Análise – Fullmetal Alchemist Live-Action

Na vida, existem certezas absolutas e incertezas. Tal como a vida e a morte, existem coisas tão certas como o nascer e o pôr do sol, o bem e o mal. Mas esses conceitos acabam por ser subjectivos. Qual é o limite do bem? Se as intenções forem boas, a acção pode ser considerada má? O que é ético é sempre correcto? A humanidade não consegue ganhar nada, sem primeiro dar algo em troca. Para que algo seja obtido, algo de igual valor deve ser perdido. Esta é a primeira lei da alquimia da Troca Equivalente.

O manga de Fullmetal Alchemist nasceu da criatividade de Hiromu Arakawa, em 2001, tendo a sua serialização terminado em 2010, num total de 27 volumes. Em 2003, a história foi adaptada para o ecrã pelos estúdios Bones, os quais, num ano, lançaram 51 episódios. Mais tarde, em 2009, os mesmos estúdios voltaram a pegar na história e chamaram-lhe Fullmetal Alchemist Brotherhood, obtendo uma boa recepção por parte dos fãs. As duas versões do anime têm finais diferentes, já que a versão original foi lançada enquanto que Hiromu Arakawa escrevia e ilustrava a história; já Brotherhood tem um ending mais fiel ao manga. As duas versões são muito aclamadas e conseguem mesmo até gerar algumas rivalidades dentro da comunidade de fãs.

A narrativa conta-nos as aventuras dos irmãos Elric – Edward e Alphonse – que ficaram com lesões crónicas graves após um ritual de alquimia que correu mal. Alphonse ficou sem o corpo por inteiro, enquanto que Edward perdeu um braço e uma perna, mas consegue salvaguardar a alma do irmão numa armadura, e repor os membros perdidos com próteses mecânicas. De forma a conseguir devolver o corpo ao irmão – e também os seus membros -, Edward tornou-se um Alquimista Federal, de forma a conseguir obter a lendária Pedra Filosofal.

O início das filmagens deste live-action deu-se nos princípios de Junho passado em Itália, e terminaram no Japão em Agosto passado. O filme estreou no Festival Internacional de Cinema de Tóquio, a 25 de Outubro.

O elenco de actores contou com as presenças de Ryosuke Yamada como Edward ElricTsubasa Honda como Winry RockbellDean Fujioka como Roy MustangRyuuta Satou como Captain Maes HughesYo Oizumi como Major Shou TuckerYasuko Matsuyuki como LustKanata Hongou como Envy, e Shinji Uchiyama como Gluttony.

Neste filme, lançado na Netflix no passado dia 19 de FevereiroEdward tem uma idade que ronda os 20 anos (no manga, ele tinha 15 anos). Alphonse foi totalmente processado em CGI. Esta adaptação é realizada por Fumihiko Sori, que teve a sensibilidade de transportar a experiência do manga para o cinema, condensou parte da história de Fullmetal Alchemist num filme repleto de acção, drama e comédia, que dura cerca de 2 horas e 13 minutos.

Tendo isto como base, Fullmetal Alchemist Live-Action teve um efeito agridoce: se por um lado a narrativa tende muitas vezes a sofrer por falta de coerência, por outro todos os pontos-chave do início da história do manga foram tocados e trabalhados – embora, claro está, num estilo de adaptação. Sori optou por se focar num elenco mais pequeno que o esperado, deixando de lado personagens como Alex Louis Armstrong, Pinako Rockbell, Scar, King BradleyMei LingIzumi Curtis ou mesmo até Rose Thomas. Também não é mostrada a cena em que os irmãos queimam a casa onde cresceram – nem as respectivas razões – nem explicam como Edward conseguiu o seu relógio – que é apenas mostrado nem meia dúzia de vezes.

Grande parte da narrativa concentra-se em torno de uma personagem central: Edward. Ryosuke Yamada conseguiu, positivamente, dar vida ao irmão Elric mais velho, embora este esteja um pouco off-character quando interage com Winry – em vez de manter o seu papel tsudere, torna-se submisso, e apenas discute com ela uma vez. Mas Ryosuke tem o olhar apropriado para as expressões de Edward, embora exageradas, mas isso dá-se um desconto, pois já é típico de live-actions japoneses. Embora Edward mantenha o seu cabelo loiro – ignorando o facto que muitas vezes nota-se que a trança é postiça – e vestes icónicas, Winry não foi alvo dessa caracterização cuidada: é morena – embora com o rabo-de-cavalo – e consegue ser mais hiperactiva e animada que no manga/anime. Não é necessariamente algo negativo, pois entende-se que é uma adaptação da história original, mas a personagem acaba por perder credibilidade.

Já a nível de CGI, o casamento entre esta técnica e live-actions japoneses não costuma ser o mais favorável, no entanto, desta vez, o resultado foi mais positivo que negativo. Enquanto que alguns green screens/chroma keys com Edward estão estranhos e parecem que ainda precisavam de algum trabalho, Alphonse está mesmo muito bem conseguido. Durante grande parte do filme esqueci-me da característica 100% CGI desta personagem, e isso são muitos pontos a favor.

A nível de interacção, algumas personagens são estáticas e não expressam muita linguagem corporal – o que é característico em live-actions japoneses. É muito normal que os actores adoptem um estilo mais teatral, no entanto a linguagem corporal é um ponto muito importante para Fullmetal Alchemist. Na história original, o corpo humano é alvo de uma celebração da vontade humana para superar lesões físicas, deficiências, padrões de DNA e o próprio destino. Assim, neste aspecto, o live-action peca por não arriscar.

Outro aspecto que achei interessante foi o facto de o filme ter uma visão mais virada para a ética: enquanto que no manga/anime a parte em que os irmãos perdem o corpo/partes do corpo após o ritual para ressuscitar a mãe – ou seja, ainda em crianças -, no live-action esta cena é passada num sonho de Edward, em que ele já tem a idade presente, não colocando os actores infantis nessa posição.

No geral, Fullmetal Alchemist Live-Action tem aspectos positivos, mas tem também margem para corrigir os negativos, tanto na narrativa, argumento, forma como os actores interagem e a própria adaptação em si. O filme desvia-se muito da história original, deixando lugar para questões, que seria rapidamente esclarecidas caso este seguisse mais a lógica do manga. Também dá-se a entender que poderá, eventualmente, haver uma sequela, o que pode significar que talvez possamos ver um novo e melhorado Fullmetal Alchemist Live-Action em breve.

Positivo

  • O CGI do Alphonse está muito bem feito
  • Os personagens, no geral, mantiveram-se on-character

Negativo

  • O propósito dos antagonistas nunca foi explicado propriamente
  • Os adereços dos actores – nomeadamente as perucas – não pareciam ser os melhores
  • A adaptação podia ter sido melhor pensada, tendo em conta que a ideia original não era seguir a história do manga à risca
  • A postura dos actores é demasiado rígida, não transmitindo naturalidade e credibilidade

Ana Beatriz Varela

Vinda do Espaço Sideral, interessa-se pelo fenómeno da Cultura Pop em todas as suas vertentes. Ainda não percebeu o conceito "sociedade".

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