por ser um dos grandes pontos de God of War, ao longo de mais de 30 horas irão explorar um mundo e as várias dimensões das personagens que irão encontrar pelo caminho; tudo isto com o mote de satisfazer o último desejo da mãe de Atreus.

A mudança de paisagem implica também uma mudança de ideologia e digo isto, sobre tudo aquilo que é esperado de um God of War. Trocamos o estilo hack’n slash por um combate mais preciso, trocamos o panteão grego pelo nórdico e o foco muda radicalmente de um ponto de vista que elevava o combate como expoente máximo para uma experiência que encontra o equilíbrio perfeito para um videojogo de acção com mecânicas RPG. Este equilíbrio é aquilo que mais aprecio neste God of War. A equipa do estúdio Santa Monica conseguiu criar uma experiência avassaladora, que contempla os momentos de acção frenética que nos fazem elevar ligeiramente da cadeira, momentos onde o cenário fala por si só, deixando-nos sem palavras, assim como momentos onde desenvolve a narrativa e de certa forma a intriga. Os antagonistas desta história são importantes mas esta é uma história que vive sobretudo da relação entre pai e filho, o que a torna numa das mais delicadas e potentes histórias concebidas num videojogo.

A relação de Kratos e Atreus é o ponto sempre presente durante a jornada. Vamos ver como Kratos lida com o filho ao longo do jogo, como este tenta controlar as emoções e educar o filho, em simultâneo, vamos ver como a inocência de um jovem é moldada pelos eventos de uma aventura épica. É fantástica a forma como o jogo nos consegue puxar para aquele universo, estamos constantemente a ser estimulados para prestar atenção aos desenvolvimentos. Se estamos numa situação de exploração de canoa, então assistimos a conversas que nos revelam sempre algo novo sobre as personagens, desde o carácter à sua percepção do mundo, se estivermos em momentos de combate a nossa atenção está virada para a acção que está a decorrer, enquanto exploramos vamos encontrar vários puzzles que requerem atenção e são bastante interessantes para além de oferecerem sempre uma recompensa. No fundo o jogo está constantemente a recompensar o jogador, o que nos leva a investir ainda mais em God of War.

As personagens contam com uma movimentação bastante natural, Atreus não é uma pedra no nosso sapato e acaba por nos ajudar de várias formas, existindo mesmo um botão dedicado a Atreus e acções que este pode tomar, de resto, é tudo feito de forma automática, é quase como pensar que Atreus já é um menino crescido. As vozes estão também elas muito bem adaptadas, quer no idioma original quer na sua localização para português, a personalidade vincada de Kratos está retratada de forma bastante convincente no idioma original e pouco se perde com a localização. A banda sonora é arrebatadora, existem momentos que transpiram emoções fortes graças a esta e momentos onde a sua ausência tem o efeito pretendido, deixando-nos de certa forma, desamparados para com a situação.

Graficamente é um regalo para a vista e o facto de ser um jogo que não adere de forma total ao formato open world faz com que seja possível visitar locais espantosos e repletos de detalhe. Se estiverem a jogar na PS4 Pro irão ter acesso a um modo que coloca o grafismo em 1º lugar ou um modo que dá primazia a fluidez. Se estiverem a jogar numa PS4 normal não se preocupem, pois o jogo continua a ser um dos jogos mais belos que podem encontrar na plataforma. O único problema que encontrei foram mesmo dois ou três momentos em que a fluidez soluçou, mas foram momentos tão parcos e espaçados que acabaram por nem incomodar. Ainda assim desenganem-se se acham que é um jogo linear como os seus antecessores, existem momentos para tudo, momentos de exploração em locais amplos e locais mais lineares repletos de segredos, a melhor parte é que todos os recantos estão trabalhados de forma a recompensar os exploradores e audazes, mesmo que prefiram lá voltar depois de uns melhoramentos, sim, vai acontecer. Haverá mesmo momentos em que não irão conseguir progredir porque ainda não têm a ferramenta apropriada para ultrapassar um certo puzzle e terão que voltar mais tarde, mesmo os puzzles mais básicos podem envolver o uso do nosso Leviathan Axe que tem a particularidade de congelar aquilo em que toca, por isso preparem-se para tirar proveito dessa particularidade, mesmo fora do combate.

Falando então da progressão das personagens. Como já é sabido, God of War trouxe consigo elementos RPG e é agora possível equipar Kratos e Atreus com armaduras, armas e vários tipos de ataques. Até aqui parece o sistema RPG normal, só que não existe um sistema de níveis linear, por isso não esperem ver subidas de níveis da forma clássica. Tudo depende do vosso equipamento e alguns itens bastante específicos que aumentam a vossa saúde e a barra de raiva, esta última proporciona alguns momentos onde Kratos tem a hipótese de virar o combate a seu favor tornando-se praticamente indestrutível. Lembram-se quando referi que explorar todos os recantos do mundo tem as suas vantagens? Bem é neste sistema que vão utilizar parte das vossas descobertas, as restantes dizem respeito à história deste local com fragmentos de história que ajudam na imersão para os interessados. Ao derrotar inimigos vão ganhar pontos de experiência para desbloquear novos movimentos, o que nos leva ao sistema de combate.

Desta vez Kratos está munido de um machado que funciona como a mjölnir de Thor, ou seja, podemos atirar o machado para onde quisermos e basta clicar num botão para ele voltar às nossas mãos. A sensação de estar a meio de um combo, atirar o nosso machado atingindo um inimigo, chama-lo e atingir outros inimigos no regresso é tão boa da primeira vez como na centésima. Este é um sistema de combate bastante diferente, mas o que realmente importa é que não só funciona, como nos obriga a aprender a ler os movimentos dos inimigos constantemente, perceber as suas fraquezas e fazer uso de todo o nosso leque de movimentos para sair vitoriosos. O combate continua a ser desafiante e divertido, o facto de termos a câmara sobre o nosso ombro ao invés de uma vista aérea faz com que possamos ser surpreendidos com ataques pelas costas e para tal temos que ter atenção aos indicadores que rodeiam Kratos e nos informam sobre projecteis ou ataques iminentes reagindo assim a estes. Se bem se lembram uma das imagens de marca da série eram as execuções e os QTE (quick time events), estes estão de regresso mas de uma forma mais subtil. Especialmente no que diz respeito aos QTE que são agora mais orgânicos e envolvem mais input do jogador, agora deixam-nos controlar certas sequências ao invés de termos uma animação pré definida onde só tínhamos que metralhar os botões.

Durante o combate Atreus pode ajudar de forma bastante significativa, com o pressionar de um botão Atreus pode atingir os inimigos com flechas e em certas ocasiões até faz mais do que isso, tornando-se um parceiro precioso durante estas secções. Aquilo que é surpreendente nesta mecânica é que a história não pára e dependendo dos desenvolvimentos Atreus reage não só verbalmente e emocionalmente mas também se comporta de forma diferente durante as secções de combate. Estes pequenos detalhes são apenas alguns dos que fazem com que God of War seja um jogo tão completo e emocionante, nós conseguimos acreditar que estas são personagens reais derivado dos seus comportamentos.

Enquanto explorava o mundo, dei de caras com várias personagens que nos tentam com recompensas em troca de certas tarefas secundárias. Estas são completamente opcionais e levam-nos a locais que de outra forma não iriam ver, é possível completar a história principal do jogo e não ver grande parte do mundo criado pelo Santa Monica Studio. Além de tudo isto, podem completar estas missões quando quiserem, mesmo depois de terminarem a aventura, pelo que existe imenso conteúdo em God of War. Depois de terminarem a história existem muitos desafios extra, existem locais onde o combate mostra as suas verdadeiras cores e só quem realmente dominar o combate irá conseguir conquistar a vitória.

No geral esta é uma aventura que superou as expectativas. God of War é a experiência que reúne aquilo que se faz de melhor na indústria dos videojogos e apresenta-nos todos os factores com uma jogada de mestre. God of War atinge algo praticamente perfeito ao equilibrar uma narrativa intrigante, um sistema de combate imersivo e um mundo repleto de locais fantásticos para explorar; esta é uma experiência que deve ser vivida por cada um de vós, é uma experiência delicada e que pode ser arruinada facilmente com spoilers, razão pela qual mantive esta análise longe de detalhes de história e não só, para que possam ter uma experiência tão única como eu tive. Pode-se dizer que neste momento este é o melhor jogo disponível na PS4.

Positivo

  • Narrativa
  • Desenvolvimento das personagens
  • Sistema de combate
  • Imenso conteúdo
  • Mundo graficamente soberbo com paisagens épicas
  • Banda sonora

Negativo

  • Quebras de fluidez pontuais

Alexandre Barbosa

Videojogos e séries de TV são o seu meio de entretenimento favorito. Desde jogos de plataformas a RPGs todos os jogos são um hipotético interesse. Ganhou também alguns traumas com certos videojogos mas isso já era de esperar. Agora já posso parar de falar sobre mim na 3ª pessoa?

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Alexandre Barbosa

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